Opinião

Ancestralidade africana

Encontramo-nos no mês de Maio, a escassos dias para celebrar o Dia de África e fase em que importa reflectir, exaltar, comemorar e resgatar a ancestralidade africana, entendida aqui, entre outras leituras, como o reencontro com a História, cultura, valores e tradições africanas. O regresso às origens no que ao tempo e espaço iminentemente africano diz respeito, tal como proclamado há séculos e décadas por figuras africanas emblemáticas é parte vital para que África encontre e ocupe o seu lugar no concerto das nações, continentes e regiões.

20/05/2022  Última atualização 06H00

É verdade que o processo de construção, aquisição e, na maioria dos casos, de recuperação da identidade africana é recente a julgar pelo trágico papel desempenhado pelo choque, a todos os títulos, que passou a ser, nas suas implicações e consequências, as relações transatlânticas.

Grande parte da narrativa africana de construção das identidades das nações, Estados em direcção a verdadeiras nações, ainda é baseada no que a herança colonial legou, realidade que também condiciona, hoje, as formas como as referidas entidades africanas olham o desenvolvimento. Como defendem alguns autores, grande parte do atraso com que se confrontam os países africanos radica também na forma como, por um lado, a herança colonial estruturou meios e fins para a salvaguarda dos seus interesses mesmo durante a fase pós-Independência e, por outro, como boa parte das elites africanas não se livram das antigas metrópoles inclusive para imitar as Constituições e demais legislação, bem como formas de organização dos seus Estados.

Para muitas sensibilidades africanas, favoráveis às rupturas necessárias e oportunas que coloquem acima valores africanos contra o estado de coisas que perpetua a visão não africana para o continente, está na hora, ao menos, de reflexões, mudança de mentalidade,  valorização e resgate  do que é intrinsecamente africano e válido para o seu desenvolvimento. 

Em jornadas que se aproximam ao Dia de África, vale reflectir se os moldes em que encaramos o desenvolvimento africano, muito moldado à realidade e condicionalismos que são cultural e socialmente distantes, não são passíveis de revisitação, reelaboração e adaptação às condições objectivas continentais.

Tal como fizeram as nações que hoje designamos como "gigantes asiáticos” que, ao longo de várias décadas depois das suas independências, não se limitaram a fazer "copy & paste” das ementas ocidentais em matérias de desenvolvimento, está na hora de África seguir exemplos que deram certo  noutras paragens, com modelos seguros que mais se ajustam às suas condições.

Quando devia ocorrer uma adaptação do que vem de fora em função da realidade local africana, parece existir uma tendência generalizada do oposto, facto que levam as sociedades africanas a "serem obrigadas” a assemelharem-se com as outras realidades.

África precisa de se reencontrar para valorizar modelos próprios de crescimento e desenvolvimento económico e social, em vez da adaptação cega e servil de modelos que nem sempre se encaixam com os seus interesses, valores e tradições, não raras vezes por pressão e diktat das potências Ocidentais, espécies de "continuadoras da missão civilizacional” junto de alguns Estados. Por isso, importa reencontrar a História, cultura, valores e tradições africanas para sabermos de onde viemos e para onde vamos sem que  nos imponham, enquanto africanos, vontades e percursos.

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