Sociedade

Ana Tomás da Cunha : “A verdade da vida está no carácter e não no tamanho das pessoas”

Rui Ramos

Jornalista

Ana Tomás da Cunha nasceu, no dia 23 de Abril de 2002, em Cacuaco, Luanda, é filha de Gonçalves Correia da Cunha e de Helena Tomás Cassanga.

18/09/2022  Última atualização 09H25
© Fotografia por: DR

Logo no início de conversa, a jovem faz referências à sua condição física: "Tenho algo, que se convencionou ser uma deficiência física, por ter os membros superiores e inferiores curtos e estes últimos estarem muito encurvados”.

Por causa dessa condição, Ana da Cunha diz sentir constantemente e de forma intensa dores nas pernas. Apesar disso, realça que aprendeu a acostumar-se com esse sofrimento, ainda menina.

Essa situação não a fez desistir da formação. É assim que Ana da Cunha fez o ensino primário na Escola de São João Eudes e o médio no Instituto de Saúde do Bengo. Presentemente, frequenta o segundo ano do Instituto Superior Politécnico Intercontinental de Luanda (ISPIL).

Pelas escolas por onde tem passado, Ana Cunha é alvo de curiosidade e muitas vezes de preconceito, por outras pessoas acharem que o seu corpo não está dentro daquilo que se convenciona ser o normal.

"Só quem foi ou é vítima de preconceito avalia bem o que é o dia-a-dia de sofrimento, de amargura e de impotência perante algo que não se pode mudar, algo que não depende da nossa vontade”, diz-nos.

"Quando estamos com alguém sentimos o que somos, não conseguimos abstrair, a nossa mente trabalha para explicarmos, para sermos aceites pelas pessoas que se julgam normais. Para uma criança, é uma crueldade sem nome e sem defesa e, muitas vezes, eu perguntava, desesperada, porquê eu, porquê eu?”

Ana da Cunha ressalta que já foi submetida a várias consultas e tratamentos, mas sem sucesso. As dores continuam a persegui-la. Antigamente, ela não percebia o porquê de tantas dores, mas começou a ter uma ideia real da situação, em 2013.

"Antes, tudo era normal para mim. As dores nas pernas eram só um mal-estar qualquer, mesmo que fossem constantes”, mas, no referido ano, quando era agredida por uma colega de escola percebeu que tinha estatura muito inferior à agressora.

"Ela zombava de mim e dizia que eu nunca  alcançaria a altura dela, por ser anã, o que me impediria de conseguir bater. Doeu quando ela disse que eu continuaria pequena para sempre.”

Mesmo sendo ainda criança essas palavras marcaram a menina Ana da Cunha e deixaram-na a pensar durante muito tempo. Começou a observar mais o meio em que se encontrava e percebeu que existia realmente uma diferença.

"Já fui acusada de feiticeira, juntamente com a minha avó. E a pessoa que nos acusava alegava que eu, à noite, era uma pessoa normal. Suportar o bullying, por ser uma pessoa diferente, e a acusação de feitiçaria foram momentos difíceis”, recorda.

Com certa mágoa, Ana da Cunha recorda que chegou a ser levada pelo pessoal do bairro, juntamente com a avó, à administração local, para diante dos sobas, terapeutas tradicionais e quimbandeiros, mostrarem o suposto feitiço que tinham!

"Eram escândalos atrás de escândalos, tanto que alguns familiares e amigos se afastaram de nós e de outras pessoas que moravam em minha casa. Mas, os principais alvos eram eu e a avó”.

Ana da Cunha, durante a conversa, chegou a deixar claro que, em certas ocasiões, chorou bastante, principalmente quando fosse à rua e as pessoas fugiam dela. "Na escola, as amizades reduziram-se. Na igreja, via olhares estranhos a cercarem-me. Mas, Deus é bom e os rumores de feitiçaria foram acabando aos poucos”.

A jovem estudante universitária acrescenta que lidar com a diferença física já era difícil e ter mais à frente a acusação de feiticeira só tinha piorado as coisas.

"Infelizmente, durante essas fases tão difíceis, não tive alguém que viesse conversar comigo ou ouvir-me um pouco, para saber como me sentia”, desabafa.

Apesar do tempo e da maior facilidade de as pessoas disporem de informações sobre as pessoas anãs, Ana da Cunha realça que, ate hoje, há crianças que ainda a fogem na rua, o que a leva crer que o aspecto físico dela assusta as pessoas.

"Continuo a lidar com os olhares esquisitos, de comentários ruins nas ruas e algumas pessoas chegam a dizer mesmo que tenho um andamento feio e matam-se em gargalhadas”, lamenta.

Por causa disso, a jovem chegou a detestar-se a si mesmo. "Eu não gostava de mim nem me aceitava de jeito nenhum. Tentava superar o bullying, mas quase me venceram e mataram, porque acabei numa depressão e tentei o suicídio por três vezes”.

Das vezes que tentou tirar a vida, acredita, Deus sempre usava homens e mulheres para ir ao seu encontro e impediam o suicídio.

Na sua opinião, a sociedade não facilita quando está diante de seres ou pessoas diferentes delas, por esquecer que quer pessoas altas e sem deficiências notórias, quer as mais baixas e com diferenças físicas são todas a imagem e semelhança de Deus.

"E assim vivo a vida, na certeza de que não existe um ser maior do que Quem nos criou. Graças a Deus, hoje, eu venci tudo e sou uma nova pessoa e compreendo que a verdade da vida está no nosso carácter e não no físico que temos”.

Para Ana da Cunha, é preciso que se esqueça a estatura física para definir as pessoas, uma vez que todos são iguais e o respeito deve prevalecer sempre, respeitando-se a forma como cada um é.

No fim da conversa, a jovem deixou um recado para as pessoas que têm deficiências notórias, para que se lembrem sempre de Deus, que ama todos sem se importar com aspectos físicos.

"Se somos assim é porque Deus permitiu e Ele sabe que podemos ser felizes. Aliás, Deus não dá provas difíceis para pessoas fracas. E ser diferente não é um mal é uma experiência que nem todos podem viver, por isso, brilhemos e demos frutos, pois, somos especiais. Aceitemo-nos do jeito que somos, sejamos felizes e amemo-nos sempre”, remata.

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