Entrevista

Angola promove Cultura da Paz em África

O coordenador nacional da Bienal de Luanda - Fórum Pan-Africano para a Cultura de Paz em África, Sita José, reafirmou o compromisso de Angola em contribuir para a promoção da cultura de paz em África. Em entrevista à Angop, o diplomata fez o lançamento da 2ª Bienal de Luanda, que já conta com dois Presidentes africanos confirmados, Félix Tshisekedi, da República Democrática do Congo, e Denis Sassou Nguesso, da República do Congo

19/07/2021  Última atualização 08H47
© Fotografia por: DR
Como estão os preparativos para acolher a 2ª edição da Bienal de Luanda?
Em bom ritmo. Como sabem, o Presidente da República, João Lourenço, efectuou uma visita à sede da Unesco, em Paris, que culminou com o compromisso de Angola albergar a 1ª Bienal de Luanda. Depois, a 18 de Dezembro, Angola e a Unesco assinaram um convénio para a organização de 2 edições da Bienal, a de 2019, que foi um sucesso, e a de 2021, cuja realização estamos a preparar.

Qual é a importância da Bienal, que acontece em Outubro deste ano?
Acolher a 2ª edição da Bienal é o compromisso de Angola em contribuir para a promoção de uma cultura de paz no continente africano, o que significa, também, a disponibilidade do país em ajudar a alcançar os objectivos traçados pelos líderes Africanos. O objectivo da Bienal é fortalecer o Movimento Pan-Africano para a Cultura da Paz e não Violência. A base é o compromisso de parcerias, que devem ser assumidas por múltiplos actores, como governos, sociedade civil, artistas, desportistas, agentes do sector privado e comunidades científicas. Assim, de 2 em 2 anos, há este compromisso estratégico entre a União Africana, a Unesco e o Governo de Angola, no sentido de consolidar o amplo movimento que vai, cada vez mais, conseguir congregar a adesão destes múltiplos actores e parceiros. Por isso, esta edição representa, um compromisso forte de Angola na procura de uma paz duradoura para África, que sirva de suporte para o desenvolvimento económico e social e o bem-estar das populações africanas.

Estamos a meses da Bienal de Luanda. Como está a agenda da actividade?
Neste momento entramos na fase decisiva. A Comissão Nacional Multissectorial encarregue de preparar a Bienal de Luanda, a UNESCO e a União Africana, já estão a preparar os elementos que devem constar no programa final da Bienal. Já temos praticamente definido o conjunto de sub temas. O tema principal está alinhado com o adoptado pela União Africana para 2021, que é: "Artes, Cultura e Património - Alavancas para a Construção da África que Queremos”.

Além de Félix Tshisekedi e Sassou Nguesso já há, neste momento, a confirmação de outros líderes africanos ou internacionais?
Há dias, a ministra de Estado para a Área Social, Carolina Cerqueira, foi portadora de mensagens do Presidente João Lourenço aos homólogos Denis Sassou Ngussou e Félix Tshisekedi. Um dos objectivos das deslocações foi a Bienal de Luanda, em que a ministra de Estado é a Coordenadora da Comissão Nacional Multissectorial para a preparação desta edição. Nestes dois países foram dadas informações sobre os preparativos da agenda e transmitir a expectativa do Presidente João Lourenço quanto a necessidade de Angola contar com uma representação ao mais alto nível, desses países, nomeadamente os seus líderes. Mas há uma agenda de consultas e prestação de informações sobre a Bienal de Luanda que vai prosseguir, em função do calendário e disponibilidade dos líderes dos países a convidar. Vamos realizar, em breve, novas deslocações com o mesmo objectivo.

Que programas definitivos já estão traçados?
Até agora, o programa indicativo vai ser movido à base de 4 eixos fundamentais. Um deles é o Diálogo Inter-geracional entre Líderes e Jovens, que para tal contamos ter estadistas de alto nível. Haverá ainda um Fórum Temático de Boas Práticas, bem como o lançamento da Aliança de Parceiros para a Cultura de Paz em África, tudo isto alimentado com a demonstração dos valores das artes e manifestações culturais, no âmbito do último eixo da Bienal que será o Festival de Culturas.

Como vai acontecer o Diálogo Inter-geracional?
O Diálogo Inter-geracional entre líderes e os jovens vai ser realizado com a presença de, pelo menos, 150 jovens provenientes de todos os países do continente africano e das demais diásporas. Neste diálogo, os jovens são representados por um rapaz e uma rapariga. Os demais podem ter a garantia da sua participação no formato virtual, através das plataformas digitais e redes sociais.

Qual é o propósito do Fórum Temático?
Quanto ao Fórum Temático e Boas Práticas é um painel que junta detentores ou promotores de soluções e parceiros interessados na promoção da paz e do desenvolvimento sustentável em África. O paradigma adoptado pela União Africana, a UNESCO e Angola, para esta edição é, ao contrário da primeira, a valorização de acções práticas, mensuráveis, de modo que a Bienal possa ser assumida como tendo produzido benefícios e não apenas discussões teóricas ou meramente académicas. O que pretendemos é produzir um impacto real na população, em termos de concretização dos objectivos traçados para a Bienal. Queremos que estes projectos sejam a nível local, nacional e sub-regional e possam constituir uma pauta de projectos emblemáticos, transversais e possibilitem a sua mensuração no domínio da implementação com impacto positivo sobre a vida das comunidades, na construção de uma paz duradoura.

