Opinião

Apesar das regras…

Apusindo Nhari

Jornalista

Desabafando com um amigo sobre estarmos fartos da forma como se vai fazendo política, aceitámos o convite para assistir a uma partida de futebol. “Fartos” não será a palavra mais adequada... mais um misto de frustração e impotência face ao que nos parece serem manifestações de uma perturbadora falta de preocupação com o futuro e o bem comum.

10/10/2021  Última atualização 09H52
Por isso, mais para espairecer e livres por nos saber independentes (não pertencermos a nenhuma das claques), lá fomos até ao estádio. No caminho fomos puxando conversa sobre a importância do desporto. Não apenas para a saúde dos que o praticam. O desporto, e a educação desportiva, podem ajudar a formar comportamentos e a preparar a relação com os outros.

A utilidade das regras (para que um jogo de futebol não se transforme num de boxe), o papel dos árbitros (como isentos guardiães dessas regras), a força do espírito de grupo e de cooperação (que pode permitir o "milagre” da vitória dos mais fracos – quando sejam capazes de coordenar esforços – sobre os mais "habilidosos”) são exemplos do quanto se pode aprender com o desporto.

Mas a partida ia começar e, com impaciência, cortaram-nos a retórica recordando-nos que o propósito era vermos o jogo, fugindo das "grandes ideias e reflexões”… A bancada – quase lotada apesar da Covid-19 – agitava-se, com a maioria da assistência fortemente envolvida, gritando, gesticulando e até saltando de cada vez que uma jogada mais interessante se desenrolava.

(E observámos com interesse uns poucos que aplaudiam as boas jogadas, independentemente da equipa que as protagonizava. À medida que o jogo avançava fomo-nos sentindo cada vez mais identificados com eles, reconhecendo a beleza e a harmonia que emergia da acção colectiva com um propósito comum, e com os golos construídos com humildade, esforço e habilidade. Com mérito.)

Entretanto, o entusiasmo de muitos parecia exagerado… como se tivessem sido pagos para apoiar. Progressivamente, íamos saindo da atitude de relaxados espectadores, indignados com o nível crescente de batota e desrespeito pelas regras e pelo próprio desporto: rasteiras, cotoveladas, penalidades inventadas, golos anulados, foras de jogo imaginados…

O cada vez maior envolvimento emocional diante do que observávamos era uma surpresa para nós próprios. (Já assistiramos, de pela vida, a repetidas manifestações de desportivismo em jogos em que coexistia a competição com o respeito pelo adversário. Como aquele onde a equipe que atacava interrompeu a jogada para acudir ao guarda-redes lesionado). Mas o que se começava a passar perante os nossos olhos incrédulos era completamente diferente.

Um indivíduo ao nosso lado ouvia, em paralelo, o relato do jogo por um pequeno rádio que emitia um irritante ruído. Da nossa posição conseguíamos ver o "comentador” que, desde o interior de uma das cabines, "trabalhava” vestido de forma algo apalhaçada. O palavroso relato estava, no geral, completamente desligado do que se passava no campo. E acabou por ser silenciado, ao tornar-se intolerável o grau da sua parcialidade.

No intervalo, decidimos ir beber um copo e convidámos o dono do rádio. Foi aí que este nos confidenciou estar o comentarista-cheio-de-lábia comprado por um dos lados e que não tinha sequer mérito para a função: tinha antes trabalhado na segurança do estádio…

A irritação inicial pelo nível de desvio às normas do jogo foi-se misturando à curiosidade sobre as razões por detrás de tamanha pouca vergonha… daí que no final da partida (um simples jogo entre tantos outros do campeonato) tivéssemos uma infinidade de perguntas para o nosso amigo e para o proprietário do rádio, a quem acabámos por dar uma boleia.
As explicações deixaram-nos mais esclarecidos, mas também mais enojados com as várias "jogadas” que se estavam a desenrolar nos bastidores.

No fundo – advogava o nosso interlocutor – o problema residia na dimensão dos prémios de jogo que estavam em causa e que motivava aquele vale tudo que se observava no campo. Poderá ter exagerado mas – segundo ele – uma parte dos jogadores, embora com o equipamento de um dos clubes, estava na realidade comprada pelo outro e, por isso, tentava regularmente, como soe dizer-se, marcar golos na "própria” baliza. O árbitro e os juízes – de reputação duvidosa – eram conotados com o que parecia ser o time mais poderoso. Pela maneira como arbitravam, mais pareciam jogadores no activo.


O mais escandaloso era que um dos clubes queria, através da federação nacional da modalidade, forçar o outro a mudar o seu capitão e jogador mais influente, argumentando que a assembleia geral que o elegera era ilegal e estava mal inscrito.

Saímos do estádio fatigados. Embora tivéssemos acedido ao convite para nos distrairmos, acabámos por dali sair ainda mais preocupados, tocados pela injustiça e a arbitrariedade. Mais uma lição de como as várias dimensões da vida, entrelaçadas, estão constantemente a manifestar-se, sem nos deixar escapar.


Ainda que tranquilizados pela proximidade do próximo regresso ao Moco onde, sós com a natureza, conhecemos e respeitamos as regras, temos também consciência de que vai ser preciso saber encarar os próximos desafios que o país enfrentará para conseguir uma nova forma de praticar desporto (ou de fazer política), preocupados com o cumprimento mínimo de regras para a defesa do interesse comum...

*Académico angolano independente

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião