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Antigo Instituto Agrário de Kangola transformado em centro de formação

Valter gomes| Uíge

O antigo Instituto Médio Agrário, que se dedicava à formação, até os anos 80, de quadros para a agronomia é hoje uma escola de referência, ao nível local, de formação em artes e ofícios, denominada “Cidade Jovem de Sucesso”.

01/08/2022  Última atualização 06H00
Acções de formação vão permitir aos criadores locais terem novas oportunidades para apostar no empreendedorismo © Fotografia por: Valter Gomes | Edições Novembro | Kangola

O local, reconstruído e ampliado durante 15 meses, custou aos cofres do Estado 25 milhões de kwanzas, num espaço de nove hectares, cujo trabalho foi inserido nas obras do Plano de Acção de Promoção da Empregabilidade (PAPE).

Actualmente, o espaço dispõe de um internato, com capacidade para alojar 120 camas, reservado apenas para raparigas, na condição de vulnerabilidade social. O complexo, de dois pisos, tem, ainda, oito salas de aula, duas de informática, uma área de oficinas, de serralharia, mecânica de automóveis, carpintaria, electricidade, corte e costura, hotelaria e turismo, canalização e uma área com quatro estufas, para aulas práticas de agricultura.

As aulas práticas de agricultura começam a ser dadas aos candidatos ao próximo ano lectivo da instituição, cujo critério de avaliação inclui apenas jovens dos 14 e 17 anos.

Na altura da inauguração do centro, a ministra da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social, Teresa Rodrigues Dias, instruiu para que a "Cidade Jovem de Sucesso” acolhesse, na sua maioria, jovens do género feminino, das províncias do Cuanza -Norte, Uíge e Zaire, na condição de vulnerabilidade, com a 6ªclasse concluída, tendo em conta a necessidade da inclusão destas na sociedade, mas com uma formação profissional. 

A ministra assegurou na ocasião que, com base numa parceria com o Ministério da Educação, vão ser, no futuro, ministradas, no centro, aulas de Matemática e Língua Portuguesa, "para que no fim de três anos de frequência do curso, os formandos saiam com uma dupla certificação, uma profissional e outra escolar, com equivalência a 9ª classe”.

 

História

Localizado num dos extremos da pequena vila de Kangola, os padres capuchinhos, uma congregação da Igreja Católica Apostólica Romana, tinham construído um edifício que servia para a preparação de raparigas para a vida cristã.

Anos depois, o espaço passou a ser usado como o antigo Instituto Médio Agrário, que, devido a guerra civil, acabou por ficar aos escombros. A infra-estrutura de formação ficou abandonada por dezenas de anos, até que um padre capuchinho contactou o falecido governador Sérgio Luther Rescova e pediu para que a escola voltasse a preparar os "homens para o futuro”.

Meses depois da solicitação, Sérgio Luther Rescova fez o lançamento da primeira pedra para a requalificação dos escombros do convento feminino, o que deu lugar a uma nova escola rural de nível regional, virada a formação de artes e ofícios, agora denominada "Cidade Jovem de Sucesso”.

Em homenagem a iniciativa do finado governador, a "Cidade Jovem de Sucesso”, foi baptizada com o nome de "Dr. Luther Rescova”, depois de inaugurada pela ministra da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social. Agora, além de reabilitada, a escola foi ampliada e tem a capacidade para acolher 480 alunos, número elevado se comparado aos anteriores 150.

 

Metas

Teresa Rodrigues Dias adiantou que com o espaço, as unidades de formação profissional passam a ser, em todo o país, 157, ultrapassando assim a meta prevista no Plano de Desenvolvimento Nacional 2018/2022, cujo número previa um aumento de até 152 unidades.

"Fruto desta aposta do Executivo em melhorar os centros de formação profissional, foi possível formar no ano passado 27.970 cidadãos, em diversos cursos”, explicou, acrescentando que com o Plano de Acção para Empregabilidade vai ser possível expandir a rede de centros de formação profissional em Angola e aumentar a oferta formativa, assim como garantir a oportunidade de acesso dos jovens ao conhecimento e o primeiro emprego.

