Mundo

Aliança Atlântica desafia autoridades de Moscovo

O secretário-geral da OTAN, Jens Stoltenberg, garantiu, quinta-feira (13), que a Aliança Atlântica vai manter os “princípios básicos” como a capacidade de admitir novos membros e que continua aberto ao diálogo sobre segurança com a Rússia.

14/01/2022  Última atualização 06H15
Stoltenberg diz que a OTAN está disposta a manter o diálogo sobre a segurança com a Rússia tendo em atenção os princípios básicos © Fotografia por: DR
"Estamos dispostos a envolver-nos no diálogo, mas não a comprometer os nossos princípios básicos, como a política de portas abertas”, afirmou Stoltenberg numa conferência de imprensa conjunta com o Presidente da Estónia, Alar Caris, após uma reunião na sede da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), em Bruxelas.

Stoltenberg referiu-se à primeira reunião em mais de dois anos do Conselho da OTAN/Rússia, principal fórum de diálogo entre as duas partes, realizada quarta-feira e em que se discutiu o reforço militar que Moscovo está a desenvolver no seu território junto à fronteira com a Ucrânia e respectivas implicações para a segurança na Europa.

Nessa reunião, a Aliança Atlântica deixou claro que qualquer nova agressão contra a Ucrânia "terá um alto preço para a Rússia”.
Moscovo quer garantias de que a Aliança Atlântica não adicionará novos membros perto das suas fronteiras, tanto da Europa como da Ásia Central.

Sobre uma possível adesão da Suécia e da Finlândia, Stoltenberg reconheceu que são "parceiros muito próximos” e que já trabalham com a Aliança Atlântica, através de exercícios e manobras militares conjuntas, e que já cumprem as normas da OTAN na maioria das áreas”.

"Pode ser muito rápido se eles decidirem solicitar a adesão, mas, no final, é uma decisão política”, referiu, acrescentando ser bastante óbvio que, se já se está tão perto e se houver vontade política, "o processo pode concretizar-se muito rapidamente”.

Com a Rússia, Stoltenberg admitiu que as duas partes estão distantes em muitas posições”, mas valorizou o facto de se poderem sentar e conversar, disse o político norueguês, que propôs uma série de novos encontros com propostas concretas com a Rússia sobre os quais Moscovo ainda não comentou.

Os aliados têm interesse em aumentar a transparência dos exercícios militares, evitar incidentes militares perigosos e reduzir as ameaças espaciais e cibernéticas e propôs também medidas para o controlo de armas, desarmamento e não proliferação de armas nucleares, bem como a limitação recíproca de mísseis e políticas nucleares.

Outro ponto de interesse da Aliança, acrescentou, é melhorar os canais de comunicação civil e militar, bem como restabelecer os respectivos escritórios diplomáticos em Bruxelas e Moscovo, suspensos na sequência da denúncia da Aliança Atlântica de que os membros da missão russa eram espiões.

"A OTAN está sempre pronta para responder a qualquer deterioração no nosso ambiente de segurança, inclusive para fortalecer a nossa defesa colectiva”, concluiu Stoltenberg.
 
Risco de guerra

A Europa está mais perto da guerra do que esteve nos últimos 30 anos. Este é o alerta do ministro dos Negócios Estrangeiros da Polónia, durante a terceira ronda de diplomacia, esta semana, com o objectivo de acalmar as tensões da Rússia sobre a Ucrânia.

Dirigindo-se aos enviados dos 57 membros da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), Zbigniew Rau não mencionou a Rússia directamente, mas listou uma série de conflitos nos quais o envolvimento de Moscovo foi uma realidade.
"Parece que o risco de guerra na área da OSCE é agora maior do que nunca nos últimos 30 anos”, disse Rau no discurso enquanto descrevia as prioridades do seu país, que ocupa a presidência rotativa da OSCE este ano. "Durante várias semanas, enfrentámos a perspectiva de uma grande escalada militar na Europa Oriental”, salientou ainda.

Já sobre o futuro do conflito apontou: "Devemos concentrar-nos numa resolução pacífica do conflito dentro e em volta da Ucrânia”. No que diz respeito à soberania do território ucraniano, optou por fazer um pedido de pleno respeito à soberania, integridade territorial e unidade da Ucrânia dentro das suas fronteiras internacionalmente reconhecidas.

Recorde-se que a Rússia mobilizou mais de 100 mil soldados para perto das suas fronteiras com a Ucrânia, que está, neste momento, a lutar contra separatistas apoiados por Moscovo.
 
