Opinião

Arte, política e género em Angola

Adriano Mixinge

Escritor e Jornalista

É uma mudança que já se vem verificando no contexto das artes visuais e plásticas, em Angola, incluindo nas diáspora, desde há algum tempo: de modo delicado, por vezes até mesmo algo incómodo para alguns, mas, tão evidente parece-me ser a sua consistência que, apesar dos obstáculos que deve continuar a superar, tem conseguido se impôr.

20/09/2022  Última atualização 07H18

Ao contrário do que prevalece ainda em muitas instituições, onde a ideia de género tem sido incapaz de ultrapassar a dicotomia entre o masculino e o feminino e a noção, muito básica, de que pensar o género é pensar somente no fortalecimento do poder da mulher: é nas artes visuais e plásticas que actualmente, podemos constatar posicionamentos mais abrangentes, inclusivos e realistas, consentâneos com o entendimento psicológico, antropológico e sociocultural sobre o assunto em todo o mundo.

 Com efeito, é à volta da reflexão de Simone de Beauvoir resumida na sua conhecida frase "On ne naît pas femme: on le devient” (Nós não nascemos mulher: tornamo-nos uma), e não só, que tantas discussões e debates tem suscitado nas reflexões feministas, incluindo para a desconstrução da masculinidade, que está o cerne da questão e que permite ir para além das questões somente biológicas, uma discussão  que não me parece que tenha sido nem sequer esboçada nem feita- com as suas devidas consequências - nas organizações de mulheres angolanas de nenhum partido político, no nosso país, mas que, no entanto, acontece em colectivos feministas que surgiram na sociedade civil.

Evidentemente, quiseram as circunstâncias, que a sequência política e mediática que une o discurso de Laurinda Cardoso, no acto de investidura do Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço, ao de Carolina Cerqueira na Assembleia Nacional, logo depois de eleita como presidente deste órgão nos revelasse que, ultrapassando as diferenças entre eles, os seus discursos digam coisas que nenhum outro disse: ambos os discursos, cada um ao seu estilo, mais sóbrio um mais brilhante o outro, independentemente do que venha a acontecer na prática, por um lado, chamam a atenção sobre aspectos indispensáveis para o funcionamento e a consolidação das instituições de soberania do Estado e, por outro, não só servem de alerta contra o aprofundamento de qualquer deriva autoritária como, e nisso se assemelham, sublinham a importância social das abordagens de género.

 É, pois, neste contexto particularmente complexo que me parece interessante um olhar transversal para a questão da arte, da política e de género, em Angola, e analisar o que elas nos têm revelado.

Olhando, por exemplo, - a lista não é exaustiva -, por um lado, para a vida e obra de Ana Clara Guerra Marques, Dília Fraguito, Marcela Costa, Isabel Baptista, Helga Gâmboa, Manuela Sambo, Carla Peairo, Ana Silva, Joana Taya, Mónica Miranda, Fineza Teta, Yola Balanga, Nzuji de Magalhães, Indira Grandê, Pamina Sebastião, Maria Gracia-Latedjou, Imani Silva, Lola Keyezua, Helena Uambembe, Indira Mateta, Daniela Ribeiro, Muana Puó, Alice Marcelino, Iris Chocolate e Sandra Poulson; e, por outro, ao labor de Suzana Sousa, Paula Nascimento, Mehak Vieira, Edna Bettencourt, Sónia Ribeiro, Janire Bilbao e a maneira como elas interagem entre si demonstra que, a questão do género é um assunto incontornável do ecossistema da arte e da cultura, em Angola e na diáspora.

 Parece-me que com uma visão inclusiva sobre o género; tendo como pano de fundo um grupo de artistas percursores, cuja obra vem desde os anos 80/90 do século passado, um grupo de mulheres de diferentes disciplinas artísticas, incluindo algumas curadoras, especialistas em a Arquitectura ou em Estudos Culturais e gestoras de galerias de arte, entre outras, estão actualmente na vanguarda do melhor e do mais decisivo que se vai fazendo na Arte Contemporânea, em Angola e nas diásporas.

Neste sentido, a arte já tomou à dianteira, mas, para se corresponder ao que está a acontecer na sociedade é evidente de que está na hora de que o Estado experimente, com maior profundidade, uma gestão de género abrangente e inclusiva, que vise fortalecer o poder da mulher, respeitar todos os géneros, valorizar a masculinidade progressista e que não exclua o mérito, a experiência, a moralização e o interesse público.

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