Entrevista

Alberto Oliveira Pinto: “A Luta de Libertação foi um dos caminhos para a formação da identidade angolana”

Gaspar Micolo

Um dos prelectores da primeira Conferência Internacional da História de Angola, promovida pelo jornal Cultura, título da Edições Novembro, EP., Alberto Oliveira Pinto vai abordar “O Imaginário Cultural e as Retóricas Coloniais”, no quadro da “A Nação e o Nacionalismo, dos séculos XIX e XX”.

22/11/2022  Última atualização 07H25
© Fotografia por: DR

Nesta entrevista, o historiador e escritor premiado aborda os elementos que consolidam a unidade nacional, as suas investigações, a infância em Luanda e a paixão pelo seu ofício. "Alfredo Troni teve a noção de que ser angolano já era ter uma identidade diferente da de ser português e que Angola era um outro país e mesmo um outro povo ou nação”, diz, referindo-se ao autor de Nga Muturi.

Nasceu em Luanda a 8 de Janeiro de 1962, quando a Luta de Libertação Nacional já tinha começado. Já na idade adulta, quando é que começou a perceber as transformações políticas resultantes deste facto?

Apercebi-me dessas transformações políticas bem antes da idade adulta. Até ao 25 de Abril de 1974, ou seja, até aos meus 12 anos de idade, só ouvia falar de "terroristas” que combatiam os portugueses e que queriam tirar Angola a Portugal. Era essa a única resposta que me davam quando eu perguntava o que eram "terroristas”, além da frase proverbial que mais tarde apareceria na canção do Waldemar Bastos de que "os meninos não falam de política”. Mas alguns meninos da minha idade já tinham a noção, ainda que um pouco fantasiosa, de que a Independência de Angola para nós, angolanos, era o mesmo que em 1143 a Independência de Portugal em relação a Castela, conquistada por D. Afonso Henriques, como vinha nos livros escolares. Entre 25 de Abril de 1974 e 11 de Novembro de 1975, evidentemente que já estava plenamente inteirado do que era aquela a que os portugueses chamavam Guerra Colonial e os angolanos Luta de Libertação Nacional e senti-me plenamente angolano entre os meus 12 e 13 anos, com a idade de Gavroche de Os Miseráveis de Victor Hugo, personagem tão cara aos intelectuais angolanos de Voz de Angola Clamando no Deserto, de 1901.

Conta no seu livro "A criança branca de Fanon" que Cónego Manuel das Neves, que já era então apelidado "mulato revolucionário", celebrou o casamento dos seus pais em Luanda.  Hoje, já temos a verdadeira dimensão do papel deste sacerdote católico na Luta de Libertação Nacional?

Creio que sim, que os historiadores, sobretudo Edmundo Rocha, Carlos Pacheco e Jean-Michel Mabeko Tali, já mostraram bem qual o papel incontornável do Cónego Manuel das Neves, quer no 4 de Fevereiro de 1961, quer na Luta pela Independência de Angola, aliás até bem antes dela, ou seja, bem antes de 1961. Já na década de 1950, o Cónego Manuel da Neves era um nacionalista angolano bem assumido e perseguido. O problema que perdura é, a meu ver, um problema ingrato, porque diz respeito à questão sobre se ele era simpatizante ou militante deste ou daquele partido político. Por outras palavras, se ele era simpatizante da UPA o que é o mais provável ou se era simpatizante do MPLA, que tinha apenas um ano de existência. Embora isto tenha a sua relevância do ponto de vista histórico, não invalida em nada, em meu entender, o seu sentimento patriótico nem o seu valor como nacionalista angolano.

Na sua websérie, publicou recentemente um vídeo sobre Alfredo Troni. E podemos começar por ele para abordar o papel da imprensa, ou neste caso da literatura, na formação da identidade nacional. Em que medida foi importante o trabalho deste escritor?

Julgo que o disse, quer nesse episódio de Lembra-te, Angola, quer o no meu livro História de Angola. À semelhança de outros intelectuais do tempo, nem todos naturais de Angola, Alfredo Troni teve a noção de que ser angolano já era ter uma identidade diferente da de ser português e que Angola era um outro país e mesmo um outro povo ou nação. Não só o mostra no romance Nga Muturi, mas também em muito do que escreveu no Jornal de Loanda, que lhe custou a carreira de magistrado, pois quiseram transferi-lo para Moçambique e ele recusou, ficando em Angola como simples advogado.