Qual é o perfil estabelecido aos potenciais parceiros que vão ajudar a realizar a Bienal?
Quanto aos parceiros estamos a pensar naqueles que, pela vocação, podem comprometer-se de maneira muito mais significativa e contínua, na viabilização das iniciativas e dos projectos elegíveis. Estamos, concretamente, a falar das comunidades económicas regionais, como sejam as entidades ligadas à União Africana e por ela acreditadas, como a Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), a Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) e a Comunidade Económica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO). Daí o trabalho de diplomacia que estamos a realizar. Esta é a primeira mais-valia que contamos ter como garantia para a concretização da filosofia pensada para a Bienal da Paz, como forma de assegurar a sustentabilidade económica e financeira dos projectos aptos a consolidar a promoção de uma cultura de paz e de não-violência em África.

Poderia citar alguns destes parceiros?
Empresas do sector público e privado, sejam elas nacionais ou multinacionais, assim como fundações, organizações filantrópicas, bancos de desenvolvimento e instituições internacionais e intergovernamentais. Naturalmente, esperamos uma grande adesão e participação das organizações da sociedade civil, bem como a nível individual, a presença de personalidades de destaque e de renome, importantes na dissertação de algumas questões de destaque.

Construção de uma África próspera, pacífica e sem armas até 2030
E quanto ao tema desta Bienal?
A União Africana adoptou este ano este tema, tendo em conta que, através da cultura, podemos alcançar os objectivos assumidos pela organização, no âmbito  da Agenda 2063, que visa a construção de uma África integrada, próspera e pacífica, sem armas até 2030.  Os subtemas que identificamos em debate, com os pontos focais da União Africana, UNESCO e dos sectores especializados de Angola, apontam para a importância de saber que tipo de contribuições devem ser colhidas, como apoio aos fazedores das artes, mesmo porque nos encontramos condicionados pela pandemia.

Tendo em conta a pandemia e o lema da Bienal, foram criados projectos específicos?
Há a necessidade de saber de que forma vamos equacionar a participação das indústrias culturais e criativas para a recuperação económica, inclusiva e sustentável. Como sabemos, o sector da cultura é dos mais afectados por esta pandemia. O debate já está em curso, vamos fazê-lo evoluir para a Bienal e identificar, tanto as iniciativas, quanto as propostas que farão com que, depois da Covid-19, possamos estar em condições de identificar qual deve ser o novo paradigma que, no âmbito da promoção da cultura de paz, deveremos adoptar como recursos de sustentabilidade e resiliência dos homens da cultura.

Qual é a essência dos projectos?

A actual realidade da cultura africana e do seu património aproveitados, nesta ocasião, para discutir, também, sobre como resolver e prevenir conflitos, segundo os valores e as práticas culturais africanas. É uma grande oportunidade para identificar e valorizar os exemplos concretos de prevenção de conflitos, redução de riscos e da construção da paz. África é um continente detentor de um vasta cultura, material e imaterial, inscrita na lista do Património da Humanidade, mas há exigências para se manter nessa lista que chama atenção à sua conservação e preservação. Hoje, boa parte desse património está a sofrer um processo de degradação e corrosão acentuadas, do ponto de vista da qualidade, de modo que estamos diante de um tema transversal e importante sobre o qual valerá sempre a pena discutir. Assim, nesta Bienal, o estado de conservação do património africano é um dos focos do debate, pois é importante criar um compromisso, no sentido de se financiar os programas de manutenção desses recursos culturais, para continuarem na lista do Património da Humanidade.

Quantas pessoas podem ser esperadas nesta Bienal?

A 2ª edição está a ser projectada num ambiente, de certo modo, adverso, marcado pelo contexto da pandemia da Covid-19. Tudo indica que deveremos ter uma certa cautela, face ao número de deslocações. O formato idealizado e praticamente assumido é o híbrido, no qual há a presença física, no terreno, com a participação virtual, nas redes sociais, da Bienal. Portanto, teremos uma presença relativamente reduzida de modo a fazer face às exigências impostas pelas normas de biossegurança, decretadas pelas autoridades.

Então teremos um número reduzido de participantes?
Ao contrário. O formato é que vai ser diferente. Presencial e online. Teremos que ter mais precauções, devido ao interesse demonstrado pela juventude e por outras sensibilidades da sociedade civil e científica, dispostas a participar nas actividades que se vão desenrolar entre os dias 4 e 8 de Outubro de 2021, em Luanda. Portanto, por uma questão de segurança sanitária, estamos a ver um local adequado, tendo em conta o distanciamento. A presença física não deve passar das 300 pessoas, em função da capacidade real do espaço e respeitando as regras de segurança sanitária.


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