Especial

“Água do chefe” sustenta famílias e conquista outros estratos sociais

Alexa Sonhi

Jornalista

Apesar de ser uma bebida de fabrico caseiro, onde reina o empirismo, na medida em que, do ponto de vista científico, são ignoradas as dosagens para a sua produção, o resultado, quase sempre, satisfaz a clientela.

19/01/2022  Última atualização 05H55
© Fotografia por: DR
As preferências pelo consumo da "água do chefe” dependem da origem de cada consumidor. Por isso, os produtores variam o tipo de kapuca, que pode ser de cana-de-açúcar, açúcar, banana, milho, maboque e outros frutos silvestres.
Segundo as fontes deste diário, a kapuca de maboque e de mais frutos silvestres é mais produzida na região Centro-Sul do país, com destaque para a província do Namibe. Em Luanda predomina a kapuca de cana-de-açúcar, açúcar e banana, a mais produzida na capital do país.
Todos esses factores são tidos em conta pelos revendedores. A reportagem do Jornal de Angola foi conhecer a história de Chupito German, 54 anos, que há cinco anos se dedica à venda de kapuca de cana-de-açúcar em sua casa, no município do Cazenga. Trabalhador de uma empresa pública, onde aufere um salário de 100 mil kwanzas, justifica que decidiu vender "água do chefe” para conseguir custear os estudos dos filhos, pelo facto de o salário ser insuficiente. "Prefiro vender a kapuca de cana-de-açúcar e de banana, porque rendem mais”, admite.
Das 6 horas da manhã às 18, de segunda a segunda, é proibido fechar o portão de casa, por ser "um horário sagrado para os clientes da ´água do chefe´”. Às 4h30 da manhã, conta, ele e a mulher levantam-se, antes de ir trabalhar, para organizarem o quintal de chão bruto, com mesas de plástico e madeira, no sentido de estarem prontos para atenderem os clientes, que são servidos em copos "recu-recu”, vulgarmente conhecidos como "cálice”.
"Cada `recu-recu´ custa 100 kwanzas, e mesmo que o cliente traga o seu vasilhame de um ou dois litros, temos de medir nesses copos até o recipiente encher, para conseguir tirar o lucro, porque se medirmos num outro copo fica complicado controlar a quantidade”, explica, acrescentando que "muitos clientes preferem beber a kapuca ainda quente, logo pela manhã”.

Actualmente, para comprar um bidão de 20 litros de kapuca, Chupito German gasta 20 mil kwanzas, ao contrário dos 12 mil que desembolsava antes da pandemia da Covid-19. Por cada bidão, revela, tem um lucro de 10 mil kwanzas.  
"Comecei a vender apenas com um bidão e demorava muito a acabar, porque as pessoas não conheciam a casa. Agora, que sou um pouco famoso, vendo sete bidões em duas ou três semanas, lucrando mais de 50 mil kwanzas”.

Outro tipo de clientes
Hoje, com a fama, Chupito não vende apenas aos vizinhos do Cazenga. A lista de clientes inclui colegas de trabalho, muitos dos quais com cargos de direcção, e oficiais superiores dos Órgãos de Defesa e Segurança.
Segundo Chupito German, a "água do chefe” é entregue no local de serviço, de forma discreta, com o pagamento de uma taxa adicional de 200 kwanzas por cada copo de "recu-recu” que, nesses casos, chega a custar 300 kwanzas.
"Nesses casos, o lucro é maior, por isso, reservo sempre um bidão de 20 litros para esses clientes especiais, porque não mostram truques ao pagar”, reconhece.
Neste grupo de clientes há quem compra dois ou três litros para consumo nas horas de relaxe em casa, apreciando um bom filme ou jogo, enquanto faz a digestão. É o caso de Miguel Samuel (nome fictício), funcionário da Administração Geral Tributária (AGT). Ele geralmente encomenda três litros por mês, porque, ao fim-de-semana, compartilha com os amigos.

