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ANC enfrenta desafios à corrida das eleições

Cerca de 28 milhões de sul-africanos vão hoje às 23 mil urnas distribuídas pelas nove províncias do país para participar em mais umas eleições, onde o ANC surge novamente como natural favorito tendo na extrema esquerda, através dos Combatentes pela Liberdade Económica, o perigo que pode ofuscar o seu, mesmo assim, mais que esperado triunfo.

08/05/2019  Última atualização 13H05
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O Congresso Nacional Africano, liderado pelo Presidente Cyril Ramaphosa, surge nas eleições de amanhã entre os 48 partidos participantes como o grande favorito ao triunfo mas, contrariamente ao que sucedeu anteriormente, teve que radicalizar o discurso durante a campanha eleitoral para resistir às posições da extrema esquerda que lhe pretendia roubar eleitores e assim ofuscar a sua esperada vitória.
Neste momento, um dos grandes problemas da África do Sul é a existência de 27 por cento de desempregados e uma sociedade marcada por enormes disparidades e uma corrupção endémica, que Ramaphosa nunca conseguiu combater de modo suficientemente claro.
Durante o último fim-de-semana de campanha, estes problemas ficaram patentes nas intervenções de Ramaphosa e de Julius Malema, que reuniram dezenas de milhares de simpatizantes para os tentar convencer da positividade dos respectivos programas.
O perigo que Julius Malema representa para Cyril Ramaphosa radica no facto de ele estar a ter uma intervenção política que pode seduzir uma larga franja dos eleitores do ANC, beneficiando com isso a extrema-direita e assim encurtar distância em relação à Aliança Democrática, que deverá continuar a ser a segunda força política do país.
No Estádio de Ellis Park, em Joanesburgo, Cyril Ramaphosa assegurou aos seus seguidores a obtenção de uma vitória reconhecendo, contudo, os erros de governação cometidos pelo partido.
Dizendo que o país atravessa um momento histórico, em que os cidadãos devem escolher entre um passado de conflito e um futuro de paz e estabilidade, Ramaphosa pediu aos apoiantes que escolham a esperança ao invés do desespero, a renovação face à estagnação e o crescimento em detrimento do declínio.
Ramaphosa sublinhou que esta foi a mensagem de desejo transmitida pelo povo durante a campanha eleitoral em todo o país, onde disse ter-se reunido com mineiros, camponeses, artesãos, enfermeiros, estudantes, artistas e pensionistas, entre outros.
“Reunimos com pessoas cujas vidas foram transformadas nestes 25 anos de democracia, mas também com aqueles que carecem de trabalho, de casa, de ensino superior e vivem sem acesso à água potável e não contam com instalações sanitárias adequadas”, precisou.
 “Cometemos erros e aceitamos as críticas sem reservas”, expressou o líder sul-africano, acrescentando estar disposto a trabalhar com cada sul-africano para construir um país no qual todos possam prosperar.
No Estádio de Orlando, a 20 quilómetros do Ellis Park, em pleno coração do Soweto, Julius Malema disse, por seu turno, aos seus seguidores da extrema-esquerda que se pretende afirmar e mostrar ao ANC que as suas políticas estão erradas e que já não consegue convencer os sul-africanos das suas intenções.
Apostando na captação do eleitorado jovem, precisamente aquele que mais tem sentido na pele os erros de governação do ANC, Malema disse claramente que apenas ele está em condições de garantir um futuro melhor para todos os sul-africanos, uma vez que “os homens do ANC estão todos demasiado comprometidos com um passado obscuro.”
Segundo a mais recente sondagem, o ANC conseguirá obter a maioria dos votos, surgindo depois a Aliança Democrática com percentagens que a lei não deixa divulgar e que neste momento não são perceptíveis devido a alguma incerteza sobre a influência que os Combatentes pela Liberdade Económica podem ter junto das bases do partido de Ramaphosa.
Ainda no passado fim-de-semana, Mmusi Maimane, líder da Aliança Democrática, apelou, tal como Julius Malema, aos desiludidos com o ANC para que tenham  coragem para votar na mudança que garantiu ser protagonizada pelo seu partido.

O problema do xenofobismo

Na recta final da campanha, o Governo foi fortemente pressionado por diversas organizações nacionais para processar os responsáveis pela mais recente onda de ataques xenófobos.
Diversas organizações de defesa dos direitos humanos desafiaram o Governo a encetar investigações “sérias e profundas” para processar criminalmente os responsáveis pelos ataques a cidadãos estrangeiros no país que ocorreram entre os dias 25 de Março e 2 de Abril.
Para as mesmas organizações, o Governo tem que “fazer muito mais do que simplesmente condenar o que se passou”, pelo que defendem que deve ser criada uma equipa especial de investigação para conduzir ao apuramento dos responsáveis e para evitar que situações do tipo se voltem a repetir.
O Presidente Cyril Ramaphosa, numa declaração feita no início do mês, condenou os ataque e disse que a Polícia estava no encalço dos responsáveis, mas a verdade é que até agora não foram efectuadas detenções relacionadas com o caso, nem as autoridades forneceram informações oficiais sobre o número de vítimas desses ataques xenófobos.

