Opinião

As eleições não são um jogo!

Apusindo Nhari

Jornalista

– «As eleições não são um jogo!» – afirmou a senhora do canto da sala. Cenho franzido e cara de poucos amigos, via-se que encarava o assunto como muito sério e não estava para brincadeiras. Mas o jovem insistiu:

08/05/2022  Última atualização 14H00

– «Mas não é um jogo como!? No final o objectivo é haver um vencedor!!»

E lá estava o Cali de novo "em jogo”...! Provocador. Informal. Uma semana depois de o termos encontrado no Longa. Seguimos um cartaz que convidava para um debate no Elinga e um dos animadores era ele. Fomos assistir.

– «Mas o vencedor não o deveria ser por vencer um jogo... Mas sim porque através da proposta que apresenta ao eleitorado – ou por outros méritos que lhe sejam reconhecidos – o convenceu que era a melhor opção. As eleições têm que ser um processo limpo e transparente, em que o sentido último é o interesse público…».

A interlocutora era "brava”. Meia-idade, algumas brancas a sobressair na farta cabeleira, e com ideias muito reflectidas sobre o tema eleitoral. Dona Tininha, como era conhecida, continuou:

– «O jogo dá sempre azo a trapaças, a "espertezas”, a encenações. Não, as eleições não devem ser um jogo e também não devem ser um espectáculo. O problema é que esse momento passou a ser encarado apenas como uma oportunidade para se obter o poder, como se este fosse algo em si e não apenas um meio para satisfazer os anseios da maioria da população. É verdade que qualquer jogo tem regras, mas na grande maioria deles, não só elas têm alguma elasticidade, como os intervenientes estão sempre a tentar induzir o adversário no engano, com o fito de daí tirar alguma vantagem».

Cali era um animador. Interpelava. Nem sempre porque não estivesse de acordo com o que ouvia, mas para incitar a que os argumentos se esclarecessem…

– «Mas então não é isso mesmo que se tem que fazer, Dona Tininha: convencer o eleitorado que somos os melhores?».

– «É claro que o objectivo é esse , mas com propostas concretas para o  ciclo de governação para o qual estão a concorrer. Todos os que se apresentam na linha de partida, deveriam estar preparados para discutir os assuntos que nos preocupam, e não centrar-se em ataques aos adversários e frases bonitas que, na maioria das vezes, não querem dizer nada. O que vemos habitualmente são acusações. Como cortinas de fumo que procuram esconder o que (não) fizeram, ou que não têm ainda consolidado como programa a oferecer».

– «Ah, lá está!!» – retorquiu com um largo sorriso nos lábios o Cali – «”na linha de partida…”! Como vê, está a propor uma corrida!!».

Dona Tininha, professora, não pôde deixar de perceber o sentido do sorriso do jovem Cali. Sorriu também e esclareceu:

– «Até posso estar, mas uma corrida não é um jogo. E se é verdade que há factores genéticos que dão vantagens a alguns, nelas, o mais importante é, sem margem para dúvidas, a preparação. A seriedade com que se encarou a competição e se estruturou a equipa. Com que se fez o estudo, o planeamento. E se  predispôs aos sacrifícios necessários para que se chegue ao dia da prova nas melhores condições. Numa corrida é mais difícil a batota e não é o espectáculo que determina o vencedor».

– «Quem está mais bem preparado ganha! né, Prófe?».

– «Quase sempre, caro Cali. Nas corridas as regras são muito claras, controláveis por todos, transparentes. É claro que o controlo de dopagem exige sempre que haja órgãos independentes que analisem cada um dos intervenientes para ver se não usam meios ilícitos para tirar vantagem. Mas tudo perfeitamente definido, o que é permitido e o que não é. É isso que eu gosto no atletismo: a clareza de procedimentos. Nos –  jogos há sempre um papel demasiado importante dos árbitros que, apesar das regras, têm sempre uma enorme margem de interpretação e podem (mesmo sem intenção deliberada), falsear os resultados. E há muitas situações em que os jogadores têm margem para cometer ilícitos que os árbitros dificilmente poderão ver».

– «Mas, Dona Tininha, não acha que o nosso processo eleitoral está bem regulado? Afinal temos a Constituição da República, a Lei dos Partidos Políticos, a Lei Orgânica sobre as Eleições Gerais…!».

– «Eu sei.  A questão está em traduzir e aplicar na prática o que lá está, como por exemplo os artigos 63 e 64 dessa última, onde se garante que todos devem desenvolver a campanha em igualdade de circunstâncias e ter igualdade de tratamento..».

– «Xê, Kota!?, não me faça rir… Igualdade de quê?».

– «Também me rio, às vezes!, Só que  se não formos todos nós, os eleitores, a exigir que as leis se cumpram, elas serão pouco mais que uns rabiscos no papel. A responsabilidade é nossa, dos cidadãos».

Já era tarde, tivémos mesmo que sair, preocupados! Mas percebemos que o tema do debate era decisivo.

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