Opinião

As escolhas de Cabo Verde

03/08/2019  Última atualização 08H14


Durante vários anos Cabo Verde destacou-se pelo seu crescimento impressionante. Apesar destes resultados optimistas, a pobreza, o desemprego e a falta de diversificação afectam uma grande parte da população e as infra-estruturas apresentam-se pouco desenvolvidas e com falta de manutenção para garantir os objectivos do Governo. A sua dívida avultada continua a ser um entrave considerável. O arquipélago deve actualmente envidar todos os esforços no sentido de estabilizar as suas finanças públicas.
Desde que se tornou independente, Cabo Verde alcançou um feito incontestável. É um dos únicos países africanos a ter implantado em conjunto a democracia, com a garantia do multipartidarismo e das liberdades, dando início a um desenvolvimento económico sem precedentes. Este forte compromisso político deu frutos e permitiu que Cabo Verde, a partir de 2008, saísse da lista dos Países Menos Desenvolvidos da ONU. Actualmente, a ex-colónia portuguesa desperta um grande interesse junto dos investidores estrangeiros que não hesitam em aplicar nela o seu capital.
A título de exemplo, as autoridades ultrapassaram largamente os seus objectivos durante a recente iniciativa Cabo Verde Investment Forum, angariando investimentos de 1,5 mil milhões de euros, valor que ultrapassa em muito os 500 milhões previstos. No entanto, não nos deixemos iludir.
A tarefa continua a ser enorme porque ainda existem fragilidades significativas, que constituem uma ameaça para a economia cabo-verdiana, que deve enfrentar uma dependência de dois tipos. A primeira é externa. A localização geográfica e o facto de apenas 10 por cento das suas terras poderem ser cultivadas fazem com que Cabo Verde dependa das importações para se alimentar. Por conseguinte, como o volume de exportações é muito reduzido, Cabo Verde depende financeiramente do turismo e do apoio da sua diáspora, ou seja, das suas duas principais fontes de receitas.
A segunda dependência, relacionada com a sua economia, com um peso muito mais grave, é a dívida pública. É certo que diminuiu de 129,5 por cento, em 2016, para 126 por cento do PIB, em 2017, graças à aceleração do crescimento (1,1 por cento em 2015, 4,7 por cento em 2016, 4 por cento em 2017 e 4,5 por cento em 2018).
No entanto, para o FMI, esta dívida representa um grande risco com consequências consideráveis. O país deixa de poder financiar as infra-estruturas indispensáveis para o desenvolvimento previsto de alguns sectores-chave, como é o caso do turismo ou da pesca. A este ritmo, o Governo será rapidamente condenado a reduzir os orçamentos na área da saúde ou da educação.
O Grupo de Apoio ao Orçamento (GAO) em Cabo Verde pediu que as autoridades aumentassem as receitas e reduzissem a despesa pública, mantendo o orçamento dos sectores sociais críticos.
Aliás, o próprio Primeiro-Ministro Ulisses Correia e Silva reconheceu recentemente, numa entrevista concedida a um diário francês, os desafios que o seu Governo tinha prometido enfrentar, em especial: “a resiliência, por outras palavras, a capacidade de reagir aos choques externos, tais como as alterações climáticas.
Além disso, a conectividade, fundamental para um país com ilhas dispersas, para garantir a circulação de bens e pessoas, bem como de turistas para promover, desta forma, o sector da mobilidade, as empresas de transporte e melhorar as ligações aéreas.”
JOSÉ OLIVEIRA | Cidade da Praia

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