Natural do Cuanza-Norte, António da Silva, engenheiro agrónomo de formação, é director provincial da Agricultura e Pescas do Moxico há quase 15 anos.
O responsável defende que não compete aos serviços provinciais desenharem e implementar projectos específicos no sector e que estas actividades devem ser dinamizadas pelas instituições privadas.
"Naquilo que são as nossas atribuições, as instituições da Agricultura ligadas ao Governo devem traçar políticas e estratégias. Não compete ao sector da Agricultura implementar projectos. Não! As empresas, os empreendedores ou as cooperativas é que o devem fazer. Estamos a sair deste processo paternalista em que quem deve fazer agricultura não é o Estado, é a empresa, o promotor privado, o camponês", explicou o responsável.
Neste momento, a principal meta do sector é apoiar a agricultura familiar, para que os camponeses possam atingir a segurança alimentar e, no futuro, evoluirem para a criação de cooperativas e pequenas ou médias empresas agrícolas.
É neste sentido que as estruturas de governação também podem desenhar projectos, com objectivos específicos, métodos de implementação, avaliação e monitorização externa para dinamizar iniciativas concretas.
Tal dinâmica poderia re-tirar o sector de uma certa inércia e colocar as equipas no terreno (ao invés de se dedicaram apenas ao pensamento estratégico no gabinete), ao mesmo tempo que se organizava a vertente financeira por via do Orçamento Geral do Estado, mas também, de diversas linhas privadas de financiamento, sobretudo, junto de doadores nacionais e internacionais, ONG's, entre outras instituições bilaterais.
"O mel é um segmento no qual se pode implementar um projecto. Mas preciso de ter condições para executá-lo. Se não existe uma fonte de financiamento, não vale a pena pensar nisso. Outras iniciativas podem não necessitar de grandes recursos", reconheceu António da Silva.
"Vamos junto do apicultor ou da associação de apicultores e perguntar-lhe qual é a ideia, para quê, onde podemos aconselhar. Ele pessoalmente poderá desenvolver o projecto. Agora também exigimos um projecto de investimento às pessoas que vêm solicitar títulos de concessão de terras. Devemos é monitorizar os projectos que estão a ser implementados e identificar novas áreas", disse.
Desafios e prioridades
A agricultura no país enfrenta enormes desafios, constrangimentos que são exponenciados na província do Moxico (que é a maior em termos de extensão e conta apenas com 5 por cento de estradas asfaltadas). A fraca densidade populacional e as longas distâncias entre localidades complicam a chegada dos serviços públicos e da assistência técnica, por via do Instituto de De-senvolvimento Agrícola (IDA), para aumentar a produtividade das famílias.
"Mas que condições têm os técnicos do IDA para desenvolver a sua actividade?", questionou o engenheiro agrónomo. "Como está o IDA? Para responder, é preciso reflectir bem. O Moxi-co é muito extenso e o número de técnicos é reduzido. O IDA não está bem...", reconheceu.
Á luz deste cenário, An-tónio da Silva referiu que o investimento prioritário deve ser orientado para os recursos humanos, seguidamente para as infra-es-truturas de acomodação dos técnicos junto das comunas e aldeias. Em terceiro lugar, o foco deverá ser o investimento na conservação e armazenamento de produtos, formação dos camponeses e acesso ao mercado/comercialização dos excedentes.
"Precisamos de políticas bem definidas no que toca à colocação de recursos hu-manos em todo o país", destacou António da Silva.
"O técnico agrário não pode escolher onde trabalhar, terá de ir para onde o Estado precisar - mas com condições e incentivos próprios (além do salário base, devemos acrescentar os subsídios de campo, de isolamento e de risco, pelo menos). Porque são estas questões que motivam os técnicos a trabalhar", referiu o director provincial.
Os técnicos agrários de hoje, sobretudo os mais jovens, não têm incentivos para aderir à vida rural. É um meio difícil, isolado, com poucas condições de trabalho e de convivência social.
"Os técnicos do IDA não se deslocam para junto das aldeias e das zonas produtivas porque não há meios.
Acha que o pouco salário que ganham vai servir para apoiar a actividade familiar?", questionou António da Silva.
As perspectivas para o sector, partindo do reforço do IDA e da estruturação do comércio, com as vias de circulação devidamente reabilitadas, a implementação de estratégias de transportação do meio rural para os grandes centros de consumo, podem ganhar novo interesse.
"Com estas medidas, o Moxico vai disparar. Está todo o mundo à espera. É só disto que precisamos", acredita António da Silva.
Grandes projectos falidos
"Neste momento, não temos grandes projectos a serem implementados na província", explicou António da Silva. Desde 2012, foram implementados, pelo menos, três grandes projectos financiados pelo Governo e depois entregues à gestão privada: a reabilitação do perímetro irrigado do Lwena (Lwena-Rega), em 2011, o Agro-Pecuário de Sacassange, em 2012, e a Fazenda Agro-Industrial de Camaiangala, em 2014. Todos faliram.
"Esperávamos ter outra visibilidade, mas, infelizmente, os projectos estão encalhados por falta de financiamento", disse o director provincial da Agricultura e Pescas do Moxico.
O objectivo era alcançar, o mais rápido possível, os níveis de produção da épo-ca colonial, quando o Moxico era exportador de arroz, mel e cera, mas a falta de financiamento, aliada à concepção equivocada dos projectos (demasiado grandes, demasiado caros, demasiado dependentes de mão-de-obra estrangeira e tecnologia, com ob-jectivos muito ambiciosos, tendo em conta o perfil da maioria dos cidadãos angolanos) e mal geridos inviabilizaram a execução dos programas.
