Cultura

Ameaças contra a literacia da leitura

Luís Kandjimbo |*

Escritor

Foi a organização do arquivo constituído ao longo das últimas três décadas, entre papéis, fotografias, jornais, revistas e livros, no actual contexto global da leitura digital, que reavivou uma experiência contrafactual que poderia consistir em assumir o papel de quem sofre certo tipo de ameaças, enquanto leitor e assíduo frequentador de bibliotecas. Trata-se de um sentimento que se revelaria como efeito do comportamento de biblioclastas, bibliófobos e bibliófagos que deambulam pelo mundo.

29/08/2021  Última atualização 09H55
© Fotografia por: DR
Portanto, seria a emanação de uma experiência resultante de situações representativas de perigos e ameaças à liberdade de ler: a ineficácia das políticas públicas da leitura, a destruição de livros, a fúria dos que cultivam a antipatia contra os bibliófilos e os insectos predadores e roedores de livros. Já existem remédios para combater os insectos bibliófagos e xilófagos que atacam o papel, os livros e a madeira das estantes de bibliotecas. São os insecticidas e outros repelentes.


As pragas que podem ser causadas por esses insectos constituem o padrão da ameaça susceptível de pôr à prova a liberdade de ler, a lucidez e a prosperidade económica de um bibliómano.


Mas existem ameaças cujos agentes requerem  outro tipo de respostas como as que resultam da ineficácia das políticas públicas para a literacia da leitura. Por enquanto, falemos apenas desta última situação, deixando os biblioclastas, bibliófobos e bibliófagos para uma outra ocasião.

Percebe-se que o tópico da presente conversa convoca a Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU, em sintonia com a Agenda 2063 da União Africana, além da Estratégia Operacional da UNESCO para a África que se articula à posição oficial da organização continental.


Literacia da leitura


O título que proponho sugere que a nossa atenção deve concentrar-se nos perigos que pairam sobre certas liberdades cujo centro gravitacional é ocupado por livros, suportes multimedia e práticas da leitura. A liberdade de ler textos orais e escritos não parece ter propriamente consagração expressa em alguma constituição do mundo.


No entanto, já a UNESCO considera que a "literacia é um direito humano fundamental e a base para a aprendizagem ao longo da vida”. Quer dizer que o direito de ler e, por conseguinte, o exercício efectivo da leitura multimodal é, simultaneamente um direito e uma liberdade. Deriva do direito à educação, da liberdade de imprensa, liberdade de criação literária e da liberdade de expressão.


O que se entende então por literacia da leitura?
É uma expressão em voga, usada por especialistas e organizações internacionais para designar a capacidade que um determinado indivíduo ou comunidades têm de mobilizar especialmente as suas competências linguísticas que consistem em ler, interpretar e compreender textos nas suas diferentes manifestações, transformando a informação obtida em conhecimento para acção e participação na vida social, cultural, política e económica.

Em meu entender, a prossecução da literacia da leitura, enquanto política pública, não pode ignorar o valor da literatura, isto é, o texto literário, quer oral quer escrito. Por outras palavras, o ensino da literatura constitui uma poderosa ferramenta para a obtenção de resultados concretos neste capítulo, tendo em conta as inerentes potencialidades que activam a imaginação e a esfera cognitiva dos membros de uma comunidade.


As baixas taxas de literacia da leitura em África, por exemplo, são indicadores do comportamento dos Estados e revelam a natureza deficitária das suas políticas públicas culturais e educativas. Neste sentido, pode dizer-se que ameaçam o direito à leitura, a liberdade de ler e o exercício efectivo da leitura enquanto competência.


A métrica internacional de competências da leitura conta com instrumentos cuja importância é avaliada pela UNESCO. É o caso do PISA (Programme for International Student Assessment) [Programa da OCDE para Avaliação Internacional de Alunos] e do PIRLS (Progress in International Reading Literacy Study) [Progresso no Estudo Internacional da Literacia da Leitura] da Associação Internacional para Avaliação do Desempenho Educacional que, de resto, têm vindo a fornecer informações para o acompanhamento dos países em matéria de  avaliação e monitoria do 4º Objectivo do Desenvolvimento Sustentável. A este propósito, sob a epígrafe "educação de qualidade”, os documentos oficiais de Angola enunciam o compromisso nos seguints termos: "Até 2030, garantir que todos os jovens e uma substancial proporção dos adultos, homens e mulheres, estejam alfabetizados e tenham adquirido o conhecimento básico de matemática”.

Nos documentos em que é veiculado, o PIRLS tem o seu fundamento no sentido amplo do que significa a competência de ler. Inclui o prazer da leitura que permite conhecer mundos diferentes, culturas e novas ideias e engloba a reflexão sobre textos escritos e outras fontes de informação como ferramentas para atingir objectivos individuais e sociais, o "ler para fazer”.


De um modo geral, a situação é dramática em todo o mundo. No seu último relatório sobre a Educação no Mundo, a UNESCO refere que os resultados da aprendizagem nos chamados países ricos não progrediram. A proporção de jovens de 15 anos sem habilidades básicas de leitura aumentou nos países da OCDE, passando de 19% em 2003 a 22% em 2018.


Leitura e competências

A partir de outros indicadores do referido relatório a respeito de Angola, chega-se à semelhante conclusão. Em 2015-2016, 19% dos jovens angolanos de 24 anos, ainda frequentavam o ensino secundário. Para a UNESCO, tal situação é herdada do sub-sistema do ensino primário, já que quatro em cada dez alunos de 15 anos frequentavam a escola primária.


Por aí se pode medir os níveis de proficiência, no que diz respeito às competências de leitura dos alunos e estudantes angolanos. Em jeito de ilustração, não posso deixar de mencionar as fracas competências linguísticas, de compreensão e interpretação de uma parte importante de estudantes que chegam ao ensino superior em Angola.



Tal constatação decorre da percepção que a actividade docente propicia e vem sustentar a ideia segundo a qual não é possível equacionar os problemas deste sub-sistema sem o conhecimento perfeito do que se passa nos sub-sistemas precedentes.


O Programa da OCDE para Avaliação Internacional de Alunos após sucessivas definições opera hoje com um conceito que comporta competências linguísticas, cognitivas e metacognitivas (pensar sobre o conhecimento respeitante à língua), abrangendo a  capacidade de identificar a categoria das palavras, outros domínios da gramática, estruturas linguísticas e textuais que sustentam a compreensão dos significados, através dos quais se chega ao  conhecimento sobre o mundo.


Trata-se de um conceito que tem em conta os desafios da leitura no século XXI, sendo a literacia digital uma das suas mais altas expressões. Mas a existência de assimetrias a nível global, a que se vêm denominando fractura digital, reserva um lugar marginal ao continente africano.

O número de computadores e seus utilizadores, bem como o acesso à Internet em casa cresce de forma desigual. As estatísticas evidenciam o problema.  Apesar disso, registam-se em África casos de sucesso, quando se trata de abordar a massificação das tecnologias de informação e dispositivos digitais portáteis.

Perspectiva comparada

Com o PISA os países da OCDE procedem à avaliação dos alunos numa perspectiva comparada. A sua importância reside no facto de fornecer informação que permite determinar as possibilidades de sucesso dos alunos em diferentes momentos.


Torna possível prognosticar a carreira profissional de um aluno, enquanto detentor de competências que garantem a sua inserção no mercado do trabalho. É por isso que a UNESCO, agência especializada da Organização das Nações Unidas, faz a advocacia do direito à leitura como um direito humano. Possuir competências de leitura significa ter a acesso aos mecanismos de participação na vida de qualquer país do mundo.

Portanto, com a avaliação dos resultados do cumprimento da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável da ONU e por força da reflexão prospectiva da Agenda 2063 da União Africana, bem como de experiências e informação produzidas por instrumentos e relatórios especializados, tais como o PISA e o PIRLS,  espera-se que o nosso País possa elevar os seus indicadores e melhorar o seu desempenho neste domínio do desenvolvimento humano, afastando o espectro das ameaças com que hoje se confronta a literacia da leitura.

.                        * Ensaísta e professor universitário               

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