Comissão Eleitoral evita greve

A Comissão Eleitoral Independente (IEC) da África do Sul alcançou ontem um acordo laboral de última hora, para evitar uma greve que ameaçava paralisar o primeiro dia do processo eleitoral, noticiou a imprensa.
O acordo, citado pelo diário “Star”, de Joanesburgo, foi alcançado após dois dias de intensas negociações entre a IEC e o sindicato NEHAWU (National Education, Health and Allied Workers), uma estrutura sindical afecta à Confederação de Sindicatos da África do Sul (Cosatu), parceiro na coligação governativa com o Congresso Nacional Africano (ANC) desde 1994.
A disputa entre a IEC e aquela estrutura sindical centrou-se na “implementação de um novo organograma e de condições de trabalho”, afirmou o porta-voz sindical, Zola Saphetha.
Em causa, esteve a entrega de material eleitoral fora de horas, assim como a montagem de estações de voto e a falta de comparência ao trabalho de funcionários eleitorais, por motivos de saúde, salientou a porta-voz da IEC, Kate Bapela.
De acordo com a IEC, 26,7 milhões de eleitores registados votam em 22.924 mesas de voto nas nove províncias do país.
Participam nestas eleições gerais, a nível nacional e provincial, 48 partidos políticos.

Previsões favorecem o ANC

A Eurasia afirmou em relatório que o partido governamental, Congresso Nacional Africano, terá o domínio testado nas eleições de hoje, na África do Sul. De acordo com a consultoria, o partido deve obter entre 58% e 60% dos votos e, consequentemente, vencer a eleição, dando pela primeira vez um mandato de quatro anos ao actual Presidente, Cyril Ramaphosa. No entanto, se o partido conseguir 55% dos votos ou menos, o grupo ligado ao ex-Presidente Jacob Zuma poderá atrapalhar as reformas económicas e, até mesmo, retirar o Presidente do cargo com a ajuda da oposição.
No cenário em que o ANC recebe mais de 58% dos votos, a consultoria afirma que o público e mercados verão o resultado como uma aprovação de Ramaphosa, que o permitirá levar adiante as reformas e a agenda anti-corrupção. No entanto, essa visão subestima o poder do grupo de Zuma no partido.
“A pressão persistente (do grupo de Zuma) vai impedir que o Presidente abandone medidas populistas ligadas à expropriação de terras e à nacionalização do Banco Central, que deve deixar investidores preocupados e conter o crescimento económico”, diz o relatório.
No caso de o ANC conseguir entre 50% e 55% dos votos e não formar uma coligação com o partido de esquerda EFF na província de Gautengue, Ramaphosa estará “sob constante ameaça de remoção”, diz a Eurásia. Caso haja uma tentativa de retirá-lo do cargo, provavelmente derrotaria a facção de Zuma, mas teria que utilizar todo o seu capital político para se manter no poder. Consequentemente, haveria mais dificuldades para se aprovar as reformas económicas. Caso o ANC ganhe entre 50% e 55% dos votos, mas forme uma coligação com o EFF em Gautengue, a única chance de Ramaphosa manter-se no poder seria “torcer para que a sua campanha anti-corrupção faça com que Malema e outros membros do EFF sejam acusados ou presos antes das eleições de 2024”, diz a consultoria.
Um cenário considerado positivo seria uma ruptura no ANC, em que Ramaphosa não precisaria mais de governar com o grupo do ex-Presidente Zuma. Nesse caso, o Presidente e os membros da centro-esquerda da ANC poderiam trabalhar em conjunto com outros grupos do centro, para formar uma maioria no Parlamento, que poderia trabalhar para aprovar reformas.

Crescente sentimento de insatisfação

Há, entre os sul-africanos, um crescente sentimento de insatisfação e pessimismo. Depois do fim do apartheid, o ANC promoveu melhorias no país, ajudando a criar uma classe média e uma classe capitalista negras, além de ter expandido serviços como água, electricidade e habitação aos muito pobres.
No entanto, de acordo com o quoficiente de Gini, indicador usado para medir a desigualdade de rendimento, o país é o mais desigual do mundo. Em 2018, a segunda recessão desde 1994 durou meses. O desemprego está em 27%, só atrás da Venezuela (entre os países onde foi possível fazer a medição) e quase metade da população adulta vive abaixo da linha da pobreza, o que ajuda a explicar os elevados índices de crime e violência.
O crescimento económico também tem sido tímido, na margem de 1%. Soma-se a este cenário o entendimento de que a corrupção é generalizada entre os políticos, percepção acentuada por um enorme número de acusações contra o ex-Presidente Jacob Zuma, que renunciou, em Fevereiro de 2018.
A situação é particularmente crítica entre os jovens, que compõem a maioria da população sul-africana. De acordo com o último censo (de 2011), 59% dos sul-africanos têm menos de 30 anos e 36% da população têm entre 15 e 34 anos. Muitos destes jovens não estudam, nem trabalham e nem sequer procuram emprego e 54% deles estão desempregados - de novo, um recorde mundial. Os problemas concentram-se esmagadoramente entre os negros, que abarcam mais de três quartos da população, em comparação a 9% de brancos e 9% de mestiços.

 

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