Economia

Analistas questionam eficácia do microcrédito para o combate à pobreza

Antes considerado uma arma milagrosa na luta contra pobreza, o microcrédito é visto com cepticismo por muitos analistas, que consideram que esse empréstimos pouco mudaram a vida dos que vivem abaixo da linha da pobreza em África.

10/11/2019  Última atualização 22H26
DR © Fotografia por: Para alguns analistas, o microcrédito fortalece a pobreza

Há algumas décadas, o microcrédito era considerado uma arma milagrosa na luta contra a pobreza e o desemprego. Muhammad Yunus, economista de Bangladesh considerado o pai da ideia, chegou a receber o Prêmio Nobel da Paz, em 2006.
Em 2018, cerca de 8 milhões de pessoas levantaram microcréditos em África, num valor total de quase 8 mil milhões de euros. Entre 2002 e 2014, o número de empréstimos aumentou mais 1.300 por cento.
A fundação "Opportunity International" oferece microcréditos em dez países africanos. O princípio é emprestar pequenas quantias para que pessoas em situação de pobreza possam ser inseridas na actividade económica. Anke Luckja, representante daquela organização, explica as vantagens dos microcréditos.
"No passado, chegamos a ter 80 por centode clientes mulheres, que diziam: 'Ok, nós realmente precisamos de algo como um capital de giro para investir o dinheiro e obter melhores preços de compra'. Por fim, essas mulheres investiram 76 por cento a mais na família, ou seja, na educação dos filhos e na alimentação", afirma. No Gana, Celine Yelpoe, mãe de três crianças, administra uma fazenda de frangos desde 2007. A empreendedora começou com 50 animais, financiada pelo microcrédito e, dois anos depois, já tinha 900 frangos. É uma história de sucesso, mas que não reflecte a realidade do continente africano.
Estes empréstimos pouco mudaram a vida de quase metade da população de África que ainda vive abaixo da linha da pobreza. "Quando as pessoas saem do microfinanciamento, precisam de um crédito formal para continuar a impulsionar o próprio negócio.
Em geral, é muito difícil obter esse tipo de crédito em países em desenvolvimento. Além disso, nem todas as pessoas são empreendedoras e, portanto, já desde o início, o processo de concessão desses empréstimos exclui grande parte da população", explica Rainer Thiele, chefe da área de pesquisa sobre redução da pobreza na Universidade de Kiel, na Alemanha.

Pobreza continua

Milford Bateman, professor de economia da Universidade Paula, na Croácia, chega a considerar o microcrédito uma forma de antidesenvolvimento que fortalece a pobreza.
"Há milhões de microempresas informais. A ideia sempre foi a de que África precisa sair da informalidade e tornar-se uma economia mais sofisticada e industrial se quiser seriamente reduzir a pobreza. Entretanto, acumulamos dinheiro comercial e de doações a fim de ampliar o número desses negócios informais em África. Isto os leva basicamente de volta ao passado ou solidifica um modelo económico que não é orientado para o crescimento da economia e a redução da pobreza", diz.
Por sua vez, Rainer Thiele, da Universidade de Kiel, discorda que o microcrédito consolida a pobreza: "Pesquisas recentes mostraram que esses programas de microcrédito têm algumas características positivas: as taxas de reembolso são muito altas e esses créditos realmente levam a investimentos que permitem aos pequenos empresários aumentar um pouco o ritmo dos negócios e também os lucros".
Para Milford Bateman, a pobreza só pode ser combatida com a criação de novos negócios e empregos bem pagos. "O problema não é o microcrédito em si, mas o facto de só apoiar as microempresas. África não precisa mais disso. O continente necessita de pequenas e médias empresas, mas o dinheiro não chega, porque quem fornece as microfinanças não consegue ganhar dinheiro com empréstimos a pequenas e médias empresas", afirma.
Outro problema é o facto de os microcréditos serem essencialmente destinados à população urbana. Segundo o Relatório Mundial sobre Agricultura, mais da metade dos africanos vive do agronegócio. Por esse motivo, o microcrédito está muito menos presente na África do que na Ásia, por exemplo.

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