Cultura

Artistas plásticos prestam tributo ao Mestre Kapela na galeria Espaço Luanda Arte

Com apoio do Governo Provincial de Luanda, a galeria ELA projecta a criação de uma Casa-Museu Kapela Paulo, onde se poderá ministrar aulas da escola estética africana “Poto-Poto”,uma referência no continente

10/06/2024  Última atualização 07H33
Obra da artista Oksanna Dias intitulada “Morri e Renasci” Quadro “Lendas não nascem” da autoria de Danick Bumba © Fotografia por: DR

O Espaço Luanda Arte (ELA) inaugura, na sexta-feira, a partir das 18h00, a exposição colectiva "Sou Bakongo”, em homenagem ao Mestre Kapela, falecido em Novembro de 2020. Trata-se da quarta edição desta iniciativa que visa prestar tributo ao artista Kapela Paulo, conhecido na cena cultural por "Mestre Kapela”, reunindo artistas emergentes e consagrados das artes plásticas. Segundo Dominick Tanner, responsável do ELA, nesta quarta edição a exposição será composta por 40 obras, avançando, entre outros presentes, nomes como Alcides Malaika, Danick Bumba e Oksanna Dias. 

"Embora o Mestre Kapela tenha tragicamente falecido por complicações devido à Covid-19, em Novembro 2020, este projecto nasceu em 2018 e, por isso, este grande artista foi homenageado por duas vezes, em 2018 e 2019, ainda em vida, como raramente acontece no nosso cenário cultural”, salientou Dominick Tanner.

Sem obedecer a um tema específico, os artistas presentes nesta exposição tiveram como grande motivação apenas render uma homenagem ao Mestre Kapela, para realçar as suas qualidades enquanto figura importante das artes plásticas no país.

"Vamos celebrar a sua arte inspirada no ser humano e destacar o artista incrível que foi. Lembrar que o Kapela Paulo, nascido em Maquela do Zombo, Uíge em 1947, e foi tido como um dos pais da arte contemporânea nacional. A participação de cada artista com uma obra em tributo ao Mestre Kapela é já por si uma incrível homenagem, prova o quanto era muito respeitado e amado”, observou.

Quanto a projectos que tenham como finalidade preservar o legado deste grande mestre, Dominick Tanner salientou que o ELA tem buscado por parcerias, avançando que uma das grandes ambições é a materialização da criação de uma Casa-Museu Kapela Paulo, na qual se poderá ter, entre várias actividades, a possibilidade de ministrar aulas da escola estética africana "Poto-Poto” a alunos de escolas públicas ou privadas, de qualquer idade. Dominick Tanner revelou que neste projecto o ELA contará com a importante ajuda do Governo Provincial de Luanda.

De recordar que Mestre Kapela foi uma das grandes referências do estilo "Poto-Poto”, uma escola endógena de arte africana nascida nos anos 1950 em Brazzaville, República do Congo, e da qual o Mestre Kapela foi aluno nos anos 1960.

"Uma vez formado, o sonho do Mestre Kapela foi sempre ensinar esta técnica africana aos angolanos. Foi algo que nunca realizou mas que queremos agora implementar. Estamos a preparar o terreno para o projecto, que visará manter a memória e identidade do mestre bem viva”, adiantou.


Parceria entre ELA e Mestre Kapela

Mestre Kapela teve, nos últimos anos da sua vida, uma salutar relação com o  Espaço Luanda Arte, onde ficou em residência artística por algum tempo. O artista vivia em condições precárias no interior do edifício que alberga a sede da União Nacional dos Artistas Plásticos (UNAP), tendo sido, posteriormente, levado para o Beiral. Dominick Tanner recordou que não só foi muito saudável como sustentável, por terem ajudado o Mestre Kapela a finalmente viver bem da sua arte.

"A partir do momento em que o resgatámos do Beiral, com a ajuda da Fundação Arte e Cultura, o importante foi dar autonomia ao Mestre Kapela e garantir que o seu destino pertencia única e exclusivamente a ele mesmo”, justificou.

Ao sublinhar os ganhos da parceria entre ELA e Mestre Kapela, Adriano Maia referiu que entre 2015 a 2020 foram vendidas na Feira de Arte 1:54, em Londres, 14 obras do artista à galeria Jean Pigozzi, que detém uma das maiores colecções de arte contemporânea africana. 

"Levámos Kapela à Feira de Arte de Cape Town, fez uma residência artística na Bahia, Brasil, que deveria ter corrido melhor, mas permitiu que a sua obra participasse do ´SP Arte´,  em 2020. Também criámos esta plataforma de homenagem ao Mestre”, apontou.

Quanto ao espólio do artista, Dominick Tanner revelou que a galeria ELA já não detém mais obras do Mestre Kapela para serem vendidas. Por isso, disse terem apenas acesso ao mercado secundário, onde aparecem obras importantes de vez em quando permitem ao ELA fazer a venda das mesmas.

"Recentemente, fizemos uma exposição no Camões com obras de uma colecção privada angolana. Através de outras colecções esperamos um dia não só continuar a fazer exposições semanais mas também editar um livro sobre a vida e obra do Mestre Kapela”, traçou.

 
Prémio Nacional

Mestre Kapela foi distinguido na  21ª edição do Prémio Nacional de Cultura e Artes (PNCA), em 2020, o maior reconhecido do Estado angolano no sector da Cultura. O pintor Mestre Kapela foi distinguido por ser "um artista multifacetado e ter um lugar de excepção no contexto artístico angolano, cuja trajectória confunde-se com a história recente do país”, lê-se na acta do júri.

Mestre Kapela se tornou numa referência e uma fonte inesgotável de inspiração para a nova geração de artistas angolanos, graças à força extraordinária de suas obras e à sua figura carismática e quase profética. As pinturas de Kapela são imbuídas de um forte sincretismo, fazendo referências directas ao catolicismo, à filosofia bantu e a rastafarianismo. Artistas da dimensão de Lino Damião, Marco Kabenda, Toy Boy, Nelo Teixeira, Kiluanji kia Henda e Yonamine, Cristiano Mangovo e outros da nova geração reconhecem terem sido influenciados e inspirados pela vida e obra de Mestre Kapela.

As obras de Paulo Kapela pertencem a várias colecções, tanto nacionais quanto internacionais, das quais destacamos as seguintes, Fundação PLMJ, pessoa colectiva sem fins lucrativos, Colecção Costa Lopes, as duas em Lisboa, Portugal, Colecção Nuno Lima Pimentel, Colecção Lopes Crespo, Colecção Privada António Seguro, Fundação Sindika Dokolo, Colecção SEORF, Fundação Arte e Cultura, todas de Luanda, Colecção Hotz, Cidade do Cabo, África do Sul, e C.A.A.C. Colecção Pigozzi, Genebra, Suíça.

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