Entrevista

António Carlos Gomes: “Angola precisa de saltar da boa impressão para a realidade científica”

Antigo corredor e saltador de nível internacional, o brasileirlo António Carlos Gomes é, na actualidade, um dos mais conceituados especialistas em treinamento desportivo que se expressa em português. À margem do Congresso Mundial de Treinadores, que decorreu, há uma semana, em Lisboa, o Jornal de Angola teve a oportunidade de o entrevistar. Responsável da Academia Brasileira de Treinadores, campeão olímpico e mundial, dono de vasta experiência na preparação de desportistas de elite, autor de trinta livros sobre treino desportivo, António Carlos Gomes desvenda a estratégia que permite ao Brasil registar crescimento relevante no quadro de medalhas, nas últimas edições dos Jogos Olímpicos. De permeio, aproveitando o conhecimento que tem da realidade angolana, deixa subsídios sobre o rumo que o desporto nacional deve tomar

28/11/2021  Última atualização 05H20
© Fotografia por: DR
Quem é o cidadão António Carlos Gomes?

Sou professor de Educação Física, formado no Brasil, com várias especializações. Fiz pós- graduação na Rússia (ex - União Soviética), nos anos 80, onde estudei durante 12 anos, concluindo o Mestrado, Doutoramento, Pós- Doutoramento e também ciência catedrática. Em 1996, voltei ao Brasil, passei a leccionar na Universidade, onde produzimos muito conteúdo, como resultado de pesquisas, mantendo sempre um pé na prática, treinando muitos atletas.


E que percurso desportivo teve para chegar a esse estádio?
Como atleta, fui campeão nacional e sul americano, participei em muitas competições internacionais, ganhando muitos títulos no Brasil e na América Latina. Enquanto treinador, estive em muitas modalidades, mas inicialmente fiquei muito mais tempo com o Atletismo, conseguindo resultados fantásticos que se destacam até hoje. Em 2016, batemos o recorde olímpico do salto à vara, num trabalho conjunto com o ex- treinador da russa Duishebaeva e do Sergei Bubka. Trabalhámos juntos durante 4 anos e conquistámos este recorde olímpico para o Brasil.



Com que modalidades trabalha actualmente?
Até agora, mantenho a rotina de treinar atletas de alto nível, em diversas modalidades. Mas a minha origem é o Atletismo. Fui saltador (comprimento e triplo), além de corredor dos 110 metros barreiras e 100 e 200 metros livres. Nesta altura, estou nas Universidades Paulista e Federal de S. Paulo, na escola paulista de Medicina, orientando trabalhos de tese, doutoramentos e dissertações de mestrado no Brasil.



Mas tem responsabilidades ao nível do Comité Olímpico do Brasil?
Sou responsável pela Academia Brasileira de Treinadores, que é um órgão do Comité Olímpico Brasileiro. Trabalhamos na formação de treinadores e damos assessoria às federações, ajudando a elaborar os seus planos de trabalho, com foco na alta performance dos atletas olímpicos.



No capítulo prático, o professor também ficou bastante conhecido por ter treinado Ronaldo "Fenómeno”...
Foi um momento interessante da minha carreira. Treinei vários outros atletas, como o Jardel Gregório, batemos o recorde do João do Pulo. Vencemos o campeonato do Mundo e o pan-americano. Ao nível do Futebol, fui campeão da América latina, campeão brasileiro, campeão do Mundo de clubes com o Corinthians, enfim, ganhamos quase todos os títulos que um profissional da minha área almeja. E então colocamos tudo isso no papel, descrevendo os nossos procedimentos. Publicámos cerca de 30 livros, onde coloquei as minhas experiências, as vivências académicas, etc. Nesta altura, estamos a trabalhar na actualização conceptual do treino desportivo, porque entendemos que muita coisa tende a modificar, sobretudo face às inovações tecnológicas actuais... É por aí que estamos a caminhar.
 
"Entre um ciclo e outro,  os atletas brasileiros não param”


No actual ciclo olímpico, que será mais curto, que passos já deu o COB (Comité Olímpico Brasileiro), para preparar os Jogos de Paris?
Os atletas brasileiros não param, entre um Ciclo e outro. Na verdade, depois de terminarmos os Jogos de Tóquio, descansamos cerca de duas semanas e nesta altura eles já estão enquadrados neste ciclo de preparação visando Paris 2024, que é realmente mais curto e, por isso, suscita mais preocupação. Estamos a cerca de 960 dias dos Jogos e deveremos, em França, bater o recorde de medalhas alcançado em Tóquio.



