Opinião

Angola acima de tudo

Adebayo Vunge

Jornalista

O Presidente da República fez um pedido de desculpas em público pelas atrocidades ocorridas em Angola, em Maio de 1977.

31/05/2021  Última atualização 10H33
Até aqui, este era um tema tabu e fracturante, sobretudo nas hostes do MPLA, que era na altura o Partido-Estado que se propunha criar em Angola uma República Socialista, ainda poucos anos após a independência e em que começavam a ficar evidentes algumas dificuldades na governação, agravadas pela conjuntura internacional da guerra fria e pelos sérios dilemas intramuros entre os maquisards, os da cidade e todas as alas então existentes.

Passados 44 anos desde os fatídicos eventos do 27 de Maio, o assunto era como que ignorado ou sonegado pelo poder, muito por culpa das feridas que então se criaram. Uns e outros, fraccionistas e netistas, empurravam as culpas aos outros e as famílias viviam com os horrores do desaparecimento, nalguns casos, fuzilamento por causa do envolvimento ou não dos seus parentes nas facções que se digladiaram na intentona.

Para além de não haver certezas quanto ao número de vítimas que ambas as partes perpetraram, continua a haver rara luz sobre o que realmente teria acontecido, suas causas, motivações e seus protagonistas. Há um subtil revisionismo histórico sobre o tema, destacando eu os apanhados do historiador Jean Michel Mabeko Tali na sua obra "O MPLA perante si próprio” e da jornalista Laura Pawson "Em nome do Povo”, para além de uma dezena de obras com um pendor pro ou contra as diferentes alas.

Ora, o perdão e o espírito de reconciliação que o Presidente João Lourenço tem vindo a liderar permite efectivamente sarar feridas e conferir dignidade às vítimas do 27 de Maio bem como aos seus parentes, sobretudo os filhos que não conheceram os seus pais porque estes foram levados pela onda maligna dos factos que sacudiram Angola naquela altura. É um perdão movido pelos valores da tradição bantu e da própria religião. É um perdão que nos permite libertar-nos.
A História de Angola está repleta de eventos dessa natureza que mancham a unidade nacional e não podemos simplesmente os esconder para debaixo da mesa. É importante trazer-lhes a luz e sem qualquer sentimento de revanche assumir o legado histórico e prometer uma abordagem diferente.

De resto, esses episódios que não são menores na História de Angola têm merecido uma abordagem muito frontal do Presidente neste seu primeiro mandato. Concordando-se ou não com a forma, ninguém pode em sã consciência escamotear essa realidade e soa demagógico pretender-se usar isso como arma de arremesso político contra si ou mesmo contra o MPLA. Assumamos até que assim seja, não lhe retira o mérito que venhamos a adoptar uma cultura de paz e de perdão entre os angolanos, independentemente da sua religião, filiação partidária ou origem étnica. E olha que naquele caso havia partilha dessa matriz e nem isso os impediu. Tal como não impediu os episódios da Jamba. Alguém, na febre dos factos, terá mesmo sentenciado com uma frase que hoje ninguém assume: não haverá perdão!
Não é isso que queremos mais. Como digo, Angola acima de tudo. E por Angola esse perdão e a reconciliação até no seio dos partidos é fundamental. Aceitar e conviver com o outro na sua diferença.


E Angola tem de estar também acima de tudo quando olhamos ao escabroso caso do Major Lussaty. Estou em crer que este caso dramático, que não cabe paradoxalmente em nenhum palco digno desse nome, vai obrigar-nos a todos a uma profunda autorreflexão. Precisamos nos reinventar. Temos de nos olhar ao espelho. Se necessário chamarmos um psicólogo, como quem diz pedir ajuda para que nos possamos recolher ao divã e perceber o que se passa, o que se passou connosco. Porque perdemos a oportunidade de tornar Angola um verdadeiro "Dubai de África”. Foram opções políticas erradas, noutros casos nem políticas tínhamos, e o dinheiro evaporou-se das nossas contas ficando nós com um país repleto de analfabetismo, capital humano com baixíssima formação técnica, cultural e humana, careca de infraestruturas e ainda endividado, com pressa mas nunca percebendo a diferença entre o urgente, o necessário e o prioritário.

E como se não nos bastasse, levamos connosco a ter de lidar com casos vergonhosos como o do Major. Precisamos ser irrepreensíveis, tirar lições e tentar normalizar. É imoral vermos o dinheiro escondido e carregado em malas quando ao lado vemos um mar de fome e miséria. Hospitais com enormes dificuldades, faltam estradas e água potável… enfim! Não podemos nos permitir repetir o mesmo erro, encobrindo gente que não merece um pingo da nossa comiseração. O major e todos os seus comparsas. Agir com justiça e equidade significa colocar Angola acima das agendas particulares. É urgente.
Aquele dinheiro deveria ser utilizado na construção e apetrechamento de escolas ou hospitais em zonas periféricas, simbolizando efectivamente o combate à corrupção e aos fluxos ilícitos de capital, permitindo que os angolanos possam beneficiar dos seus recursos e não apenas um punhado de gente que se lambuza descaradamente no pote.

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