Opinião

As eleições gerais de 2022 e a gestão das artes e da cultura

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

Gostaria de saber qual é a visão sobre as artes e sobre a gestão cultural de cada partido político que vai concorrer às eleições gerais de 2022, em Angola?

24/08/2021  Última atualização 09H55
Nas artes e na cultura estamos habituados a lidar com a incerteza, o improviso e o efémero, mas, não temos dúvidas, sem elas não é possível pensar seriamente (de modo sustentável) o desenvolvimento artístico e cultural de um país.O mais provável é que artistas, criadores, intelectuais e profissionais das artes e da cultura votem em função do partido político que tiver uma visão sobre as artes e sobre a cultura mais inovadora, ousada e atrevida possível, que corresponda melhor com a vida da sociedade e do cidadão de hoje, em Angola, na sua diáspora e, em geral, no mundo.
De um modo geral, em função de como os interesses nacionais  e como cada partido político os enuncie, e eles coincidam com as necessidades do cidadão, cada eleitor se reverá em determinada força política para, depois, em sã consciência decidir em quem votar.Não me parece que já tenhamos os dados completos, que nos permitam ter ideias mais assertivas de quais são as peças e as estratégias de cada jogador. Como os franceses gostam de dizer, durante as eleições gerais, tem de haver uma espécie de "romance de poder”, uma história pessoal, emocional e afectiva, que faça com que uma parte significativa do eleitorado se sinta, a priori, representada ou se identifique com uma força e um líder político em concreto, que com o seu carisma ou o seu à vontade façam antever um futuro promissor.
Até ao momento, pouco ou nada sabemos, ainda, sobre as ideias, os projectos e programas dos partidos políticos que se vão digladiar. O cidadão comum, aqueles que estão atentos à política, os novos votantes e os eleitores conscientes precisam de informação mais detalhada. Muitos de nós queremos saber o que pensam sobre o desenvolvimento das artes e sobre a gestão cultural, porque essa questão, muitas vezes subalternizada, será decisiva para o voto.
Tenho imensa curiosidade em saber como cada partido político prevê, caso vença as eleições gerais de 2022, cuidar tanto do desenvolvimento das artes e da gestão das instituições artísticas e culturais, como de todo o entranhado de problemáticas que lhes são inerentes e cuja complexidade está muito longe de ter sido adequadamente resolvida, ao longo do período pós-Independência.Com honrosas excepções, se há um domínio onde a maior parte dos partidos políticos, em Angola, não tem mostrado uma visão séria, a meio caminho entre a reinvenção das tradições, passando pela formação e educação de recursos humanos e até a ousadia de colocar à disposição o estímulo financeiro consistente que permita desenvolver estrategicamente este importante domínio é, certamente, o das artes e o da cultura.
O partido no poder tem nisso mais experiência que todos os outros. Até muito recentemente, alguns partidos políticos, fundamentalmente aqueles que são uma emanação de algum movimento de libertação, carregavam o distintivo de "tradicionalistas”, coisa que hoje fica difícil saber se continuam a ser ou não. Mas o certo mesmo é que não consta que tenham uma visão, seja ela qual for, sobre as questões das artes e da cultura, o que é gravíssimo.
Ser tradicionalista, do modo como era entendido nos anos 70 e 80, transportava-nos para uma noção mais folclórica e rural sobre o conhecimento e gestão da coisa cultural, um segmento importante, porventura nuclear de parte significativa dos grupos étnico-linguísticos e das culturas que fazem parte da diversidade que nos enriquece e que deve ser convenientemente valorizado.
Porém, as artes e as indústrias culturais e criativas, as questões sobre o património cultural material e imaterial, sobre a propriedade intelectual e os direitos conexos, a questão das línguas nacionais, a problemática da educação e da formação artística, a complexidade de um cenário despartidarizado do exercício e da fruição estética e, de um modo geral, a complexidade do mercado das artes, da literatura e das ideias, exigem uma preparação cada vez mais exigente, à altura dos desafios do mundo de hoje.
O partido político que assumir um compromisso sério com o desenvolvimento das artes e da cultura em Angola e, na prática, concretizar um belo "romance de poder” com os artistas, os criadores, os intelectuais e os profissionais das artes e da cultura como o mais transversal dos sectores da economia terá, seguramente, muita mais possibilidades de voltar a VENCER as eleições gerais de 2027.É, por isso, que eu gostaria de saber qual é a visão sobre as artes e  sobre a gestão cultural de cada partido político que vai concorrer às eleições gerais de 2022, em Angola?

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