Economia

Apoio estatal pode salvar empresas de publicidade em Angola

O sector publicitário do país teve uma queda nas suas receitas de 75 por cento, entre Janeiro e Março, e agora aguarda por um forte apoio do Estado, para evitar as graves consequências que sofre, agravadas pela pandemia do novo coronavírus.

15/05/2020  Última atualização 11H15
DR © Fotografia por: Presidente da Associação de Empresas de Publicidade e Marketing de Angola, Nuno Fernandes,

O presidente da Associação de Empresas de Publicidade e Marketing de Angola, Nuno Fernandes, explicou que, tendo em conta o Estado de Emergência, as empresas estão paralisadas e com uma retracção grande no mercado, que fez cair a facturação das empresas entre 60 a 75 por cento. Nuno Fernandes sublinhou que o apoio que as empresas publicitárias esperam do Executivo não precisa que seja necessariamente em dinheiro, mas pode ser garantido por via de contratação de bens e serviços.

“A ajuda financeira de que me refiro, não é pôr dinheiro nas agências, mas é pôr trabalho”, destacou. O representante dos publicitários acredita que com o apoio do Executivo pode-se incentivar o trabalho das agências e preservar o salário dos jornalistas e dos publicitários, enquanto essa ser uma forma equacionar correctamente o problema. “Já fizemos chegar ao Governo as preocupações das empresas filiadas, pelo que, esperamos que seja revisto o estado actual das empresas do sector”, disse.

O presidente da Associação de Empresas de Publicidade e Marketing de Angola disse, também, que estão a propor a revisão do pacote fiscal que existe, visando a efectivação de uma moratória e um percentual que seja possível ser absorvido pelas empresas, permitindo que as contribuições sejam
pagas de forma parcelar.

Pela paralisação das em-presas e a retracção do mercado, Nuno Fernandes notou que, diariamente, assiste-se à quebra de contratos e a diminuição do volume de trabalho. “Estamos a braços com uma situação de pagamento de salários difícil de saber, com peso imenso nos meses de Abril e Maio corrente”, realçou. Entre 2012 e 2013, o negócio da comunicação publicitária no país valia cerca de 950 milhões de dólares.

Mas, desde 2014, com o início da crise económica, financeira e cambial pela baixa do preço do petróleo, que as receitas do sector também caíram drasticamente. “Durante muito tempo, muitas empresas mantiveram as suas estruturas, porque pensavam que a crise pudesse ser passageira. Mas, pelo facto de manterem essa estrutura, em meio a uma quebra de receitas, agravou a sua própria situação interna”, notou. Nuno Fernandes acrescenta que “isto veio desequilibrando as empresas ao longo desses cinco anos”.

A Associação de Empresas de Publicidade e Marketing de Angola tem perto de 60 associados, entre agências de publicidade, empresas de media exterior (exploração de outdoor), produtoras gráficas e audiovisual e empresas de comunicação.

Imprensa pública

Com a situação de crise que as empresas privadas de publicidades e marketing enfrentam desde 2014 e agora com o surgimento da pandemia de Covid-19 que acentuou mais a recessão das actividades economia, o sector corre o risco de, doravante, contar apenas com os órgãos públicos de comunicação, como Jornal de Angola, TPA, Angop e Rádio Nacional de Angola (RNA), que são instituições suportadas pelo Orçamento Geral de Estado (OGE).

Grande parte dessas empresas possui áreas específicas para tratamento de publicidade, que funcionam regularmente na divulgação e publicação de anúncios publicitário por via de som, imagem e escrita. Apesar da dependência do OGE, as empresa também registam dificuldades de vária ordem, decorrentes da recessão económica, como é o caso da RNA.

O director Comercial do Grupo Rádio Nacional de Angola, Ulisses de Jesus, disse que a RNA enfrenta obstáculos, no tocante aos pequenos anunciantes que directamente procuram fazer publicidade, quando a legislação assim não permite. Para ultrapassar tal dificuldade, Ulisses de Jesus sugere que os órgãos competentes façam um ajustamento à lei. 

Na RNA, a equipa de trabalho na área de publicidade cresceu muito e, por esse facto, Ulisses de Jesus diz que “há necessidade de formação dos quadros sobre gestão comercial e fidelização de clientes”. Finalmente, destacou, “temos em aberto o tema de comissões para os angariadores de publicidade, porque alarga as forças de venda e potencia o crescimento da receita”.

