Cultura

Angola universal nas veias

Não é possível escrever sobre Manuel Rui com a magia e o deleite com que ele escreve sobre nós e para nós, seus leitores.

07/11/2021  Última atualização 09H10
Manuel Rui © Fotografia por: Edições Novembro
Embalados nas ondas da sua escrita, sentimo-nos meninos do Huambo à roda da fogueira, esquecidos que o fogo vem de dentro das palavras e incendeia tudo à nossa volta, inclusive a fria noite do que passámos e andámos para ali chegar. Manuel Rui é o escritor dos encontros, de todos os encontros.  Na escrita de Manuel Rui cabe toda a experiência do ser humano.

Mas cabe também a infinita magia que nos liga à Mãe Terra e aos nossos ancestrais. Num optimismo trágico de quem conhece toda a dureza complexa e dilacerante da realidade, mas persiste na utopia da possibilidade. As suas personagens respiram, vivem, sofrem, riem e choram como todos nós e fazem-no em muitas línguas e em língua nenhuma. Porque se trata de uma obra que vive da experiência profunda dos sentidos. Afinal o conhecimento não é possível sem experiência, e a experiência é inconcebível sem os sentidos e os sentimentos que acordam em nós.

Uma ilustração perfeita surge na sua obra poética Ombela onde transforma por artes da sensibilidade e da sensação uma realidade prosaica – a chuva –  num caleidoscópio mágico.  "Ombela”, quer dizer chuva, em umbundu. Mas em umbundu existem muitas formas de sentir a chuva que se expressam em diferentes palavras. São vinte as palavras que usam para traduzir a chuva. A mesma chuva que atravessa toda a obra literária de Manuel Rui é aqui metamorfoseada em poesia bilíngue, escrita em português e umbundu. O texto em umbundu encontra-se nas páginas à direita do livro clarificando o seu lugar de enunciação e subvertendo a imposição colonial do português que marginalizou e obliterou as línguas africanas autóctones.

Ombela é chuva, ameaça de chuva (ocituto), primeira chuva (ombela lyombela), chuva fina (olume), chuva miudinha (okalusulumila), chuva torrencial (epapwilo), chuva em abundância (apengu), chuva acompanhada de trovão (elilimilambela), falta de chuva (ocitenha), chuva que dura o dia todo (ulembi), chuva acompanhada de sol (epengupengu), chuva abundante mas passageira (etande). Cada momento equivale a um estado de alma.

A chuva lava e apazigua os sentidos estilhaçados pelos conflitos e por tanto sofrimento abrindo caminho para o retomar das tradições culturais e os costumes ancestrais angolanos. Contra o epistemicídio e o silenciamento, Ombela devolve "pensamentos imaginados tão de longínquos mais/que o fim do traço do mar com a terra e as vozes/que se desacorrentaram sem ser para sempre o infinito”.

É a chuva que "amarra uma família/à volta de um fogo e fumo para as falas se cruzarem bem/com relâmpagos distantes esquecidos do som emudecido/por detrás da pedra do eco Huambo Kalunga”. Para lá das palavras e fora do tempo, a chuva tematiza os sentidos como elemento estruturante da memória primordial: ver, ouvir, cheirar, tocar. Através dos sentidos, constitui-se uma linguagem outra atapetada de pele, numa polifonia corporal que se firma na memória sensível.

" Relvados desenhados por geometria dos canteiros no meio com flores de muitos aromas e colorido nos sons as asas dos pássaros peitos-celeste bicos de lacre viuvinha (…) com a grande orquestra de verde e vertigem lavada no canto imenso de muitas multidões de grilos e cigarras (…) elogiando a chuva mais bonita do mundo.” (O manequim e o piano).

" E quando começou a chover, devagarinho e o cheiro do eucaliptal a sobressair no ar ventoso. Vander a sorrir nos olhos de Alfredo como se fosse um tempo antigo recordado por debaixo do tecto do casarão, os morcegos, as ratazanas e ainda os relâmpagos que iluminavam o concerto de dona Lurdes de Melo e a imagem do manequim. (O manequim e o piano).

Quando chegaste mais velhos contavam estórias. Tudo estava no seu lugar. A água. O som. A luz. Na nossa harmonia. O texto oral. E só era texto não apenas pela fala mas porque havia árvores, parrelas sobre o crepitar da floresta. E era texto porque havia gesto. Texto porque havia dança. Texto porque havia ritual.

Texto falado, ouvido, visto. É certo que podias ter pedido para ouvir e ver as estórias que os mais velhos contavam quando chegaste! Mas não! Preferiste disparar os canhões. A partir daí comecei a pensar que tu não eras tu, mas outro, por me parecer difícil aceitar que da tua identidade fazia parte esse projecto de chegar e bombardear o meu texto. Mais tarde viria a constatar que detinhas mais uma outra arma poderosa além do canhão: a escrita. E que sistematicamente no texto que fazias inventavas destruir o meu texto ouvido e visto. Eu sou eu e a minha identidade nunca a havia pensado integrando a destruição do que não me pertence.” ("Eu e o outro – o invasor”).

