Sociedade

Arcebispo de Luanda encerra peregrinação

Roque Silva e Kílssia Ferreira

A peregrinação à Mamã Muxima, que decorre desde quinta-feira, encerra hoje, tendo como ponto mais alto a celebração eucarística pontifical, a ser presidida pelo arcebispo de Luanda, Dom Filomeno do Nascimento Vieira Dias.

07/08/2022  Última atualização 05H40
Santuário da Muxima © Fotografia por: Eduardo Pedro | Edições Novembro
A homília, com o coro Diocesano de Viana, terá início às 9h30 e será precedida de uma bênção dos objectos religiosos, o último momento da programação de hoje.

Segundo a organização, a missa de hoje é um dos momentos mais importantes da peregrinação à Mamã Muxima, prevendo-se a presença de membros do Executivo, políticos e diplomáticas acreditados em Angola.

Ontem, a peregrinação à Mamã Muxima foi marcada por dois grandes momentos: a Via Sacra, momento em que os peregrinos meditaram em exaltação a Cristo, e procissão de luz, uma reza de terço em vários idiomas.

Os referidos momentos antecederam as celebrações eucarísticas orientadas por Agostinho Cahanda, vice-reitor da paróquia da Muxima, e Dom Emílio Sumbelelo, da Diocese de Viana, destacando-se a presença do vice-governador de Luanda para o Sector Político e Social, Dionísio da Fonseca.

 

Muitos peregrinos pernoitam em tendas

Vários fiéis católicos que se deslocaram à Muxima pernoitam em pequenas tendas espalhadas pela vila. Às noites, o cenário é assustador, já que as ruas não têm iluminação pública. Com menos de dois metros, as tendas são abandonadas durante as actividades. Ficam vagas durante a celebração de missas e reza do terço, nas noites de oração, e ocupadas após o último terço.

"Vale a pena o sacrifício”. As palavras são de Maria Pimentel, uma devota de Santo António, que, tal como a maioria dos peregrinos, pernoita em pequenas tendas. Maria destaca-se por fazer o percurso de Luanda/Muxima há mais de 30 anos, para participar na peregrinação.

No pequeno quarto que divide com a filha, ambas dormem enroladas em cobertores, junto a um matagal escuro. "Porquê ter medo, se venho precisamente pedir protecção à Santíssima? Questiona a anciã, que afirma estar protegida contra todos os males, devido à sua devoção.

"Estou nessa vida há 30 anos e há sempre alguém que reza, canta ou cumpre uma promessa. Eu sou uma delas”, disse, convicta.

Dormir na rua, em tendas e em local escuro não é problema para Fineza Paulo, diante do que se propõe fazer para receber a bênção de Jesus Cristo. "O mais importante é a fé, não me importa o sofrimento”, justifica a peregrina de Nossa Senhora de Fátima, que se deslocou à Muxima para pedir mais saúde e emprego para os filhos.

Fátima Sango, da Diocese do Uige, é uma das fiéis que na noite de sexta para sábado não conseguiu juntar-se às demais peregrinas, na última missa do dia, por estar cansada. Disse que tencionava acompanhar todas as actividades, mas, devido as dores, não conseguiu. "Vim propositadamente para pedir salvação, para que a doença me abandone”, disse, com a voz embargada. "A minha saúde me proíbe de fazer grandes esforços físicos, de acampar, mas não me deixo, porque, apesar das dores, sinto a alma leve”.

Enquanto o Jornal de Angola conversava com Fátima Sango, outra devota disse: "é a fé que nos traz sempre. Podemos até dormir ao relento, pois estamos diante de Mamã Muxima”. 

"É preciso preparar o corpo para peregrinar”, confessa um peregrino que diz ser professor de educação física. Carlos Moniz diz estar cansado, mas não perde uma peregrinação e também dorme em tenda. "Minha esposa, filho e eu dormimos numa pequena tenda, mas vale a pena o esforço”. 

