Opinião

As grandes lições do desporto

Manuel Rui

Escritor

A alegria e a tristeza são próprias do ser, da vida individual ou colectiva. Cada um de nós já passou por essas emoções que se confundem com momentos de felicidade ou infelicidade. Tem vezes, que por acção de poucos, milhares ou milhões vibram de alegria.

01/09/2022  Última atualização 06H55

Ainda Angola acabava de proclamar a sua Independência e já uma plêiade de jovens davam a milhares e milhares de angolanos a alegria de sermos campeões africanos de basquetebol. O tempo dos Guimarães… e não eram muito altos. Foram anos seguidos a enchermos os nossos corações de alegria, o basquete das tabelas de rua, os quadros humanos, a ginástica como antídoto do estúpido flagelo da guerra, da intermitência da falta de energia eléctrica e da água, a falta de comida, o comboio atacado e a linha desfeita, mulheres queimadas vivas e angolanos descompatriotados por ligação ao mais ignóbil regime que foi o apartheid, fizeram atrasar o país mais de cem anos.

 Fomos campeões até dar raiva da cara de meio ainda mundo muito mais ainda por marcarmos presença nos mundiais. Uma vez, eu tinha escrito versos que passaram no ecrã quando Angola estava numa final. Eu chorava e meu neto adoptivo ralhava "se o avô não pára de chorar desligo a televisão!” Outra vez, estava no aeroporto, a selecção ia viajar, o Morais fez questão de chamar o treinador para me cumprimentar e eu brinquei: "já não lavo mais a mão.”

 Depois foram as Pérolas do andebol feminino. Lembro-me que na geração da Barbosa, saíram de Luanda sob a pressão da guerra e trouxeram o troféu de campeãs africanas. Isso havia de se tornar um hábito e, este ano, em tempo de urnas e urna, mais uma vez, venceram.

Interrogo-me relativamente aos prémios atribuídos a cada uma das "Bás”. Dizem que recebem pouco. Aliás essa maka do pagamento aos nossos atletas e equipas técnicas não é pacífica. Sugeria um festival de apresentação ao público, venda de posters, camisolas e outros adereços, balaios para cada um colocar dinheiro, ouro, diamantes e pedaços de céu para as Pérolas brilharem mais. E os nossos heróis do desporto têm de visitar as escolas. E as fotografias desses heróis devem estar nas paredes das escolas orlando a de Agostinho Neto.

As vitórias desportivas só existiram porque erguemos a bandeira e cantámos o hino. Ninguém daqui foi expulso. Saíram para trazerem a morte matada. Não estou a inventar. Costumam mandar escrever a história. E ela é descontada. É bom repor a história verdadeira. A história é como um desporto mas para matar. Tem vencidos e vencedores mas a verdade é que todos perdem. Tenho um verso que diz que "a história embora escrita era também mandada.” Olhem só: o Papa, o tio Chico daquele clube argentino, foi ao Canadá pedir perdão. Ninguém sabia, pelo menos eu, que a Igreja Católica havia cometido crimes, genocídios contra os canadianos, os aborígenes, de tal forma graves e contra a humanidade que dão inveja ao diabo com aqueles garfalhões em brasa a espicaçar nas costas dos pecadores… e quem manda as pessoas para o inferno é Deus. Mais uma vez a dialéctica do mal e do bem, da noite e do dia… que uns estudantes angolanos em Coimbra, na sua República, não tinham massa para férias em Angola e ficaram, conversavam muito, uma vez ficaram a conversar até às tantas da madrugada e um, meio ensonado falou: "caramba, já é tão tarde que parece cedo.”

Também fiz desporto na adolescência. Fui capitão e campeão de juniores em Nova Lisboa. A minha equipa usava soberba, superioridade. Nos esquemas daquele tempo eu era médio ofensivo. Fomos jogar à Caála. Um terreno difícil, com uma areia quase brita, uma claque infernal e se passava o comboio e apitava… era golo da Caála. Estivemos a ganhar por dois zero. Na segunda parte, um baixinho, recebeu um passe longo, fintou-me de corpo, fez um chapéu e dois a um. Logo a seguir fez outro golo. E, quando ninguém esperava, ele transportava a bola, o comboio passou e apitou, eu entrei de carrinho, passou-me a bola por cima, eu arrastei as costas pelo chão e… golo. Fiquei a chorar com as costas em ferida para ser tratado com mercurocromo no fim. Mas antes fui abraçar o goleador. Tinha perdido e não havia nada a protestar. Foi uma grande lição. Saber perder. Passei na Caála com Muteka e Kapangu, a fazer comícios até Caconda. Ambos foram assassinados na Acmol com Assis e Machado, não nutro qualquer ódio para quem os matou porque renasceram nos versos da cantiga "Meninos do Huambo” que é de todos nós e não fala em guerra mas em amor.

O desporto é uma grande lição para a política ou para os que vão à política só para receberem o dinheiro da candidatura e não pagarem à miudagem que trabalhou para eles. Caramba! Até uma equipa que leva dez zero e reclama? É preciso introduzir o vídeo árbitro nas eleições e acabar com o regabofe do dinheiro. Andam uns a pagar impostos…  Arranjem patrocínio… ou cavem nas Lundas. Agora, prestem contas e quem palmou combú deve ir fazer comício na Comarca.

  Sou dos que se emociona de alegria até à lágrima que, para mim, é um fenómeno que melhor representa a natureza humana. Aqui no meu beco, a vizinhança lá de baixo, chorava como eu de alegria, uma mais velha morreu e todos com a mesma lágrima passaram da alegria para a tristeza.

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