Opinião

Angola e Turquia de mãos dadas

Juliana Evangelista Ferraz |*

Angola e Turquia marcam um passo importante na cooperação económica entre os dois países, na medida que se abre uma porta para se firmar um conjunto de acordos bilaterais em vários domínios, com destaque para o militar, comércio, economia, recursos minerais, além de aspectos consulares e diplomáticos.

03/08/2021  Última atualização 10H02
Defrontamos problemas estruturais muito difíceis de ultrapassar e, além de consolidação fiscal, que significa reduzir o défice e a dívida, temos que seguir o caminho da recuperação económica, promovendo a abertura e a diversificação da economia, e a acção da diplomacia económica é muito favorável, porque permite garantir maior atracção de capital estrangeiro e intensificar as trocas comerciais.

A cooperação que se pretende permitirá alguns benefícios, como reduzir burocracias e animar o desempenho da balança comercial entre os dois países. Angola precisa de entrada de investimento estrangeiro e a possibilidade de aumentar o investimento turco é um factor benéfico para economia, na medida em que a Turquia possui um conjunto de potencialidades económicas e tecnológicas em diversos sectores, que devem ser exploradas a bem de ambos os países. A isenção de vistos nos passaportes de serviço simboliza o avanço nas relações diplomáticas e irá estimular a mobilidade dos empresários nos dois sentidos para se estabelecerem as trocas, para o sentido do equilíbrio, uma vez que a economia angolana precisa de crescer com absorção de investimento estrangeiro.

Angola e a Turquia estão em diferentes estágios de desenvolvimento económico e industrial e, nesta perspectiva, podemos aproveitar as valências e a experiência turcas na implementação de processos de produção de trigo, com vista ao aumento da produção do grão, bem como o aproveitamento da cadeia de valor do trigo. O "know how” e a tecnologia turca, em termos de produção de equipamentos, são factores que devem ser aproveitados, sobretudo pelos empresários, porque o crescimento económico surgirá por via das empresas, que devem encontrar melhor forma de financiar os seus projectos, aproveitando as vantagens tecnológicas que algumas economias mais maduras, como Turquia apresentam, detêm.

Dados oficiais, recentemente publicados, referem que o consumo anual de farinha de trigo em Angola é de cerca de 650 mil toneladas e espera-se um aumento para as 1200 toneladas nos próximos meses. A produção de farinha de trigo ainda não atingiu o nível de desenvolvimento necessário, em termos de quantidade e qualidade, para satisfazer as necessidades do mercado interno.  Daí que, no âmbito da cooperação bilateral, é oportuno captar o investimento directo estrangeiro neste domínio, uma vez que o país tem pouca tradição na produção de trigo e cabe reverter esta situação, aumentando a produção deste cereal.


É certo que se devem operar melhorias de custos de contexto e das condições de investimento, uma vez que persistem constrangimentos operacionais de vária ordem, que reduzem a competitividade interna das indústrias.

Portanto, este tipo de investimento funcionará como um catalisador para a diversificação da economia nacional, criação de emprego, transferência de "know how” e tecnologia e, por outro lado, irá proporcionar a redução do preço deste produto e consequentemente os produtos da cadeia de valor.  No entanto, é imprescindível a preparação de infra-estruturas agrícolas e técnicas para a produção e exploração deste produto e suprir as necessidades locais e num segundo estágio para exportação principalmente na zona intercontinental africana. Assim, a alteração de um modelo de desenvolvimento excessivamente focado na importação de matérias-primas e bens de consumo deve dar lugar à criação de um paradigma baseado na eficiência dos factores de produção interna.

Com a abertura do espaço aéreo entre Angola e a Turquia, espera-se aumentar a mobilidade por parte dos empresários e público em geral nos dois sentidos, uma vez que, actualmente, para se chegar à Turquia é necessário efectuar conexão em outras geografias. Esperam-se benefícios em vários sectores de actividade, porque existirá uma maior conectividade e rapidez no processo de viagem, aumentando a aproximação entre os dois países. Por exemplo, poderá haver um novo fluxo turístico de ambos os lados, a melhoria dos processos de participação em feiras e eventos de negócios com instituições públicas e privadas.

 A ligação directa à Turquia também irá acelerar a indústria do turismo nacional, com enorme potencial de crescimento em Angola, considerada a alavanca de crescimento da economia fora do sector petrolífero e fonte de arrecadação de divisas. Com o aquecimento do sector do Turismo, nasce a oportunidade de se preparar um conjunto de empresas da cadeia de valor deste sector, nomeadamente cadeia de hotéis, restauração, transportes, agências de viagens - para excursões -, comércio local, entretenimento entre outros serviços indispensáveis numa determinada oferta turística.

* Economista

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