São muitas as cores e nuances que encontramos na obra de Manuel Rui. No seu livro mais difundido e premiado "Quem me dera ser onda” traça um retrato da vida na cidade de Luanda no período pós-independência. No ar misturam-se a euforia da libertação recente do colonialismo português e as contradições emergentes do partido que assumiu o poder, o MPLA.

É precisamente no desencontro entre as expectativas criadas pela revolução e as condições objectivas da aplicação dos valores da ideologia marxista no quotidiano que se desenvolve o enredo inusitado do livro que nos apresenta uma família angolana vinda do interior que resolve criar um porco no sétimo andar de um prédio.

Diogo, o pai, fiel aos ideais da revolução, mas cansado das restrições alimentares "o peixe frito do povo” resolve tomar o problema em mãos. Afinal nas suas palavras "revolução começa na barriga!” O seu objectivo é alimentar o porco até ao carnaval e fazer um grande churrasco de modo a saciar a vontade de comer carne. Responsáveis pela alimentação e higiene do bicho os seus filhos rapidamente se afeiçoam ao animal dispondo-se a contrariar as intenções:

"Carnaval da Vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaporroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou Carnaval da Vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.

O meu pai é um reaccionário porque não gosta do peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é que é um burguês pequeno mas diz que Carnaval da Vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer a carne. Carnaval da Vitória é um revolucionário porque quando o meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele quis morder. Nós não vamos deixar matar Carnaval da Vitória porque a luta continua e o responsável da comissão de moradores não sabe as palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam.”

Empenhadas em esconder o animal, as crianças infernizam a vida dos responsáveis pondo a nu a sua fraca preparação não só em questões revolucionárias, mas também no próprio conhecimento da língua portuguesa:
"Desculpe camarada Nazário, mas suíno é com esse, disciplina é antes de vigilância e antes da luta continua tem de pôr pelo Poder Popular e no fim acaba ano da criação da Assembleia do Povo e Congresso Extraordinário do Partido!”

No entanto, mesmo com todo o seu engenho, os meninos não conseguem evitar o churrasco do Carnaval da Vitória. É inevitável a associação entre o percurso de vida do animal e o destino da nação angolana que depois de um momento inicial de bem-estar e euforia mergulhou numa sangrenta e prolongada guerra civil. As palavras finais do livro são de esperança, quando os meninos confrontados com a realidade, reflectem se não teria sido melhor libertar o animal para que fosse "livre. Vadio na chafurda despreocupada”. Afinal a vida de luxo e mordomias com refeições caprichosas de nada lhe serviu e teria sido talvez mais feliz na miséria livre em que vivia na praia.

"Ali defronte, abriam-se aos olhos de Ruca as vagas que rebentavam lá em baixo. "Sim, vão matar.” Que mistério era aquela grandeza de espuma branca, eriçando o mar?
-Vocês não gostavam de ser onda?
-Deve ser bom. Assim por cima da água nem é preciso saber nadar. Quem me dera ser onda! – E Beto abria os braços.
Mas Ruca – considerou Zeca -, não se pode ser onda. Ainda se uma pessoa fosse entrava com essa força do mar onde a gente queria. Onda ninguém amarra com corda.

Os outros perceberam. Zeca tinha voltado o olhar lá bem para o fundo dos contornos da Corimba. Território de "Carnaval da Vitória”. Livre. Vadio na chafurda despreocupada. Afinal melhor seria terem solto o porco naquela vez depois da maka na bicha. Os efeitos da pancada do pai passavam depressa e "Carnaval da Vitória” ficava livre.(...)
Cá em baixo, os meninos confiavam na força da esperança para salvar "Carnaval da Vitória”. E Ruca, cheio daquela fúria linda que as vagas da Chicala pintam sempre na calma do mar, repetiu a frase de Beto:

-Quem me dera ser onda!”
O livro lê-se num fôlego embalado pelo riso implícito nas palavras que descrevem as personagens e o seu quotidiano. E rindo se apontam as injustiças e incoerências da ordem social, desnudando o grotesco. Afinal, nas palavras de Oswald de Andrade "a alegria é a prova dos nove.”