  Mais de mil peregrinos esperados na Muxima

Mais de 700 mil peregrinos marcaram, até ontem, presença na vila da Muxima, sede do município da Quiçama, em Luanda, onde decorre a peregrinação à Mamã Muxima, que encerra hoje.

Dados revelados pela organização da peregrinação, que este ano é realizada com o lema "Mamã Muxima, em tuas mãos colocamos o povo de Angola”, apontam que, até às 12h00 de ontem, um total de 336.800 fiéis católicos de várias partes do país participou das actividades da romaria.

O porta-voz da Diocese de Viana acentuou a presença de peregrinos das Dioceses do Uíge, Moxico e do Lubango  que se juntaram aos fiéis das dioceses de Viana, Caxito, de Ndalatando, das Arquidioceses de Luanda e Malanje, que estão na Muxima desde o primeiro dia.

Segundo o padre Queirós Figueira, que confirmou a presença de fiéis católicos de várias partes do país,  são aguardados, hoje, cerca de 1 milhão e 500 peregrinos, entre os quais estrangeiros também . "Os fiéis católicos, sobretudo angolanos, estão cada vez mais ávidos em buscar a presença de Deus nas suas vidas”, referiu, acrescentando que, à medida  que o tempo passa, a vila da Muxima recebe mais peregrinos. Enquanto uns chegam, outros abandonam o local, depois de participarem em cultos e confissões”. 

  Desmaios entre os casos mais registados pelo INEMA 

O Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola (INEMA) registou, até ontem, na vila da Muxima, 118 casos de diversas doenças, sendo alguns pacientes evacuados para a viatura hospitalar, onde, após intervenção médica, tiveram alta.

Foram atendidos peregrinos dos seis aos 70 anos, na maioria por desfalecimento (desmaio), causado por desidratação, exposição ao sol, cansaço, cefaleia, hipertensão arterial, perda de ar e por ficarem muito tempo sem comer, segundo Kiesse Michel, enfermeiro e supervisor do posto avançado montado pelo Instituto Nacional de Emergências Médicas de Angola, na peregrinação à Muxima.

Acrescentou que foram atendidos, também, fiéis com dores abdominais, diarreia aguda e alergias e que, entre os pacientes, 87 por cento são mulheres e 31% crianças.

Kiesse Michel considerou positivo o balanço dos últimos três dias. "Não houve registo de casos graves e de transferência para uma unidade hospitalar”.

Criança perdida

O Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiros registou um caso de criança perdida e um incêndio, por fogo posto, prontamente extinguido.

A criança, de sete anos, perdeu o contacto com os familiares no meio da multidão e foi recuperada junto da tribuna central, após vários apelos feitos por sacerdotes que celebraram as missas.

Além disso, três idosas foram atendidas por desfalecimento, causado por desidratação e fraqueza, por terem ficado muito tempo sem se alimentar.

O comandante municipal dos Bombeiros em Viana, o intendente Denilson Torres, disse que as três senhoras, de 58, 63 e 68 anos, receberam os primeiros socorros por uma equipa médica, numa das viaturas do Serviço Nacional de Protecção Civil e Bombeiros, e depois encaminhadas ao posto avançado do INEMA, onde foram observadas e horas depois tiveram alta.

Denilson Torres, que caracterizou a situação, até ontem, como calma, salientou que "não aconteceram, até agora, casos graves, comparativamente aos registos das últimas edições da peregrinação à Muxima. "Normalmente, devido à enchente, acontecem situações desagradáveis, entre as quais afogamentos de crianças”, frisou, alertando aos progenitores a prestarem mais atenção aos menores.

Acrescentou que o Serviço de Protecção Civil e Bombeiros colocou na vila da Muxima mais de 300 efectivos, apoiados por diversos meios, com destaque para viaturas de combate a incêndios, ambulâncias, lanchas de resgate e salvamento.

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