"O executivo tem apostado na capacitação da mão-de-obra nacional, através de cursos de curta e longa duração, ou pela avaliação e certificação de competências para a atribuição de carteiras profissionais, assim como por meio da formalização e inscrição dos beneficiários no sistema de protecção social obrigatória, como principais premissas”, concluiu.

À disposição do centro de formação, destacou, foram colocadas quatro viaturas, entre as quais dois mini-autocarros, duas carrinhas Toyota, uma Canter e a outra Hilux.

O governador do Uíge, José Carvalho da Rocha, considerou a escola a solução para vários problemas que a juventude local enfrenta, em especial no domínio da formação profissional e de busca por emprego.


Uma maior aposta na empregabilidade da juventude

Os estudantes do centro receberam, também, após a inauguração, equipamentos profissionais, para os ajudar a se tornarem empreendedores nos domínios da agricultura, carpintaria, hotelaria e turismo, serralharia, corte e costura e cabeleireiro.

O objectivo do MAPTESS com a oferta foi promover a empregabilidade no município de Kangola, no Uíge, dando novas oportunidades aos jovens. Alexandre Daniel, formado em carpintaria pelo centro, é um dos exemplos, pois já abriu uma oficina de trabalho próprio. "A oferta de materiais veio bem a calhar, pois é uma dificuldade que aflige a maior parte dos jovens criadores locais”, disse, acrescentando que agora deu emprego a cinco aprendizes e está a produzir bancos, janelas, portas, cadeiras, mesas, camas, armários e bancas.

"A meta agora é alargar a produção dos mobiliários e fabricar cadeirões e outros mobiliários, com os meios que recebemos”, disse o empreendedor, que sonha ser um empresário no ramo da carpintaria e marcenaria. "É preciso também que as entidades de direito redobrem a fiscalização para combater os garimpeiros da madeira que invadem as florestas e, assim, encarecem a matéria-prima”, alertou.

Abel Manuel Saila, outro carpinteiro e marceneiro, que também recebeu equipamentos de trabalho, reconhece existirem ao nível local muitos jovens com talento, mas carecem de incentivo adequado para trabalharem. "Tenho três filhos e trabalho com dois irmãos. Fruto deste trabalho consigo sustentar a família. Agora, com os novos equipamentos, podemos aumentar o número de trabalhadores e produzir mais”, disse.

O técnico médio de agronomia Bento João Mabi, que também é o responsável por uma associação agro-pecuária, recebeu equipamentos para trabalhar na agricultura. "Vieram em hora certa”, disse, adiantando que Kangola tem muitas terras férteis, para a produção de alimentos em abundância.

"O objectivo doravante é organizar o terreno, plantar e colher a produção. Os equipamentos dados pelo MAPTESS vêem mesmo a tempo e vão permitir dar um maior impulso ao aumento da produtividade e cuidar do auto-sustento das famílias.

 

Empreendedores

Paulina Massinde António, de 28 anos, é mãe de duas filhas, e recebeu formação técnica, no ramo de culinária e pastelaria, que lhe permitiu investir em pequenos negócios de hotelaria e turismo. Em Kangola, disse, os produtos agrícolas produzidos localmente são transformados em comidas típicas da região, embora o município não disponha de unidades hoteleiras.

A empreendedora Luzia Vita Adriano é outro exemplo de superação, após formação. A investir no ramo da restauração, numa região em que serviços do género fazem muita falta, para acudir às solicitações dos trabalhadores e visitantes, empreendedora considera rentável investir no ramo.

Na sede municipal de Kangola, há muita procura por um salão de beleza para tratar do cabelo, barbas, aplicar brechas, manicura, pedicura e outros.

Agnaldo Ferreira é outro jovem empreendedor, que beneficiou materiais de cabeleireiro, para fazer um salão. Em Kangola, contou, são poucos os jovens que se dedicam neste ramo e por isso a uma quase inexistência de salões de beleza.  "Tenho trabalhado com um primo e investimos no ramo já há dois anos. Notamos uma recepção positiva, que nos encoraja a prosseguir muito mais com os materiais que recebemos e tanta falta nos fazem”, acrescentou.

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