Opinião

Apanhados pelo clima!

Manuel Rui

Escritor

Afinal, a maka da liberdade é sempre a do cambriquite (cobertor). Se a gente quer cobrir a cabeça fica com os pés de fora…se quer cobrir os pés fica com a cabeça de fora e no meio disto tudo, sobram piolhos na cabeça do pobre e bitacaias nos pés. Aka!

18/11/2021  Última atualização 05H00
No antigamente, antes de se contarem os anos, muito antes de eu nascer quando o milho estava no meio com a palma da mão  aberta da minha avó evirada para o sol, ninguém falava em carbono.

Lembro-me que em S. Paulo, Brasil, fiz questão de me sentar no botequim onde o sambista Adoniran Barbosa costumava tomar sua cachacinha, o autor de "saudosa maloca,” agora me lembro do verso "Deus dá o frio conforme o cobertor.” É isso mesmo. "Só se conformemos quando o Joca falou …Deus dá o frio conforme o cobertor…E hoje nós pega paia nas gramas do jardim…E pra esquecer nós cantemos assim… Saudosa maloca…”

Mal imaginavas, grande Barbosa que desconstruindo a língua actuavas contra a colonialidade e a injustiça que reina no planeta que agora anda a discutir os traques das vacas mesmo das sagradas ou os traques das fábricas… quase a inventarem comprimidos para os elefantes não deitarem gazes  nem mesmo cafifes a que se dá outro nome e o médico outro dia apalpava-me o ventre gastritico e perguntava-me se "o doutor peida, olhe falo assim porque se falar gazes a generalidade dos pacientes não percebem.”
Agora mais uma cimeira. Já tinham feito a de Paris. O clima. As emissões de carbono. O efeito estufa ou o efeito estafa para os pobres. Porque quem sempre poluiu mais foram os ricos.

Assim que a pandemia amainou os portos de grandes cais festejaram o retorno dos grandes navios de cruzeiro. Carregam toneladas de milionários ricos e na maioria idosos que se estão borrifando para o clima pois quando acontecer o cataclismo já foram à vida de papo cheio. Qual é o país que não quer receber cruzeiros? Só que um desses navios, por ano, polui tanto como um milhão de veículos automóveis. Os navios cruzeiros são de companhias milionárias que interagem com os grandes bancos. Mas na cimeira ninguém fala nisso.

Os participantes na Conferência de Glasgow foram de avião,  transporte mais poluente do mundo. Mas na conferência ninguém fala nisso.

As duas guerras mundiais foram marcantes para a humanidade no que toca a poluição, como todas as guerras. As fábricas de armamento são fábricas de materiais para matar e poluir. Pior, desflorestar, matar as folhas. Foi assim no Vietnam, para evitar a movimentação dos guerrilheiros os americanos lançaram químicos para destruir as plantas e o ecossistema. Também aqui a tropa tuga fazia isso e o napalm. Idem nas guerras que estão a acontecer. Mas na conferência não se fala nisso.

Os carros a eletricidade são para quem os pode comprar. Para iludir na metáfora de quem vai ao abastecimento eléctrico e lá atrás tem um gerador a diesel. Não há barcos de Cruzeiro nem aviões a funcionar com base em placas solares ou ventoinhas do vento ou do mar. Mas a conferência não falou nisso.

Se não fosse o petróleo não havia Dubai e os grandes clubes de futebol têm escrito nas camisolas "fly emirates” (voem nos emiratos) e o Campeonato do Mundo de futebol vai ser no Qatar mas a conferência não fala nisso.

E também não fala nos blindados, aviões de combate, submarinos e experiências de bombas lançadas ao mar.
Porque a conferência é dominada pelos mais ricos, os que mais poluem e não é de um dia para o outro que se pode diminuir as emissões. Tudo depende do grande capital e dos bancos.

E um dos grandes poluentes é a "fórmula 1 mas disso a conferência fecha os olhos porque há mito dinheiro por de trás da velocidade.
O Brasil ostenta-se como o maior produtor de proteína animal. Mas a conferência não vai mandar parar a picanha, rabadilha ou mesmo peito alto que sobra para o nosso funje.

Onde eu queria chegar era nas soberanias. Falou-se que é preciso respeitar a soberania de cada país. Pois é. Mas quando os grandes sancionam, bloqueiam ou invadem os mais pobres? Cadê o respeito pela soberania?
Certo que o degelo começa no Norte mas quando avançar, o Norte tentará vir para Sul roubar a nossa natureza, a água dos nossos rios. Será?

A liberdade individual (que não existe) está para as soberanias com diversas simulações. No entanto, com o planeta em perigo, não se pode obrigar o mundo inteiro a respeitar a razão de existir a palavra humanidade. Daí que a Índia, em desmemória de Gandhi, tenha batido o pé pelo carvão.

A maka não é do petróleo que não é só para poluir pois serve para outras coisas, minha avó fazia xarope para a tosse com petróleo e açúcar mascavo. E também é usado na química e na farmacologia.

Na conferência também não se terá falado nas aventuras milionárias de passeios para poluir o espaço.
O Tuga tem uma boa que é "passaram-se dos carretos.” É mesmo…qualquer dia vai surgir uma teoria para-maltusianista a propor que os pobres devem comer cada vez menos e assim defecarem menos…diminuindo a poluição.

E em Glasgow, dizem que houve avanços mas uma coisa é certa os mais ricos estão apanhados pelo clima!

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