Na obra Nga Muturi, por exemplo, encontramos Nga Ndreza a combinar elementos da cultura nativa com a cultura europeia. Essa combinação ajuda a forjar o angolense?

Essa combinação, a meu ver, faz parte do que poderíamos chamar uma "cultura angolense”. Mas não esgota a cultura angolense nem angolana, pois esta é muito mais vasta e heterogénea.

Que elementos de unidade nacional, úteis aos proto-nacionalistas e nacionalistas, podem ser encontrados ainda na resistência dos reinos independentes?

Foi difícil aos proto-nacionalistas ou nativistas do século XIX identificarem-se com a resistência dos reinos independentes, dos quais os mais mediáticos em Luanda naquele tempo eram os Dembos. O único autor nativista que se atreveu a escrever que os Dembos eram seus irmãos foi José de Fontes Pereira já no final de 1880, quase 1890. E ainda houve o panfleto anónimo Voz de Angola de 1874 que também o fez. O panfleto é assinado por um tal Dom Ferrabraz Rei de Alexandria, mas tudo parece levar a crer que o autor é mesmo José de Fontes Pereira.

Sabe-se que alguns dos chamados "filhos do país" defendiam na imprensa apenas os privilégios que tinham perdido com a entrada de europeus na "máquina" colonial. A partir de que momento é que estas vozes se mostram verdadeiramente incómodas com as pretensões coloniais?

A meu ver, é precisamente com o panfleto de 1874. Pelo menos está lá bem explícito. O que não quer dizer que não tenha havido artigos anteriores na imprensa de Angola mesmo quando ela foi apenas o Boletim Oficial, entre 1845 e 1866 que já criticassem as políticas coloniais.

Qual foi o impacto do Movimento "Vamos descobrir Angola!” na criação de condições para a afirmação da identidade nacional?

O Movimento "Vamos descobrir Angola!”, de 1948, disseminado pelas revistas Mensagem, quer a de Luanda, da ANANGOLA, quer a de Lisboa, da Casa dos Estudantes do Império, já preconiza um movimento nacionalista e independentista angolano, porventura mesmo o primeiro.

Já num período mais avançado, Carlos Serrano aprofunda as raízes da formação da identidade nacional, defendendo que a Luta de Libertação Nacional, ao acolher indivíduos de diversas comunidades existentes no interior das fronteiras nacionais, forja uma unidade real baseada na luta contra o colonialismo...

Sim, esse foi um dos caminhos para a formação da identidade nacional angolana. Mas essa formação não cessou, nem há de cessar nunca. A identidade nacional está permanentemente em construção em qualquer país, seja ele qual for. A construção permanente e dinâmica de uma identidade nacional não é apanágio dos países que derivaram do facto colonial, como Angola. É um fenómeno universal.


"Na websérie tenho "colmatado” muitas lacunas do meu livro”

Serve-se (como poucos) da literatura para construir a nossa memória comum. Foi a Literatura que o levou para a História ou o contrário?

Como já o disse várias vezes, a História foi sempre uma inquietação para mim, desde criança. Muito mais do que uma paixão. Eu era um bom aluno de História, mas não me sentia vocacionado para ser historiador. Sentia-me vocacionado para ser ficcionista e durante anos escrevi romances, embora em alguns deles aparecessem os chamados "temas históricos”. Mas só me convenci de que precisava de ser mesmo investigador e historiador, no sentido científico do termo, depois do meu regresso a Angola, em 1996, quando me senti plenamente integrado com o país onde nasci e vivera parte da infância, pois tinha memória dele nessa mesma infância, mas ao mesmo tempo não conhecia nada dele. O meu ingresso na História resultou, portanto, acima de tudo, mais de uma atracção pelos silêncios do que pelas evidências. Mas não sei se foi a Literatura que me levou à História ou o inverso. Ambas são muito diferentes, mas ao mesmo tempo muito relacionadas, porque ambas derivam de inquietações.

Falemos agora da sua síntese da História de Angola. O que lhe motivou a dedicar-se a um trabalho tão abrangente?

Vem tudo na sequência do que acabei de dizer. Depois de 1996, comecei a estudar a História de Angola em todos os documentos escritos e orais que encontrava e passei por graus académicos na Universidade de Lisboa até ao Doutoramento, concluído em 2010. Entretanto, escrevi muitos artigos e ensaios. Só em 2012 me atrevi a escrever um trabalho que pudesse "compendiar” a História de Angola. Levei três anos a escrevê-lo e o livro foi publicado em primeira edição em 2016. Mas é um trabalho que nunca é completo e está sempre sujeito a transformações.

Refere entretanto no prefácio que as "palavras abonatórias" e o "êxito do livro" não lhe retiram a vontade de aperfeiçoar o seu trabalho. Que lacunas ou imperfeições hoje reconhece na obra que gostaria de melhorar?

Levaria muito tempo a responder-lhe. Mas recomendo que siga a minha websérie "Lembra-te, Angola”, no Youtube, onde já tenho "colmatado” muitas lacunas ou imperfeições, e também tenho descoberto muitas coisas novas, de que vou falando aos subscritores. No entanto, isso será um trabalho para o resto da vida, como aliás deve ser o trabalho de qualquer historiador.

Qualificou-a de "primeira tentativa de um angolano, passados 40 anos sobre a Independência de Angola, narrar e explicar (...) de modo abrangente" a história do seu país...

Sim, e não fui o primeiro a dizê-lo. De facto, não conheço nenhuma outra História de Angola que pretenda ter esta abrangência escrita após a Independência de Angola. No tempo colonial, houve histórias de Angola coloniais que não são de desprezar, como a de Ralph Delgado. Mas depois da Independência, até hoje, que eu saiba, só a minha. Oxalá venham muitas outras!

Advertiu, entretanto, que "não é, de modo algum, um livro académico", mas foram os académicos que, apesar de reconhecerem que a sua obra "preenche um vazio evidente", apontaram as lacunas. Maria da Conceição Neto, por exemplo, numa recensão, garante que há episódios e personagens esquecidos. Aliás, notou a ausência de Ndunduma, Ekwikwi II e Numa no índice remissivo da segunda edição, o que terá sido revisto na terceira edição...

Não é um livro académico, mas é escrito por um académico. Eu sou um académico. E também foram académicos que me estimularam a escrevê-lo, como Ana Mafalda Leite, Tania Celestino Macêdo, Elizabeth Ceita Vera Cruz, entre tantos outros. Mas estou aberto a críticas, de académicos e não só. Sem dúvida que há sempre personagens menos evidenciadas, o que não quer dizer que sejam esquecidas. A História é, evidentemente, uma ciência muito subjectiva e é normal que uns historiadores atribuam mais importância a umas personagens e outros a outras.


"O fantasma do neocolonialismo  persiste sempre quando nos recusamos a falar do colonialismo”


No seu livro "Imaginários da História Cultural de Angola”, diz que a Rainha Njinga Mbandi "é a personagem mais polémica de toda História de Angola” e que tem sido "um dos alvos da operação de amnésia colectiva quer em Angola, quer em Portugal”...

Nesse mesmo livro, explico porque é que considero a Rainha NjingaMbandi a personagem mais polémica da História Cultural de Angola. É que ela sem ter tido a menor culpa disso, sublinhe-se, foi enselvajada pela História Colonial e empolada, mesmo transformada em heroína, pela História Nacional. Nesse sentido, é facilmente manipulável para criar amnésias colectivas ou, como se costuma dizer, para atirar poeira aos olhos das pessoas sobre as verdadeiras realidades. Tal como é facilmente manipulável pelos poderes políticos

Ainda em "Imaginários...” refere que "falar de lusofonia é inevitavelmente sinónimo de falar de neocolonialismo”. Na sua opinião, como relacionar a língua, de que já nos apropriámos, com esse passado comum sem levantar o fantasma do neocolonialismo?

O fantasma do neocolonialismo persiste sempre quando nos recusamos a falar do colonialismo. O colonialismo faz parte da nossa História e da nossa memória e mesmo da nossa cultura e devemos, por isso, falar dele a frio, sem nos envergonharmos dele, sejamos angolanos, portugueses ou de outra nacionalidade. Há uma língua comum, é verdade, mas essa língua é diversificada e não tem que ser unificada, embora tenha regras estruturais. Mas não pode ser unificada, pois também ela corresponde a diversas culturas. Quanto à chamada "lusofonia” como sinónimo de neocolonialismo, tal tem a ver com uma ideia que, bem antes de mim, o meu saudoso professor Alfredo Margarido já preconizava: a língua não pode servir de "prótese” a um suposto "Império Colonial” que se perdeu. Os povos lusófonos valem pelas suas diferenças e não pelo que têm em comum. Se pensarmos o contrário, o conceito de lusofonia não vai longe e só nos leva ao encontro de imposturas, das quais a CPLP, infelizmente, tem sido exemplo nas últimas décadas.

Autobiografia e a infância em Luanda

Já tentou no seu primeiro romance "Eu à sombra da Figueira da Índia” revisitar as suas memórias...

"Eu à sombra da Figueira da Índia” é uma ficção elaborada a partir de memórias. É uma ficção autobiográfica. "A criança branca de Fanon” é um ensaio ego-histórico, ou seja, um ensaio onde o historiador se analisa como produto da História que ele próprio investigou. No primeiro, que escrevi muito jovem, só falo de factos biográficos que sirvam a estética da ficção. No segundo, escrito já numa idade madura e após o meu Doutoramento, só falo de factos biográficos quando estão em função de factos históricos. Não considero nenhum destes dois livros uma autobiografia, pois para tal teria que escrever muitíssimo mais, uma vez que a minha memória é muitíssimo mais ampla.

A sua infância no Beco do Balão, por exemplo, é trazida pelas memórias das poucas famílias mulatas que aí moravam. Isso é resultado do que lhe contaram num contexto de segregação racial ou é realmente do que se lembra?

É realmente do que me lembro, garanto-lhe. Aliás, ainda estão vivas algumas pessoas dessas famílias, pessoas de idades próximas da minha, que podem testemunhá-lo. Lembro-me de muito mais coisas do tempo em que vivi no Beco do Balão. Mas, em "A Criança Branca de Fanon”, achei que devia evidenciar os aspectos sociológicos ou, se preferirmos, sócio-raciais daquele tempo.

Quando ingressa num colégio em Lisboa, apanha um choque com a visão generalizada entre os portugueses metropolitanos sobre as suas próprias colónias e que atribui à desinformação. Como avalia hoje essa "desinformação” quer sobre a Escravatura e o Tráfico de Escravos quer sobre o próprio colonialismo?

Essa "desinformação” hoje não mudou muito, infelizmente. Como resultado dela, associada a um silenciamento deliberado dessas realidades, estamos a viver um tempo de extremismos, e não só de extremismos fascistas e racistas. Refiro-me a Portugal, mas também a Angola e muito particularmente ao Brasil. Estamos a assistir à criação de novos "politicamente correctos”, tal como o eufemismo "escravizado” para não dizer "escravo”, por exemplo, ou a proibição aos jovens de pronunciar a palavra "preto” ou "preta”, que não levam a nada e só contribuem para cavar ainda mais o fosso da ignorância, e ainda por cima da ignorância arrogante.

Como?

Veja: uma irmã minha é professora do ensino secundário em Lisboa. Tentou trabalhar com os alunos um poema clássico de António Gedeão, "Lágrima da Preta”, que é um poema anti-racista e manifestamente anticolonialista, dos anos de 1960, e em solidariedade com os povos angolano e moçambicano então em luta pelas suas independências. Pois os alunos não quiseram estudar o poema porque o consideraram racista só porque nele aparecia a palavra "preta”. Acho isto lamentável porque muito estreitinho, muito limitado. Mas, enfim, como o escreveu Bertold Brest, "do rio que tudo arrasta se diz que é violento, mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem”. Tivemos muitos anos de silenciamento, ou seja, as margens do rio foram demasiado comprimidas, e agora o rio, ao romper-se, causa estragos. Era inevitável. Mas hão-de vir melhores dias, estou certo, em que o conhecimento, que a meu ver é o que verdadeiramente importa, será salvaguardado.

Perfil

Mestre e doutor em História de África pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, com vários ensaios publicados, Alberto Oliveira Pinto lançou a sua "História de Angola da Pré-História ao Início do Século XXI", para responder às solicitações antigas que lhe chegavam sobre uma História de Angola e "susceptível de consulta e de leitura por outros académicos”, mas que se "destina a qualquer leitor".

Nascido a 8 de Janeiro de 1962, em Luanda, onde viveu a sua primeira infância, acabou depois por se fixar em Lisboa. Só voltaria a ver a cidade das memórias da avó em 1996.  Licenciou-se em Direito em 1986. Membro da Associação Portuguesa de Escritores e da União dos Escritores Angolanos, já recebeu vários prémios. Anima assim desde Janeiro de 2021 uma websérie sobre a História do seu país, intitulada "Lembra-te, Angola".

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