Sociedade

Amotrang: Programa de Empregabilidade beneficia mais de 800 mil moto-taxistas

André da Costa

Jornalista

Matamba Sungani tem 24 anos e vive, em Viana, com os pais. Desempregado e sem dinheiro para prosseguir a formação académica, aceitou o convite do amigo Pedro Bala, para abraçar a aventura do serviço de moto-táxi.

05/12/2022  Última atualização 07H31
Milhares de pessoas, principalmente, jovens enveredaram para a actividade de moto-táxi para sustento das suas famílias © Fotografia por: DR

No bairro, durante uma semana, recebeu aulas do amigo e aprendeu a conduzir. Passados 20 dias, mesmo sem noção do Código de Estrada, começou a exercer a actividade de táxi, entre a zona do Bita Vacaria e a rua da Nice.

Em função da inexperiência, Matamba acabou em quatro acidentes de motorizada. Nesses casos, ele diz contabilizar as vezes que caiu com o passageiro. Mas, não desistiu, justificando que era a única forma que tinha encontrado para ajudar os pais no sustento de casa.

Matamba Sungani não é um caso isolado de jovens que se lançam na actividade de moto-táxi, para ganhar a vida, mesmo sem terem noção do Código de Estrada. Um desses é João Mutunda, que, também, decidiu apostar na transportação diária de dezenas de passageiros numa motorizada.

Esse cenário está a preocupar a Associação dos Motoqueiros e Transportadores de Angola (Amotrang), por, segundo o seu presidente, Bento Rafael, originar o aumento de acidentes a envolver motoqueiros.

"Devo admitir que muitos moto-taxistas desconhecem ainda as regras do Código de Estrada, o que tem contribuído para os constantes acidentes de viação, em Luanda, e noutras partes do país”, disse.

O presidente da Amotrang explicou que os acidentes com motorizadas têm resultado em mortes, ferimentos graves e ligeiros, incapacidade física de muitos associados, destruição das motos e danos a terceiros.

Para inverter este quadro, a Associação assinou um protocolo de cooperação com o Ministério da Administração Pública, Trabalho e Segurança Social (MAPTSS), através do Plano de Acção para a Promoção da Empregabilidade (PAPE) e do Instituto Nacional do Emprego e Formação Profissional (INEFOP).

No quadro deste protocolo, os moto-taxistas recebem aulas de condução defensiva e empreendedorismo. A ideia, segundo Bento Rafael, é que os associados reduzam o máximo de acidentes, conduzam de acordo com a legislação rodoviária e usem o capacete de protecção.

 

Expansão para todo o país

As aulas de empreendedorismo vão possibilitar os associados gerirem e fazerem bom negócio, uma vez que vendem serviço, disse.

"Os moto-taxistas têm estado a trabalhar para se tornarem grandes empresários, sendo, por isso, importante a formação em empreendedorismo”, referiu o presidente da Amotrang.

No âmbito desse programa, os primeiros 250 homens foram já formados nos municípios de Cacuaco e Viana. Outros 150 moto-taxistas recebem formação no Mercado do Areal, situado no município de Belas.

Posteriormente, essa formação vai ser extensiva a todos os municípios da província de Luanda, mas o projecto estender-se-á a todo o país, garantiu o responsável.

Para evitar que, na actividade, estejam muitos jovens na condição de Matamba e João, o projecto vai ser cada vez mais abrangente, numa altura em que, diariamente, vários cidadãos, essencialmente jovens, entram para a actividade de moto-táxi.

Embora Luanda esteja a registar um grande número de moto-taxistas, grande parte deles é proveniente de outras províncias.

Com o apoio da Polícia Nacional, a Amotrang tem trabalhado, também, na formação dos associados em duas escolas sob sua tutela, localizadas em Cacuaco e Viana. A par disso, a Amotrang implementou, igualmente, o sistema de formação ambulatória dos moto-taxistas, devido à procura, levando os serviços ao encontro dos motoqueiros.

"Achamos que, por essa via, conseguimos ser mais interventivos e formar o maior número de motoqueiros”, disse Bento Rafael, que considerou não existir formas de travar agora a actividade de moto-táxi no país, por estar em expansão, mas precisa-se de mais formação, para que esse trabalho continue a ser feito sem dificuldades.