"Sempre gostei de bebidas quentes”, admite Samuel, que, durante muitos anos, viveu na Europa, onde consumia Whisky e Dry Gin. "Quando voltei para Angola, mantive o mesmo hábito até um amigo me dar a provar a kapuca. Gostei muito, porque, além de ser mais leve, é muito mais barata”, justifica.
Miguel Samuel tem tanta confiança no produto comercializado por Chupito que, muitas vezes, quando não há kapuca, paga adiantado, para garantir a bebida tão logo esteja disponível.  

O transporte do produto

O primeiro parque da Macon, em Viana, tem sido o local onde muitos revendedores adquirem o produto. Aos sábados e quartas-feiras, às 3 horas da madrugada, as viaturas carregadas de bidões de kapuca, maruvo de bordão e palmeira e lunguila, provenientes das províncias do Cuanza-Norte e Uíge, chegam ao parque. Uma hora depois, começa a afluência dos clientes que compram os produtos para revender em várias zonas de Luanda. 

Para irem à busca das bebidas nessas províncias, os motoristas cobram 300 kwanzas por cada bidão de 25 litros vazio. No regresso, conta Lutonádio Luzolo, 36 anos, proprietário de uma das carrinhas, o transporte de cada bidão cheio custa mil kwanzas, sem contar o valor da compra das bebidas nos locais de produção. 

Por cada viagem, afirma Luzolo, há dois anos no negócio, transporta cerca de 150 bidões, além de outros produtos agrícolas. Diz não ser um negócio fácil, devido às dificuldades, que começam pelo estado técnico da viatura, buracos nas estradas e fiscalização da guarda florestal. "Quando a Polícia aperta, pagamos multas muito altas, em média chegam a cobrar 50 ou 100 mil kwanzas, se formos apanhados com esses produtos”, revela. 

Os motoristas saem de Luanda às segundas, às 10 horas, e chegam a Camabatela, às 20, onde deixam ficar os bidões vazios, prosseguindo viagem para o município de Negage, com o mesmo objectivo. Por volta das 6 horas de terça-feira, carregam os bidões cheios no Negage, depois em Camabatela e regressam a Luanda.

Por essa altura, os proprietários dos bidões de kapuca já se encontram enfileirados para receberem as encomendas, que lhes são entregues por meio de uma lista em posse do transportador da mercadoria. 

"Na lista apontamos o nome da pessoa, o tipo de produto encomendado, a quantidade e ponto onde vai ser fornecida a kapuca, porque alguns compram em Camabatela e outros no Negage. Depois de confirmar tudo, paga-se pelo transporte e vão embora”, explica.

 "Pago as propinas da universidade de três filhos”
Há mais de 15 anos, Antónia do Rosário, 50 anos, dedica-se à venda de kapuca. Revela que, devido ao forte cheiro, evita vender a retalho no quintal de casa, preferindo fazê-lo por grosso. No bairro Prenda, onde vive, muitos dos seus clientes já sugeriram que usasse o quintal para a comercialização da kapuca, Antónia do Rosário mostra-se irredutível na sua decisão, porque "não quero influenciar os meus filhos a consumirem esse tipo de bebidas”.
"Boa parte do meu sustento vem da venda de kapuca, porque tenho clientes de top, como donos de restaurantes, bares nocturnos e outras pessoas, que compram para vender a retalho” me encomendam dois a três bidões de 20 litros por semana.

Antónia do Rosário trabalha com mais de 20 bidões de kapuca e tem clientes que encomendam três bidões para vender a retalho. "Logo que recebo do meu fornecedor, começo a despachar e lucro mais de 100 mil kwanzas, valores que uso para pagar as propinas da universidade de três filhos”. 

Apesar do sucesso, Antónia do Rosário revela que foi vítima de discriminação no bairro, quando começou a vender kapuca. Já foi chamada de bêbeda, mas, hoje, segundo ela, as pessoas que lhe tratavam mal, são as mesmas que compram a "água do chefe”, para vender a retalho nos seus quintais.

"Muitos perderam o emprego e como precisam sustentar os filhos, bateram a minha porta para lhes explicar como é feito o negócio da kapuca. E explico, porque é uma forma de lhes ajudar”.  

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