Opinião

As candidaturas no MPLA

Ismael Mateus

Jornalista

Ao que consta, nenhum dos 18 primeiros secretários provinciais do MPLA foi desafiado e, por isso, por todas as províncias do país há apenas candidatos únicos. É preciso dizê-lo com clareza: isso não é bom para o próprio MPLA nem é bom para o país.

01/11/2021  Última atualização 10H05
Com tantos anos de desgaste político, os primeiros secretários não podem reunir toda essa unanimidade interna. Não havendo esse consenso e unanimidade à volta dos líderes provinciais, deve ser assumido haver circunstâncias objectivas e subjectivas que impedem, condicionar ou "atemorizam” os militantes a apresentar candidaturas.


O silêncio dos militantes e retracção de eventuais candidatos deveria preocupar grandemente o presidente João Lourenço porque assim não concretiza o seu papel de reformista (em 2026 ele já não poderá ser candidato) e, por outro lado, transmite a percepção de absoluta normalidade, quando, na verdade, algo está errado. Acreditar que nas 18 províncias do país não existe ninguém com competência e ambição política para pretender ser primeiro secretário provincial do partido é absurdo e não vemos nenhuma razão lógica para a direcção do MPLA acreditar nessa pseudo-realidade. Há, obviamente, algo que constrange os "atrevidos” a avançar e adia o pleno exercício das múltiplas candidaturas no MPLA.


Estas circunstâncias deveriam levar a comissão de candidaturas a valorizar ainda mais o anúncio do engenheiro António Venâncio de enfrentar o presidente João Lourenço. Mesmo sem qualquer condição de ganhar (e até não sabemos se tem condições estatutárias para concorrer), António Venâncio presta um enorme serviço ao seu partido, oferecendo-se como cobaia do processo democrático interno.


Com a sua pesada cultura de Governo, a dúvida é se as bases do MPLA estão preparadas, tanto a nível provincial como nacional, para aceitar que "o chefe” seja legal e publicamente contrariado por outro camarada, sem que este passe a ser visto como o líder de um complot e seja colocado à margem das amizades, dos favores e dos círculos de influência que o partido oferece.


Outra hipótese também pode ser o facto de os próprios pré-candidatos não se terem preparado convenientemente e terem cometido erros nos procedimentos. Depois do exemplo da UNITA, qualquer militante de base pode impugnar as conferências e o Congresso, o que leva que se observem com rigor todos os procedimentos.


Em terceiro lugar, esses candidatos únicos vão conduzir o MPLA nas eleições autárquicas. Se elas ocorrerem em 2023 ou até 2024 ainda estão em período deste mandato. Quantos deles terão aceitação dos cidadãos?
Não se trata, de modo nenhum, de uma interferência nos assuntos internos do MPLA.


O pulsar da sua democracia interna tem reflexos sobre os avanços e retrocessos da democracia do país. Mesmo que em termos de procedimento assista ao MPLA ser rigoroso, no plano político a multiplicidade de candidaturas não se concretiza e os adversários do MPLA passam a ter toda a razão para duvidar que seja capaz de implantar no país o que não consegue fazer internamente. Trata-se de um problema político e, por isso mesmo, era de todo desejável que o processo eleitoral interno do MPLA proporcionasse em todas as províncias e no nível nacional um debate contraditório entre diferentes pontos de vistas e a possibilidade dos militantes apoiarem livremente quem bem entendessem.


E mesmo tendo em conta o perigo da impugnação, o país ganharia mais se a direcção do MPLA tivesse adoptado medidas  excepcionais para que se concretizasse o debate contraditório e a prova eleitoral entre dirigentes provinciais do MPLA.
Com eleições a caminho e a popularidade da oposição em crescendo, o MPLA necessita de um Congresso que tenha também o condão de voltar a unir a grande família do MPLA e voltar a mobilizá-los para a vitória. Terá de ser um Congresso que discuta os principais pontos de clivagem interna, nomeadamente o combate à corrupção, as reformas internas e a estratégia eleitoral, transformando esse debate imprescindível num elemento de unidade e fortalecimento da coesão interna. E isso não é possível com unanimismos.


Sem oposição interna e para que o Congresso não venha a ser um mero encontro de amigos, o MPLA deveria ter capacidade de reflexão crítica para encontrar um modelo que permitisse liberdade de expressão e abertura total para discutir a estratégia do partido e ter o efeito aglutinador que se espera.


Minimizar o efeito do desgaste governativo e o impacto negativo de medidas governativas dos últimos anos, não permite encontrar respostas políticas adequadas, entre as quais esta o aprofundamento da democracia interna e o reforço da coesão interna.
Não fazer de tudo para unir e trazer ao debate interno todas as partes e grupos que se sintam excluídos ou que se excluíram, abre por outro lado, espaço para que essas figuras fragilizem ainda mais o maioritário.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião