Opinião

Alastramento da pandemia

Luciano Rocha

Jornalista

O alastramento da pandemia, entre nós, tem causas e efeitos, parte deles, em ambos os casos, podem ser evitados, apesar da escassez de meios, desde que quem deve cumprir e fazer cumprir o decretado queira.

26/11/2020  Última atualização 11H15
O alastramento de casos de infecções e óbitos não existe por falta de medidas estipuladas por decreto presidencial, apenas por haver quem continue a desrespeitá-las e daqueles que, tendo a obrigação de as evitar, para isso sendo pagos, continuam a fazer vista grossa. Não fosse esta conjugação de factos e a situação da Covid-19 não era, certamente, a mesma, no que toca a número de infecções e de mortes directa ou indirectamente ligadas àquela doença e não são contabilizadas em termos de estatísticas oficiais.
Muitos óbitos registados nos últimos nove meses, em Angola, devido à infecção do novo coronavírus  podiam ter sido prevenidos, tal como os que  tiveram origem noutras doenças, mas não foram, a exemplo do que sucede, praticamente, no resto do mundo, porque relegadas para plano secundário.Infecções e óbitos originadas pela Covid-19 ou qualquer outra doença, no nosso caso, têm causas que se arrastam há décadas, pois quem devia ter criado  condições para, no mínimo, as diminuir, desbaratou o erário em proveito próprio, chegando, em alguns casos, a enriquecer, vendendo fármacos importados pelo Estado ou que lhe foram doados.

O mal não é de hoje, tem décadas. E, embora continuem a haver ramificações de cultores dos tempos das "vacas sagradas” que nem devoto hindu, há mudanças. Não fossem elas e os efeitos da Covid-19  e de outras doenças eram bastante piores. Bastava, para isso, que se continuasse a deixar o barco à deriva em plena borrasca. Quem se encarregou de pegar no leme conseguiu trazer para terra o que restava dele. Na hora de começar a consertá-lo, já com a Bandeira da Esperança quase içada,  apesar  da crise económica mundial a fustigar, surgiu a má nova de um vírus, invisível à vista desarmada, que começara a espalhar  medo, dor e luto pelo mundo.  Angola, sem recursos suficientes, em quantidade e qualidade, de infra-estruturas  e humanas, não se ficou pelas lamentações, serviu-se do que tinha, antecipou-se, nas medidas tomadas, e há países mais desenvolvidos em termos de saúde, que vieram a adoptá-las depois.  Em suma, a maioria de nós foi resistindo, mas também houve, continua a haver, quem, por ignorância pura, desleixo ou oportunismo político, desrespeite o decretado oficialmente, contribuindo para o aumento da doença.

Nove meses volvidos - tempo da gestação de um ser humano - sobre o surgimento, entre nós, do novo corona vírus, talvez seja altura de fazer o balanço possível de causas e efeitos do coronavírus em Angola. Do que podia ter sido feito e não foi, devia ser evitado e não é.  De fora deste "inventário” não  podem ficar transgressores e coniventes. De que são exemplos indesmentíveis as filas de pessoas, umas em cima das outras, à frente de bancos e centros de testagem, os que aguardam pelos transportes públicos e viajam amontoados dentro deles, em número excessivo em locais de comes e bebes, as farras até altas horas, com música em altos berros, as meninas e os meninos de rua, mulheres e homens, de todas as idades, a vasculharem contentores sebentos à procura de algo para vender e comer, as kinguilas, juntas em círculos, em amenas cavaqueiras, prostitutas de rua ou "cobertas” pelas paredes de "bares nocturnos”, a fazerem jus à designação do estabelecimento, vestidas de tanga e minúsculos soutiens e caras descobertas, como sucede numa antiga loja de colchões, agora com vidros fumados, nos Coqueiros, dos bairros mais antigos de Luanda. Quantos destes grupos não são de alto risco! Quantos dos que os compõem foram testados?Em tempo de rudimentar balanço dos nove meses da permanência oficial em Angola do coronavírus, ficam, aqui, alguns alertas, em jeito de relato e interrogações.     

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Opinião