Reportagem

As estratégias que marcam a diferença no combate ao vírus

Em Angola, foram realizados, até ao momento, cerca de 200 testes em todo o país (oito casos positivos e dois óbitos decorrentes do Covid-19). Sem um sistema nacional de saúde, acesso à tecnologia e um quadro de técnicos e especialistas de renome, o combate às pandemias ou surtos epidémicos pode tornar-se numa quimera de resultados imprevisíveis.

03/04/2020  Última atualização 10H41
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O que têm em comum Singapura, Alemanha, Coreia do Sul ou Taiwan? Além de serem democracias consistentes, os Governos e especialistas locais têm conseguido responder à pandemia sem elevado número de fatalidades.

O segredo está na edificação de sistemas de saúde robustos, no acesso à tecnologia, rapidez e transparência na comunicação com os cidadãos, aplicação de regras de distanciamento social e realização massiva de testes à população, mes-mo daqueles sem sintomas da doença.
Às 17 horas de 1 de Abril, Singapura registava mil casos positivos de Covid-19 e apenas três mortes. A Alemanha, 74. 508 casos e 821 mortes, a Coreia do Sul, 9.887 casos po-sitivos e 165 óbitos, enquanto Taiwan anunciava 329 infectados e cinco mortes.
No mesmo dia, os EUA tinham 190.297 infectados e 4.115 mortes, a Itália situa-va-se nos 105.792 casos e mais de 12 mil mortes. A Espanha apresentava 102.136 positivos e mais de nove mil mor-
tes. A maior taxa de mortalidade é a de Itália, logo se-guida da Espanha, Holanda, França e Suiça, todos países europeus.

O exemplo de Singapura

Caso a Singapura não tivesse um sofisticado e extenso programa de rastreamento de contactos, que permitiu seguir a cadeia do vírus de um para outro, identificando e isolando essas pessoas - e todos os pa-rentes próximos - antes que pudessem espalhar o vírus, a tragédia seria maior.
"Teríamos acabado como Wuhan", diz Leong Hoe Nam, especialista em doenças infecciosas do hospital Mount Elizabeth e consultor do Governo de Singapura, em declarações à BBC.
A eficácia é clara no caso de Julie, uma paciente sul-coreana que se deslocou ao hospital, no início de Fevereiro, com tonturas e febre. Menos de uma hora depois de confirmar que tinha contraído o vírus, o sistema entrou em acção.
"Eu estava na minha cama do hospital, quando recebi uma chamada telefónica", disse Julie, citada pela BBC.
O que se seguiu foi um questionamento meticuloso de tudo o que Julie tinha feito e de todos os que contactara nos últimos sete dias.
"Eles queriam saber com quem tinha estado, o que tinha feito, quais eram os nomes destas pessoas e os seus números de contacto”, explicou.
Os funcionários procuravam por quem tivesse passado mais de 30 minutos com a pessoa infectada num espaço de dois metros.
Julie falou com o rastreador de contactos durante quase três horas. No final do telefonema, tinha sido possível identificar 50 pessoas. Todas foram contactadas pelo Ministério da Saúde de Singapura e colocadas em quarentena durante 14 dias. Deste grupo, ninguém desenvolveu o vírus.
O sistema que Singapura utiliza para combater o novo coronavírus tem sido elogiado por diversas instituições. Os epidemiologistas americanos de Harvard descreveram-no como um "padrão-ouro de detecção quase perfeita".
Também a Organização Mundial da Saúde (OMS) deu os parabéns à Singapura por ter agido com rapidez e decisão, antes mesmo do primeiro caso ser detectado, ao contrário dos EUA e de grande parte da Europa e de outras regiões do mundo, que desvalorizaram a ameaça.
"Se deixarmos passar algum tempo, tudo se tornará muito mais difícil, porque começam a surgir muitos casos", diz Siousxie Wiles, professor associado da Universidade de Auckland, na Nova Zelândia. Um pico muito rápido de casos positivos coloca em risco os sistemas de saúde, mesmo dos países mais avançados.