Alerta do Kremlin

A adopção de sanções pelos Estados Unidos contra o Presidente russo, Vladimir Putin, em caso de agressão russa à Ucrânia ultrapassaria os limites, alertou o Kremlin, após a apresentação, ontem,  de um projecto nesse sentido.

"As sanções contra um Chefe de Estado são uma medida que ultrapassaria os limites, seria equivalente a uma ruptura das relações”, declarou o porta-voz da Presidência russa, Dmitri Peskov.
O porta-voz russo disse que a proposta dos senadores democratas norte-americanos não facilita o estabelecimento de uma atmosfera construtiva para as conversações entre a Rússia e o Ocidente em curso, esta semana, sobre a tensão com a Ucrânia.

Os senadores democratas norte-americanos divulgaram, na quarta-feira, um novo plano de sanções para punir Vladimir Putin e fornecer assistência financeira a Kiev no caso de uma invasão da Ucrânia pela Rússia ou de um aumento das hostilidades.

O projecto intitulado "Defender a soberania da Ucrânia” prevê sanções contra o Presidente russo, o Primeiro-Ministro, Mikhail Michoustine, altos funcionários militares e várias entidades do sector bancário russo.

A proposta já conta com o apoio de 25 senadores democratas, incluindo o líder da bancada, Chuck Schumer, bem como da Casa Branca.

O anúncio desse plano de sanções "extremamente negativo”, segundo o Kremlin, ocorreu na véspera de uma reunião do Conselho Permanente da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa (OSCE), em Viena, mais uma de uma série de reuniões sobre o risco de conflito na Ucrânia.

Na segunda-feira, reuniram-se em Genebra a vice-secretária de Estado norte-americana, Wendy Sherman e o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Riabkov. Na quarta-feira, a OTAN e Moscovo mantiveram conversações em Bruxelas e após o final da reunião as partes constataram as suas profundas "diferenças” sobre a segurança na Europa.

"Nós gostaríamos, no entanto, que o bom senso prevalecesse”, acrescentou Peskov, enfatizando que a Rússia "nunca deixou de ter” e "não deixará de ter vontade política para continuar o diálogo”.

Acusada pelos norte-americanos e europeus de planear um ataque à vizinha Ucrânia, aliado do Ocidente, a Rússia respondeu que o envio de dezenas de milhares de tropas russas para a fronteira foi uma reacção à presença crescente e hostil da OTAN, numa zona que Moscovo considera ser a da sua área de influência.

A Rússia garantiu que não "pretende” atacar a Ucrânia, mas está a exigir a assinatura de um tratado que proíba qualquer expansão futura da Aliança na zona, um pedido considerado inaceitável pelo Ocidente.
 
Debates  acaloradas

Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia discutiram, ontem, em Brest, França, em debates acaloradas sobre a tensão na fronteira Leste, numa reunião informal onde , também, reflectido, com os ministros da Defesa, sobre o reforço da autonomia estratégica do bloco neste domínio.

Em Brest, nas primeiras reuniões ministeriais informais sob a presidência francesa do Conselho da UE, que começou a 1 de Janeiro, o Alto Representante da União para a Política Externa e de Segurança, Josep Borrell, que já presidiu, na quarta-feira à noite, a um jantar de trabalho dos ministros da Defesa, dirige, também, entre ontem e hoje, uma reunião dos chefes da diplomacia.
Depois de uma reunião conjunta dos 27 ministros da Defesa e dos 27 ministros dos Negócios Estrangeiros, a configuração do Conselho conhecida como 'Jumbo', que teve lugar num almoço de trabalho, os chefes da diplomacia concentraram-se, durante toda a sessão da tarde de ontem, nas tensões a Leste, designadamente na Bielorrússia, mas, sobretudo, na fronteira da Ucrânia com a Rússia, face à ameaça de uma agressão militar por Moscovo.

Antes, os 27, no Conselho 'Jumbo', prosseguiram a discussão em torno da 'Bússola Estratégica', o documento orientador da nova política de Defesa da UE, que deverá ser adoptado pelos chefes de Estado e de Governo da União em Março próximo, e que visa estabelecer as novas directrizes de política de Defesa da União, com vista ao reforço da autonomia estratégica do bloco europeu.

A reunião dos ministros da defesa da UE surge numa semana de trabalho para resolver a questão ucraniana que começou com as conversações entre os Estados Unidos e a Rússia em Genebra, na segunda-feira.

Esta maratona de acontecimentos diplomáticos, todos eles sem sucesso, marca um dos momentos mais difíceis nas relações. O frente- a- frente entre a OTAN e a Rússia, pela primeira vez em dois anos, confirmou a distância entre ambas as partes.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Mundo