Opinião

As actividades extra-escolares como base de sociabilidade

Manuel Rui

Escritor

Quem não se lembra da sua primeira carteira, do seu primeiro caderno, da ardósia e do cheiro da sacola, os tinteiros e as canetas com aparos?

14/10/2021  Última atualização 05H05
E, nos tempos em que se construiu a ideia de alfabetizar a criançada toda e não só, quem não se lembra de ver pelas ruas as crianças cada uma com sua lata debaixo do braço para se sentarem porque não havia carteiras e, quantos que estudaram sentados em latas hoje são doutores? E quem se lembra da bola de meia ou bola de trapos? Na minha escola apareceu um rico com bola de borracha, era gordo e podão. Jogava metade em cada baliza e quando abola saltava para a fábrica de gasosas que apreendia bolas, ele é que saltava, cheio de medo dos cães mas trazia a bola apreendida, de contrário vinha o pai e o das gasosas encolhia-se todo.

É bom aprender com a parte lúdica. O convívio nos intervalos, as conversas, as descobertas de consensos nas brincadeiras inventadas.

Na minha escola 33 que ainda existe ali ao pé do primeiro sapalalo (prédio de rés-do-chão e primeiro andar) nós tínhamos canto coral e eu fui escolhido para solista do "gira que gira fiando o linho” e também era o declamador de serviço no dia primeiro de Dezembro. No colégio e Liceu havia canto coral e desporto.

No fim do ano havia a grande festa do Liceu e a grande festa da Escola Comercial. Era uma disputa, Havia teatro, música, orfeão e imitação dos professores. Havia campeonatos de futebol e basquetebol. Tudo nos fez manter unidos e com saudades até nos perdermos pelos novos caminhos da vida.

A escolaridade não consegue seus objetivos sem  a componente humana do convívio. Naquelas horas de recolher obrigatório, escassez de comida, futuro interrogado, noites de tiroteio, havia juventude que se reunia nos terraços dos prédios e produziam grupos de dança que a televisão transmitia para conforto dos nossos espíritos.

Os caçulinhas da bola davam outra animação e projetavam futebolistas do futuro. Os quadros humanos na cidadela era a meninada envolvida na criatividade coletiva. A cidade estava pejada de tabelas de basquete, o basquete de rua que alimentou a grande potência africana que foi Angola ainda sem gigantes.

E agora? As escolas têm professores de música, de ginástica, têm orfeão, há campeonatos desportivos interescolares? E as Universidades? Há eleições? Como funcionam as associações académicas? As universidades deveriam ser obrigadas a ter um Campus. É o campus que anima uma universidade, com os apartamentos, as cantinas, as regras de convívio, as manifestações artísticas e desportivas. Nos EUA tem universidades em que é obrigatória a disciplina de natação. O estudioso da nossa literatura Russel Hamilton, concluído o curso com alta nota, por ter medo de nadar não recebeu logo o diploma, passou por departamento de psicologia e até estar preparado para aprender a nadar e concluir o curso de natação recebeu o diploma e a indumentária. Claro que por aqui se percebe o motivo porque a América ganha em natação, como ganha em basquete e outros desportos cuja base é a Universidade.


Infelizmente, o post revolução envolve sempre a massificação que banaliza. Por aí se vê o primeiro vice-reitor da Universidade, Reitor, simbólico era Agostinho Neto, o vice poderia dar um razoável contino. São estas e outras coisas que explicam a razão porque o nosso desporto salvo a exceção do andebol feminino anda pelas ruas da amargura. Porque desde a primária à universidade vive-se para aprender ou, em "algumas universidades para comprar os cursos.” São as chamadas universidades de cuspo e giz Daí que os pais que podem mandam os filhos estudar no estrangeiro. As daqui ficam para os pobres.


A arte e o desporto são pilares da formação da cidadania. Era bom voltarmos ao basquete de rua, ao grupos de dança e ao quadros humanos.

Angola é dos países Africanos com melhores estruturas desportivas. Organizámos o Africano de Futebol, fizemos estádios em várias cidades, modernizámos os aeroportos (qualquer aeroporto de província é melhor que o aeroporto da Namíbia, por exemplo. Organizámos o africano de basquete e foram restaurados e erguidos novos pavilhões. Depois, abandona-se o que foi feito quando os estádios até podem abrigar escolas desportivas. Um dia vi o estádio de Ombaca em Benguela e doeu-me o coração de ver capim alto e abandono, parece que a coisa já mudou.

Mas se olharmos para o panorama desportivo actual, na sua generalidade é decadência e é mais fácil ver um jovem com uma camisola do Real de Madrid ou de outra equipe estrangeira do que com uma camisola de uma equipe nacional.

Mas há os teimosos que continuam a lutar pela arte e o desporto da escola primária até à universidade. Estou com esses sonhadores do que deve ser realidade. Isso faz falta para a nossa autoestima, para sermos "nós mesmos” como dizia o poeta, para cantarmos de alegria e erguermos mais alto a nossa bandeira. Para enchermos todos os estádios e pavilhões. Para ganharmos a S. Silvestre.
Por amor. Para que não seja a coisa mais triste…que é perder o amor.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião