Especial

Alto Sundi à espera de dias melhores

Alberto Coelho | Cabinda

Jornalista

Administradora Suzana Abreu reclama da falta de água e de melhores serviços de saúde. Diz haver infra-estruturas, mas existem problemas graves com os recursos humanos

14/03/2022  Última atualização 07H10
© Fotografia por: José Soares | Edições Novembro

A esperança de uma vida melhor de cerca de três mil pessoas depositada com a implementação do Programa de Desenvolvimento do Alto Sundi (PRODAS) "esfumou-se” quando o projecto foi abandonado em 2014.

O programa, de iniciativa presidencial, avaliado em 40 milhões de dólares, foi concebido em 2011, para a construção de infra-estruturas de impacto social visando a melhoria do nível de vida e conferir alguma dignidade aos habitantes das 28 aldeias que compõe aquela região do Alto Maiombe.

Foram, assim, construídas em várias aldeias cinco escolas primárias, uma do primeiro ciclo (com 20 salas de aulas e residências para professores), seis postos de saúde, um centro médico, seis casas para enfermeiros,  mercados rurais, jangos comunitários, sistemas de água potável, quatro postos policiais e uma residência para o regedor do Kikumba Congo.

Os projectos, que a princípio fizeram renascer nos habitantes um futuro promissor, hoje estão longe de corresponder à expectativa.
A situação social da população agravou-se por falta dos principais serviços básicos. O facto deve-se, fundamentalmente, à falta de uma estrada em condições que permita a circulação de pessoas e bens.

O Governo investiu cerca de 24 milhões de dólares nas obras de reabertura da estrada Caioguembo-Bulo, numa extensão de 84 quilómetros, na terraplanagem e na compactação. Apenas sete quilómetros de estrada foram asfaltadas. Com o passar do tempo, e devido às chuvas que caem constantemente na região, a estrada deteriorou-se e tornou-se quase intransitável. Totalmente esburacada, constitui uma dor de cabeça para os automobilistas. Duas vezes por semana arriscam os meios para apoiar a população no transporte dos produtos do campo para os mercados. A população queixa-se do alto custo do frete de transporte. Para a deslocação do Alto Sundi para a cidade de Cabinda e vice-versa, desembolsam dez mil kwanzas. A carga tem um preço à parte, dependendo do volume.

A administradora municipal do Belize salientou a importância da reabilitação da estrada no desenvolvimento da localidade e na vida da população, o que facilitaria a instalação de vários serviços sociais junto das comunidades.

Em declarações ao Jornal de Angola, Suzana Abreu disse que o maior problema da população, neste momento, é o estado péssimo da via, que se tornou num dos factores de estrangulamento do desenvolvimento da região.

"Temos cerca de 90 quilómetros de estrada com problemas graves, com pontes e pontecos destruídos. Quando este problema for resolvido, o resto virá por arrasto, como a luz, água e outros serviços indispensáveis ao bem estar da população.” Para a administradora do Belize, existem evidências sobre a reabilitação, para breve, dos 84 quilómetros entre as aldeias de Caioguembo e Bulo. "Continuamos a apelar a quem de direito para olhar e apoiar esta população que muito precisa.”

A construção da estrada, referiu, tornaria Alto Sundi num bom lugar para viver, já que a região é potencialmente rica em termos de agricultura, turismo, pesquisa, medicina natural e oferece informações importantes que podem ajudar a ciência.

A administradora Suzana Abreu reconheceu que o Alto Sundi enfrenta inúmeras dificuldades, sublinhando que "a região encontra-se abandonada”, o que atrasa o desenvolvimento e belisca a dignidade das pessoas que aí vivem.

"Há problemas de falta de água e de melhores serviços de saúde. As infra-estruturas  existem, mas temos problemas graves com os recursos humanos, (enfermeiros e professores).”

Adiantou que, no sector da Educação, espera-se reforçar o quadro de pessoal com o enquadramento de novos professores no âmbito de um recrutamento público. "Precisamos de mais de cem professores e temos apenas disponíveis 22 vagas. É um problema que o Ministério da Educação deve resolver.”

Em relação à Saúde, disse que os postos médicos não oferecem serviços adequados para um diagnóstico completo e um tratamento melhor dos pacientes, o que obriga as pessoas a deslocarem-se aos centros urbanos à procura de melhores serviços.

A ausência de serviços bancários no município obriga, os técnicos (professores e enfermeiros) a se deslocarem para os municípios de Buco-Zau e Cabinda para o levantamento dos salários.

"Enquanto não se resolve a questão da estrada para que os outros serviços venham por arrasto, vamos continuar com essas dificuldades, infelizmente.”

A falta de luz e água potável é outro quebra-cabeça. A central térmica instalada em Kikumba Congo, que devia fornecer energia eléctrica a cinco aldeias, funciona a meio gás por falta de combustível.

A Administração Municipal não dispõe de verbas suficientes para abastecer constantemente o sistema. Suzana Abreu apelou à contribuição da população para que o gerador de 500 kv's possa funcionar. Adiantou que a construção de uma subestação eléctrica no Belize para receber luz a partir da central térmica de Malembo vai solucionar em definitivo o problema energético a nível do município.  

Em relação à água, a fonte assegurou que Alto Sundi tem recursos hídricos suficientes para a instalação de pequenos sistemas de captação por gravidade, para atender as necessidades das populações localizadas no perímetro Vako/Kikumba Congo. "Mas faltam recursos financeiros para que isso se possa efectivar”, lamentou.

População promete não desistir

A guerra que atingiu a região do Alto Sundi obrigou a população a fugir para os países vizinhos, como a República Democrática do Congo e o Congo Brazzaville. Com a conquista da paz, as pessoas regressaram, mesmo conscientes das dificuldades que encontrariam.

A falta de estrada, água potável, luz, insuficiência de professores e de pessoal médico e medicamentos são as principais preocupações que afligem os habitantes da região.

Tomás Manuel e Glória Conde são dois jovens professores que leccionam na escola primária 265, na aldeia de Conde Cavunga, com mais de 300 alunos. A aldeia tem muitas dificuldades e ausência de outras condições indispensáveis para o processo de ensino e aprendizagem.  Descreveram as peripécias com que passam para ensinar crianças de 5 a 12 anos que percorrem, de uma aldeia a outra, mais de dez quilómetros à pé em busca do saber. "Trabalhar aqui tem sido muito difícil. É preciso paciência e amor ao trabalho”.

Queixam-se da falta de professores, o que os obriga a ensinar em dois períodos (manhã e tarde) e a leccionar, diariamente,  mais de uma classe. "Isto também cansa. Se o professor não for dinâmico, a criança volta para casa sem entender nada”, referiram.

"A nossa determinação é não desistir de ensinar as crianças, o futuro da nação, já que o professor é um combatentes da linha da frente”, garantiram. Apesar de estarem construídas quatro escolas no âmbito do PRODAS, a região carece ainda de mais 11 salas para colmatar as dificuldades das  crianças que percorrem longas distâncias, muitas das quais acabam por desistir, conforme relatou  o secretário municipal de Belize da Educação.

De acordo com Victor Mbambi, as  principais dificuldades no corredor do Alto Sundi é a não conclusão da obras de construção das escolas e residências dos professores nas aldeias de Kifuma, Kimbedi e kuigumbungo.

"Há falta de professores. Neste corredor encontramos um professor a leccionar três classes ou três salas e isto demonstra que há insuficiência. A nível municipal temos um défice de 150 professores”, reconheceu Victor Mbambi.

Para o presente ano lectivo, foram matriculados no Alto Sundi 1.683 alunos, dos quais 1.493 no ensino primário e 190 no primeiro ciclo do ensino secundário. "Neste corredor temos 28 professores, no mínimo devíamos ter 44 docentes para colmatar a situação”, disse Victor Mbambi. No sector da saúde, o secretário municipal João Pedro Butoto considerou razoável a assistência médica, apesar do grande número de pacientes. 