Mas a obra de Manuel Rui traz-nos também a memória. E a memória de um país colonizado que sofreu uma guerra civil prolongada é dura e inabarcável como a areia da praia. E omnipresente.
"[...] esquecer é muito melhor do que recordar, porque quando a gente esquece mesmo e volta ao lugar que deveria ser a saudade, esse lugar esteja como estiver é sempre uma coisa nova, e agrada sem ligação com o passado, que mesmo que uma pessoa chegue num lugar onde tinha umas casas todas podres e encontre novos edifícios, ruas e jardins, mesmo assim, o que estava guardado, na memória, e sem esquecimento, é sempre melhor do que o melhoramento que a gente encontra e, então, se quando encontra pior? Esquecer é muito melhor que recordar” (A casa do rio).

"(…) depois pára, corre, volta a parar inventa rotas sem um objectivo e quando faz uma opção é sempre em linha recta ele concluiu que não vale a pena definir rumos com a bússola (…) havia muitos círculos aparentemente invisíveis mas concêntricos passando por fantasmas, ligações pessoais sorrisos e olhares que de repente ele já conhecia e se conheciam todos dando a impressão que só agora com a paz se tinham conhecido numa amnésia de nunca se terem conhecido nas horas de guerra e assim o homem também fazia de conta que havia perdido a memória para compreender que as pessoas ali tinham-se ressuscitado numa nova forma de estarem vivos recordando o futuro na risada do medo para construir uma memória.” ("O manequim e o piano”)

"Abre bem as tuas orelhas. Eu andei com esses muatas que vieram do Maqui. Quando quiseres vai-lhes perguntar. Vim para aqui porque não quero esmola de ninguém. E, na outra guerra que te trouxe estas casas todas, perdi eu as minhas, sem saber que estávamos a lutar para um Cabo do Mar do estado que ele mesmo é que recuperou as bicuatas dentro das casas e que não malcriada com os ricos de agoramente dos barcos com motor.

Mas porque é que eu não posso ficar nesta casa? Se eu sou de Angola. Também não sei a tua terra e quem sabe se já passei por lá, comi, dancei, bebi e um filho dessa terra, fugido para não ser circuncisado e vir ajudar no colono e depois agora no tal estado, vem querer receber na casa?” ("Rio Seco”)

Uma das melhores descrições da devastação da guerra encontra-se em Janela de Sónia – quando os filhos do Samuel vão à Caála e regressam. Andam na pilhagem – de cimento, de peças, aquelas peças que não fazem nexo e só fazem nexo quando chegam à quinta e naturalmente são aproveitadas na quinta que se vai chamar a Janela de Sónia, porque a filha do Samuel, a filha querida que foi assassinada se chamava assim. E dizem isto:  "Caála cheirava mesmo a pólvora de cadáveres podres.

E ninguém se incomodava porque já tinha passado o pior, a guerra, a morte. E os que haviam morrido não falavam. E os que sobravam vivos não deixavam de esconder a felicidade mesmo em cima de tanta morte. Não deixavam de esconder essa maneira de sentirem, falando uns com os outros ainda só para ouvirem as vozes que lhes tratavam por pessoas vivas. As pessoas andavam a se desesconder dos abrigos de cada um.

Dos abrigos que cada um tinha inventado debaixo do chão, em cima da árvore ou abraçando o medo. E começavam a chegar de muitas desorientadas bandas, fugadas na desorientação. Com as bicuatas na cabeça, as crianças pela mão, magras ou inchadas, cabelo arrussado na desnutrição, de ranho, de choro, e roupa quase desfeita, a pele a escamar e ainda outros desamparados pelo fim da guerra. [... ] As crianças a morrer e a morrer com pedaços de coisas que já não dava para carregar antes da e para a Caála.

Já tão perto. Que era mesmo mais um posto de chegada da morte ou da vida. À beira da sepultura. Do que da alegria e da guerra ter acabado, mas mesmo assim havia cantares em coro de óbito e as pessoas andavam de um lado para o outro em busca de qualquer coisa que não sabiam o que era só por causa do fim dos tiros, das espingardas e dos rebentamentos.”

"Janela de Sónia” é uma história pungente do amor de um pai e de uma família que fica destroçada pela morte da sua filha, e que a pouco e pouco vai tentando fechar feridas bem fundas, que de todo modo não os impedem de pensar o futuro. O futuro de Angola, no fundo, que é o que está aqui. Afinal como o escritor diz em "A acácia e os pássaros”: "As lágrimas são a água pura das nossas alegrias e tristezas. Não devemos limpá-las mas deixá-las rolar até à nossa boca para lhe saborearmos o sal do nosso espírito.” 

  Huambo Kalunga, personagem angolana importante na região do Planalto Central, nos idos do século XVII, que se torna sebo (líder) no local que recebeu seu nome.
  Rui, Manuel (1987). "Eu e o outro – O Invasor ou Em poucas três linhas uma maneira de pensar o texto”, in Medina, Cremilde, Sonha manana África. São Paulo: Epopeia.   

Boaventura de Sousa Santos

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