Com que base sustenta esse optimismo?
A nossa estratégia tem garantido a evolução nesse sentido.  Obtivemos 17 medalhas em 2012 (Londres), 19 em 2016 (Rio de Janeiro) e 23 em 2021 (Tóquio). O nosso prognóstico é aproximarmo-nos das trinta medalhas em Paris-2024. Nosso optimismo advém do facto de 65% dos nossos medalhistas de Tóquio estarem em condições de competir nos Jogos de Paris, ainda em idade activa para voltar a medalhar. Para melhorar este quadro de medalhas, estamos a nos organizar mais, estudando ao pormenor a especificidade de cada atleta olímpico, na perspectiva de explorar todas as possibilidades de elevar a sua performance.



Significa que a olimpíada já está em marcha. Como corre este trabalho?
A globalização actual facilitou sobremaneira a informação sobre a concorrência e todas as inovações que precisamos acompanhar. Esta é uma das etapas primárias do trabalho, sob inteira responsabilidade do COB.  Embora as federações ainda não tenham todo suporte financeiro que necessitam e que deveriam ter, já trabalham com equipas técnicas multi-disciplinares, que capacitam os atletas em todas as vertentes. Esta dinâmica, durante os (quase) mil dias que nos separam dos próximos Jogos Olímpicos, é que deixa em aberto a possibilidade de melhorar o posicionamento do Brasil no quadro de medalhas em Paris.



Mais especificamente, que intervenção tem o COB na preparação dos atletas olímpicos ao longo do ciclo, para controlar as suas performances?
O Comité Olímpico do Brasil trabalha com base no "ranking” internacional. A partir daí, são definidas algumas prioridades. Estabelecemos, por exemplo, a faixa verde que representa uma prioridade total, composta por atletas que estão no "top ten” do Mundo (nossos atletas entre os dez melhores do Mundo têm prioridade absoluta). Os que se encontram na faixa azul, situam-se no top 20 do Mundo. A faixa amarela representa os 30 melhores do Mundo. Consideramos ainda a faixa vermelha, que abrange os 40 melhores do Mundo. Fora isso, também observamos a progressão dos atletas que estão no top 50. Ou seja, a cada momento, procuramos ter sempre bem clara uma escala de comparação do atleta brasileiro, em relação aos melhores do Mundo. Isso é muito importante, porque nós já tivemos uma atleta que saiu do top 50 do Mundo e conseguiu chegar ao título Olímpico.



Basicamente, a preparação para os Jogos é contínua, ao longo de todo o ciclo ..?
O Comité Olímpico brasileiro dá todo o suporte individual aos nossos atletas, ao longo da olimpíada. Além de toda a estrutura laboratorial de apoio, avaliação e acompanhamento de performance, o COB fornece o treinador (ou disponibiliza informações e formações relevantes para o mesmo), o fisioterapeuta e o psicólogo. Garante ajudas de custo, quando necessário, e coloca os atletas a treinar nos países que mais se destacam nas suas especialidades ao nível do Mundo.



Quer dizer que a preparação olímpica ultrapassa as fronteiras do Brasil, anos antes dos jogos?
Neste momento, temos atletas a treinar e a competir em oito países diferentes, para poder internacionalizar e facilitar a sua adaptação às competições de mais alto nível. Ou seja, o COB dá total suporte às Federações (chamadas confederações, no Brasil), porque os atletas pertencem a elas, mas, como representam o país nos Jogos Sul Americanos, Pan Americanos e Olímpicos, assumimos a nossa quota parte. Por isso, o Comité Olímpico recebe verba do Governo Federal e do Ministério do Desporto, sendo distribuído pelas federações com critérios bem definidos, entendendo - se que a preparação olímpica do atleta está patente em todas fases precedentes, desde a competição regional, até aos campeonatos do Mundo, sendo um ciclo que exige intervenção do Comité Olímpico para assessorar e assegurar controle da qualidade do trabalho.



Conheceu desportistas angolanos e trabalhou com alguns. Com que impressão ficou, em relação a qualidade dos mesmos?
Sobre Angola, posso basicamente falar da experiência que tive no terreno, em cursos de formação, em Luanda. Vi nos praticantes um potencial extraordinário para o desporto. Estou certo de que há matéria prima de sobra, para crescer no contexto continental, mundial e olímpico. Tive oportunidade de estar na quadra com treinadores e com atletas e o que observei deixou essa certeza.



Mas, mesmo com mais de 40 anos de participação em Jogos, Angola está muito longe das medalhas ...
Creio que vocês passam por um processo que precisa de ser amadurecido. Não serão conseguidos bons resultados, de forma consistente, se não pensarmos a longo prazo. Há toda necessidade de elaborar um plano estratégico de longo prazo, senão, será muito difícil (ou mesmo impossível) chegar ao pódio internacional. Os oponentes que têm mais tecnologia expandem o conhecimento de forma mais rápida, fazem experimentações e preparam os desportistas desde tenra idade, identificando com cientificidade a sua margem de progressão. Então, países com menos recursos e menor capacidade tecnológica, como é o caso de Angola, precisam de perceber que, se não montarem um plano de médio ou longo prazo (dez, vinte anos), continuarão sempre a depender da sorte para ter um resultado relevante.