O grande desafio, realçou, é fazer com que o moto-taxista e o passageiro usem o capacete de protecção, com eficiência para proteger a vida em caso de acidentes graves.

 

Entrega de motorizadas

Um total de 250 motorizadas foi já entregue pelo Executivo, através do PAPE, aos jovens filiados à Amotrang, depois de terem beneficiado de formação em empreendedorismo e kits de trabalho, nos municípios do Cazenga e Cacuaco.

O presidente disse que existe, ainda, um grupo de 150 outros associados a concluírem a formação em Viana, para, depois, receberem o mesmo número de motorizadas, das quais 100 de duas rodas e 50 de três.

A atribuição das motorizadas, segundo Bento Rafael, concorre para o aumento da empregabilidade a nível dos jovens do país. "A mota serve para auto-sustento e deve ser amortizada em 24 meses”, esclareceu.

Bento Rafael enalteceu os esforços do Executivo, pela atribuição das motorizadas que estão a permitir empregar mais jovens e, por conseguinte, dinamizar essa actividade na capital.

A ideia é atingir outros jovens nas demais províncias. Afirmou que, actualmente, existem empresários na actividade de moto-táxi, com mais de 100 motorizadas, a empregar jovens que conseguem sustentar as famílias.

 

Mortes e roubos no exercício da actividade

A Amotrang tem inscrito mais de 800 mil associados, dos quais, 100 residem em Luanda. Segundo Bento Rafael, esses números podem ser maiores, de acordo com dados obtidos pela Amotrang junto das concessionárias de motorizadas, que atestam estar a circular pelo país mais de um milhão de motorizadas.

Mas, são os roubos e furtos de motorizadas que constituem, igualmente, uma das maiores preocupações do presidente da Amotrang.

Em consequência desses roubos, semanalmente, há o registo de uma morte provocada por delinquentes. Por isso, a Associação tem orientado os moto-taxistas a evitarem circular no período nocturno e nas primeiras horas do dia, sobretudo em bairros perigosos.

O presidente da Amotrang denunciou que existem, em Luanda, moto-taxistas que compram motorizadas roubadas a preços irrealistas, que variam entre 70 a 120 mil kwanzas, o que considerou muito grave.

Bento Rafael entende que, ao se comprarem essas motas, acaba-se por encorajar os delinquentes nessas práticas criminosas, daí apelar a uma maior colaboração da Polícia Nacional, na identificação dos supostos meliantes.

O responsável associativo pediu, ainda, às autoridades para gizar estratégias eficazes que visam a proibição de venda de acessórios usados de motorizadas nos mercados a céu aberto.


Mulheres no moto-táxi

O serviço de moto-táxi está a crescer no país e tem atraído cada vez mais muitos cidadãos, sendo, na sua maioria, homens. Entretanto, algumas mulheres têm estado a aderir à actividade. Um dos exemplos vem da província de Malanje, onde vive a mulher mais velha a apostar na actividade de moto-táxi como forma de ganhar a vida. Com 63 anos, a idosa conduz uma motorizada de duas rodas.

Além dessa idosa de Malanje, a Amotrang tem nos registos um total de 64 mulheres a exercer a actividade de moto-táxi.


Potenciar o serviço no país

A Amotrang tem delegações  municipais e provinciais a nível do país, onde os motoqueiros se informam sobre a actividade e beneficiam de formação.

Tendo em conta que "há locais do país onde a mota é o único meio de transporte”, Bento Rafael informou que a Amotrang traçou planos para potenciar outros jovens nas zonas distantes, com vista a transportarem pessoas, pelo que assegurou que vai levar motorizadas às províncias do interior e potenciar mais a actividade.

Informou que alguns mo-toqueiros se queixam dos apertos que têm sofrido da parte da Polícia Nacional, mas salientou que essas medidas são necessárias para forçar o motoqueiro a mudar de comportamento no am-biente rodoviário.

"Ainda temos motoqueiros que, para usarem um capacete, só com o aperto da Polícia, quando a lei obriga o uso desse utensílio de segurança, daí a advertência das autoridades policiais”.

Para Bento Rafael, as lojas de venda de equipamentos como capacetes, coletes e luvas de protecção praticam preços muito altos.

Anunciou que a Amotrang está num processo de negociações com alguns parceiros para se ter esse material a preço mais baixo.

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