Inteligência polémica

Os rastreamentos via telemóvel e via inteligência artificial, bem como os sistemas modernos de análise de informação individual, são polémicos na maioria dos países democráticos.
Mas Chong Ja Ian, professor da Universidade Nacional de Singapura, acrescenta outras interpretações relativamente à forma como o seu país aborda este debate.
"As pessoas crescem e vivem numa sociedade altamente vigiada, então, o rastreamento é normal para elas. O alcance do Estado não é muito questionado. É um dado adquirido. As pessoas aprenderam a viver com isso", explica.
Em países africanos e asiáticos com grandes populações e sistemas de saúde de baixa qualidade, como a Indonésia, por exemplo, encontrar os infectados por Covid-19 é como procurar uma agulha no pa-lheiro. Os Serviços de Saúde não têm ideia de onde surgirá o próximo caso.
No dia 16 de Março, o director-geral da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, de-nunciou que não se tinha ainda registado um aumento vertiginoso do número de testes, isolamento e rastreamento de contactos, elementos que devem ser a "espinha dorsal" da resposta à pandemia.
O médico etíope disse também que não é possível "combater um incêndio com os olhos vendados" e que as medidas de distanciamento social e lavagem das mãos não extinguirão o coronavírus.

Testar, testar, testar

Com mais de 63 mil casos confirmados do Covid-19 a 30 de Março, a Alemanha é um dos países mais afectados pela pandemia, de acordo com as estatísticas oficiais. Até 30 de Março, apenas 560 pessoas tinham morrido, o que significa que a taxa de mortalidade era de apenas 0,9 por cento.
Apesar do número de óbitos ter disparado entre 30 de Março e 1 de Abril (para os 821 mortos) continua a ser uma das taxas de mortalidade mais baixas. Segundo especialistas, a baixa taxa de mortalidade está directamente associa-da à política de testagem generalizada.
"Em alguns países, apenas casos muito sintomáticos são testados (por exemplo, na Itália) e em outros é realizada uma estratégia de teste mais ampla (caso da Alemanha)", descreve Dietrich Rothenbacher, director do Instituto de Epidemiologia da Universidade de Ulm, na Alemanha, citado pela revista americana Time.
"Entre os diferentes países, há várias razões pelas quais a taxa de mortalidade pode variar, mas elas são insignificantes se comparadas com o impacto da testagem generalizada", diz Liam Smeeth, professor de epidemiologia clínica na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres.
Em 15 de Março, a Alemanha estava atrás apenas dos Emirados Árabes Unidos, Coreia do Sul e Austrália em número de testes realizados por número de habitantes (a estimativa na Alemanha é de 2.023 testes por milhão de pessoas).
No dia 20 de Março, Lothar Wieler, presidente do Instituto Robert Koch - o principal órgão alemão de saúde pública -, disse que os laboratórios daquele país estão em condições de realizar cerca de 160 mil testes por semana, tantos quantos foram concretizados entre 15 de Janeiro e 15 de Março.
Pelo menos 1,4 milhões de testes distribuídos mundialmente pela OMS, até ao final de Fevereiro, foram produzidos por uma empresa alemã com sede em Berlim. Enquanto isso, nos EUA, a Food and Drug Administration (FDA) estava paralisada.
"Como a Alemanha lançou os testes à medida que a epidemia se desenvolvia, significa que eram mais propensos a identificar casos leves", disse Smeeth.
Os países sem essa capacidade de testagem foram obrigados a priorizar os casos graves, deixando para trás os casos leves não diagnosticados e, portanto, não incluídos nos números oficiais.
"Quanto mais casos verificarmos, mais a taxa de mortalidade diminuirá", acredita Liam Smeeth.
A Alemanha também possui um grande número de camas de cuidados intensivos, o que significa que os seus hospitais, até agora, não foram sobrecarregados com pacientes da mesma forma que alguns hospitais no Norte da Itália.
De acordo com um artigo publicado em 2012, a Alemanha tinha 29,2 camas de cuidados intensivos por cada 100 mil habitantes - mais do dobro das 12,5 camas da Itália. Nos EUA, o número é ainda mais alto do que na Alemanha (34,2 camas de cuidados intensivos por cada 100 mil habitantes).
Mesmo assim, o número relativamente baixo de mortes na Alemanha pode sofrer algumas alterações nas próximas semanas.
“Ainda estamos numa fase inicial da pandemia", diz Rothenbacher. "O número de fatalidades aparece sempre com algum atraso", explica.
*Com agências

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