Que deve conter, no essencial, este programa de longo prazo?
É essencial gizar um grande programa de selecção de talentos, tendo até em conta a exiguidade de recursos. Ou seja, você  tem pouco dinheiro, então, vai apostar com segurança naqueles que podem chegar ao topo. Se não tiverem critérios muito sérios e científicos de selecção de talentos, vão perder muito tempo e esbanjar recursos. Podem passar anos a fio a treinar pessoas que não podem chegar a classificações de destaque. Hoje, com base nos modelos internacionais, é possível trabalhar com critérios, definindo uma matriz que permite acompanhar o jovem praticante e fazer um prognóstico, com margem mínima de erro, sobre até onde ele pode chegar.


Então, estaremos a precisar de uma entidade vocacionada para procurar os talentos?
O potencial latente aí, no pouco que vi em Angola, sugere que falta uma abordagem científica. É verdade que são realidades diferentes e o Brasil tem muitos mais praticantes. Mas no COB, sempre insisti e essa dica também é válida para Angola: o Comité Olímpico deve funcionar como uma secretaria, para levar os atletas às competições. Para tal, deve criar uma estratégia, de preparação dos atletas ao longo da olimpíada, a par do Ministério do Desporto. Se não se criar esta estratégia e o Comité ficar a olhar de lado o que se passa, o país vai ficar sempre à mercê do talento que aparecer (isso pode acontecer a cada dez anos ou mais). Não podemos esperar por isso.  Precisamos de urdir essa estratégia para irmos atrás dos talentos. Temos que caçá-los e trazê-los para as competições de alto nível. Este é um trabalho que o Comité Olímpico faz de forma permanente.



Entretanto, a escassez de recursos e de quadros técnicos formados também afecta este trabalho...?
Claro que sim. Mas atenção que treinar apenas os que aparecem não oferece garantias de nada. Temos que ter em mente que fazer desporto nos dias de hoje é procurar os talentos na sociedade e para tal são necessários instrumentos académicos que nos direccionem correctamente. Há toda necessidade de incentivar a própria sociedade a lutar pela criação e implementação de uma política do desporto. Hoje, sabemos que todos os países desenvolvidos ou na rota do desenvolvimento têm uma política do desporto bastante funcional. Têm programas nacionais bem montados, formação de treinadores com suporte e qualidade garantidos, etc. Nesses programas, o desporto é difundido na sociedade de tal forma que ela entenda todos os benefícios que dele advêm.


"O desporto não representa apenas custo”

As economias menos equilibradas não podem satisfazer a demanda do desporto face a outras necessidades prementes...
Errado pensar assim. Os cidadãos e os políticos, em particular, precisam de compreender que o desporto não representa somente custo, mas significa, acima de tudo, benefício. O desporto deve aparecer como filosofia de vida dos angolanos, para dar vazão a todo o potencial que aparece aí. Ele preserva a saúde, promove a integração social e é um factor decisivo na promoção da saúde de uma sociedade, sob todos os prismas. Então, o desporto não pode deixar de ser visto como prioridade, por qualquer governo.


Como é que a ciência pode potenciar o trabalho dos treinadores em Angola?

 O desporto é interessante porque ele engana a gente. Acontece baseado nos factores emocionais e no Mundo as coisas vão sucedendo, até um certo nível. Agora, se você quer entrar na elite mundial, aí já não é possível fazer as coisas com base na emoção, vontade, apoiando-se em dois ou três praticantes talentosos que apareceram, etc. Aqui chegados, a ciência tem que suportar a demanda. O que faz a diferença entre um atleta do top dez do Mundo e os demais, ou mesmo entre eles, é a ciência. Dificilmente você terá um atleta que passou somente por um processo de reconhecimento popular e chega ao pódio olímpico. Mesmo sendo um talento.


Esta perspectiva deixa definitivamente as nações pobres no fundo da tabela?!

Não necessariamente. Estamos conversados que hoje não temos como abrir mão do conhecimento científico na preparação de um atleta para o Alto Rendimento. A partir daí, Ministério do Desporto, Comité Olímpico, federações, clubes, etc, todos esses orgãos precisam de pensar na necessidade de um departamento que cuide dessa área científica, para poder dar suporte aos atletas. Encurta o caminho, torna-o mais fácil e certeiro. A ciência já provou isso. Há países com menos talento individual que Angola, mas que conseguem ir muito longe nas grandes competições internacionais. Pela disponibilidade motora dos vossos desportistas, quando você sai à rua, em Angola, dá a impressão que qualquer pessoa pode ser um campeão. Mas, por enquanto, é mesmo só impressão. Falta ir ao terreno controlar, medir, comparar com a elite mundial, criar condições, etc. 


Vivaldo Eduardo|Lisboa

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