Enquanto empresa pública, a RNA, com 36 canais, é dos maiores grupos de comunicação de Angola e tem sido o principal veículo de informação e de publicidade do país, estando presente na maioria dos lares. Com o universo das rádios que compõe o Grupo RNA, a Direcção Comercial tem uma facturação anual próxima aos 600 milhões de kwanzas. Na RNA, o trabalho de produção, apresentação e divulgação de anúncios publicitários é assumido por 15 técnicos. Além do custo com salário, a instituição agrega custos com infra-estruturas, equipamento informático, sinal de internet e material gastável.

Para o ano em curso a RNA vai procurar dar espaço aos pequenos anunciantes (micro, pequenas e médias empresas), criando soluções especiais para este notável segmento da economia, que se apresenta como um interessante foco de negócios. “Igualmente, vamos trabalhar numa iniciativa que visa vender produtos e serviços no ‘on-line’, atendendo a evolução natural deste segmento junto de adolescentes e jovens”, disse.

Crise atinge concessionária  de espaços publicitários

A crise no sector publicitário atinge, igualmente, a produtora de conteúdos para a televisão TVC, que é concessionária dos espaços publicitários da Televisão Pública de Angola (TPA). O director Comercial da TVC, Manuel Padrão, garantiu que nos últimos cinco anos a receita tem vindo a descair, seguindo a tendência actual do mercado.

“A TVC não está à margem do que acontece no sector, nem somos, de longe, um oásis, pois, como se sabe, em períodos de crise as primeiras despesas a serem cortadas são investimentos em comunicação e publicitários, em particular”, informou. Para a TVC, as principais dificuldades prendem-se com os devedores. “Ao mesmo tempo que os nossos principais clientes são as agências de publicidade, também, paradoxalmente, são estas as nossas principais devedoras”, frisou Manuel Padrão. 

Embora a TVC tenha tomado medidas, no sentido de diminuir o rácio entre facturação e recebimento, a verdade é que a situação de incumprimento de prazos de pagamento tem se agudizado nos últimos anos, como resultado do comportamento do mercado, hoje caracterizado por uma brutal diminuição do investimento publicitário, em consequência da crise que se arrasta há cinco anos.

A outra dificuldade apontada por Manuel Padrão prende-se com os produtos utilizados no exercício da actividade publicitária. “O produto que comercializamos é extremamente perecível, ou seja, não se pode armazenar. Temos sempre de o vender seja qual for o mo-mento e estamos num dos piores momentos de sempre do mercado publicitário em Angola, com quebras superiores a 70 por cento.”

Apesar das dificuldades, nos quatro primeiros meses deste ano a TVC teve uma facturação aproximada de 100 milhões de kwanzas. Segundo Manuel Padrão, do valor arrecadado com a exploração publicitária, o percentual que cabe à TVC, nos termos do contrato de concessão vigente com a TPA, suporta integralmente todos os custos, quer operacionais (internet, telecomunicações, móveis e consumíveis), quer com o pessoal (pagamento de salários e outros gastos).

Para Manuel Padrão, “o grande ‘handicap’ é o suporte das despesas operacionais da TPA. Ou seja, quanto menores forem as receitas próprias arrecadas pela TVC, maiores serão as dificuldades de garantir a operação do dia-a-dia de todos os canais da TPA”.

FESTIPUB quer reconhecer a excelência da publicidade em Angola

A organização do Festival de Publicidade e Marketing Angolano (FESTIPUB), cuja primeira edição deveria acontece este ano, anunciou, em comunicado, que aguarda desenvolvimentos relativos ao Estado de Emergência e à redução da propagação do vírus para tomar decisões, relativamente à nova data.
No comunicado, a organização manifesta o interesse em tornar a primeira Edição do FESTIPUB num acontecimento digital, com transmissão directa.

De acordo com o documento, o FESTIPUB visa o reconhecimento, celebração e distinção do trabalho de excelência desenvolvido em Angola, a nível das diferentes áreas do mercado de audiovisuais, publicidade e marketing. “Pretende-se realizar uma homenagem, para reconhecer e premiar marcas e profissionais por meio de uma abordagem responsável e de uma avaliação profissional que vai de encontro às boas práticas a nível dos principais mercados internacionais”, lê-se no documento.

O FESTIPUB tem 47 categorias para as marcas e profissionais se inscreverem e deve atribuir um “Grande Prémio".

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