No Alto Sundi estão escalados 23 enfermeiros que trabalham no centro médico de Kikumba Congo e em cinco postos de saúde instalados em algumas aldeias. A malária, a hipertensão arterial, as doenças respiratórias agudas, abcessos, chicungunha e a dengue são as doenças predominantes na área, bem como a bilharziose (esquistossomose) devido ao consumo da água dos rios.

A ausência constante de técnicos (professores e enfermeiros) foi apontada como um dos problemas dos sectores da saúde e da educação na zona, embora em cada posto estejam escalados dois enfermeiros e 12 técnicos no centro médico de Kikumba Congo. Os técnicos reclamam de subsídios de isolamento.

A justificação na voz dos responsáveis do município converge no sentido de que  para receberem os ordenados são obrigados a se deslocarem  para a sede municipal de Buco-Zau ou para a  cidade de Cabinda. "Enquanto estiverem lá,  os alunos ficam sem aulas e os postos médicos sem enfermeiros.”


"Santuário” da luta armada

A região do Alto Sundi fica situada no ponto mais ao Norte de Angola, na comuna de Miconje, município de Belize, província de Cabinda, constituindo-se numa importante zona estratégica para o país. Estende-se numa faixa de 80 quilómetros quadrados e faz fronteiras com a República do Congo e a RDC. 

A população pertence a tribo Bussundi e expressa-se em kissundi (língua local). É a zona mais povoada da comuna de Miconje, com 28 aldeias dispersas, e uma população estimada em mais de três mil habitantes. É constituída pelas regedorias de Caioguembo, Kikumba Congo e Bulo com um total de nove sobados e 103 autoridades tradicionais.

Alto Sundi orgulha-se de ser o "santuário” da Segunda Região Político- Militar do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola).

"O nacionalismo angolano muito cedo se despontou na consciência deste povo”, referem os habitantes. Poucos dias depois dos acontecimentos do 4 de Fevereiro e 15 de Março de 1961, um grupo de jovens destemidos da área, armado com espingardas de fabrico artesanal (canhangulos), emboscou e atacou uma coluna de tropas portuguesas na zona de Mibunzi, arredores da serra do Muábi, sentido sul-norte de Cabinda.

Em 1963, o MPLA, sob a liderança de Agostinho Neto, desencadeou uma guerra sem quartel contra os ocupantes portugueses. No Alto Sundi, precisamente na aldeia de Binheco, criou o primeiro Centro de Instrução Revolucionário (CIR) para a formação de quadros. Depois, criou as bases Gorila, Leão e Paví. Desde aí, a região passou a ser o "santuário” da Luta Armada de Libertação Nacional com passagem de importantes quadros como o actual Presidente da República, João Lourenço, Bolingó, Max Merengue, Pedalé, Ndozi, dentre outros.

Todo o território do Alto Sundi é banhado pela rede hidrográfica do Chiloango. Não se anda meia hora a pé, sem encontrar um curso de água de um rio ou riacho como o Loango, Lombe, Mioca, Mafubu, Ncazi, Nimigó e Kitila, dentre muitos. Para ter uma ideia do potencial hídrico da zona, em toda a área estão construídos cerca de 35 a 40 pontes e pontecos. A  terra é propícia para a agricultura.

A população vive também da pesca e da caça. Por ser uma zona fronteiriça, as cantinas começam surgir aos poucos. A densa Floresta do Maiombe, com várias espécies de árvores de valor comercial nos mercados nacional e internacional, cobre toda a área do Alto-Sundi, que possui também como recursos minerais, ainda não explorados, o ouro, inertes e manganês.

As belezas naturais, a vegetação verde, as cadeias de montanhas, savanas e planícies, bem como o ar fresco, proporcionam aos habitantes e visitantes, uma boa disposição. Trata-se de um bom lugar  para  viver e para desenvolver o ecoturismo.

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