O Projecto Agro-Pecuário de Sacassange, desenhado em 2010, para produzir hortofrutícolas para os mercados do Moxico, Lunda-Sul e Lunda- Norte, previa também cultivar hortícolas para exportar para os países vizinhos, principalmente a Zâmbia, com a finalidade de captar divisas para o país.
Com uma área de 10 mil hectares, dos quais apenas 2,5 hectares foram explorados, e com uma produção à base de estufas, o projecto contava com uma área de produção de ração animal, matadouro, aviário, currais e estábulos para a criação de suínos e caprinos.
A fazenda chegou a empregar 65 trabalhadores e colhia entre 250 e 300 toneladas de hortícolas, sobretudo pepino, tomate, cebola, alho, beringela, couve, alface, batata e oleaginosas, divulgou a Angop, em Junho de 2019. Tinha uma capacidade de produção de nove mil ovos por dia e possuía quatro naves, uma para a criação de pintos e três para a produção de ovos, contando, até à data do seu encerramento, com doze mil aves.
A Fazenda Agro-Industrial de Camaiangala, que está em processo de privatização definitiva, localiza-se no município de Camanongue, 62 quilómetros a Norte da cidade do Lwena, e possui uma área de 18.622 hectares. Foi criada para substituir a importação de fuba de milho para a província do Moxico.
Chegou a ter plantadas cerca de 950 toneladas de milho e soja, numa área de mil e 917 hectares, durante a campanha agrícola de 2016/17. A unidade agrícola previa também a criação de porcos e uma pequena fábrica de alimentos, oficinas de abate e salas de refrigeração de carne.
A base principal da fazenda de Camaiangala tem 3,300 metros quadrados de espaço residencial, incluindo dormitórios, restaurante e escritório, bem como 5.900 metros quadrados de armazéns industriais e edifícios, incluindo viveiros de porcos.
A reabilitação do Perímetro Irrigado do Lwena visava a revitalização do antigo Pomar do Luso (nome colonial da cidade do Lwena), que era o maior fornecedor de fruta para o mercado urbano e para a indústria produtora de licores que existia.
Gerido através do projecto Lwena-Rega, o Perímetro Irrigado inclui uma área de mil e 710 hectares e um canal de irrigação. Dos seus 27 quilómetros de extensão, 17 foram explorados com a implementação da piscicultura, agricultura e fruticultura.
Segundo a Angop, no âmbito da estratégia de implementação da aquicultura, para atingir as metas estipuladas no Plano Nacional de Desenvolvimento (PND) 2018-2022, o sector das Pescas controla 360 tanques povoados de alevinos (peixes recém-saídos do ovo).
A pesca artesanal, na qual se destaca o município da Cameia, com uma estimativa de produção de cerca de 300 quilogramas, tem poucas condições logísticas, sendo o pescado vendido por via informal e com controlo sanitário inadequado.
A rainha da mandioca?
Apesar da grande retórica ligada à superioridade do agro-negócio em relação à agricultura familiar, o certo é que são os camponeses que colocam 80 por cento dos produtos essenciais nas casas angolanas. A província do Moxico não é diferente. Em termos de quantidade, a região poderá mesmo ser a rainha da mandioca.
"Na verdade, procuramos transparecer que não se faz nada em termos agrícolas. Não é verdade! Devíamos começar por questionar por que razão os nossos produtos não aparecem noutros mercados do país. Esta é a questão", disse António da Silva.
"Quem estiver a falar de produção de mandioca deve falar baixinho. Dirijo estas palavras a Malanje e Uíje, que são os grandes fornecedores de mandioca para Luanda. Neste preciso momento, o Mo-xico é o maior produtor de mandioca do país. Mas a me-lhor mandioca, em termos de qualidade, é de Malanje, devido à sustentabilidade, assistência técnica, existência de suporte tecnológico. Nós não temos isto; a nossa produção é extensiva. A produção familiar é feita com base na experiência, naquilo que o camponês está habituado a fazer", explicou o engenheiro agrónomo.
O destino da mandioca do Moxico é o mercado informal. As vias de transporte estão em mau estado e, por isso, também não é fácil encontrar serviços de movimentação de cargas. Este é o factor estrangulador para o escoamento da produção regional, seja arroz, mandioca ou mel.
"O Moxico já foi a província que mais produziu arroz no país", recordou António da Silva, antes de reconhecer que, actualmente, não existe uma descascadora na província do Moxico. Mas o engenheiro agrónomo desvaloriza esta questão, já que os "produtores de arroz e de grãos (milho, feijão) que requerem alguma intervenção mecânica não estão muito interessados nesse tipo de investimentos".
Na verdade, a questão está directamente relacionada com a valorização da cadeia de valor da agricultura nacional. Não havendo um sector organizado entre a produção e o consumidor final, entre o camponês e as grandes cidades, sobrevive a tendência de implementação de projectos que pretendem abarcar todos os passos: rumo à falência, normalmente.
"Os camponeses querem produzir o grão e despachar o produto. Foi assim que sempre fizeram. O comerciante é que vai descascar o arroz e servir de intermediário. Ao produtor interessa vender, ele não quer saber do descasque; produziu o milho e vendeu o grão, não quer saber de mais nada", garantiu António da Silva.
Se as culturas alimentares do Moxico são as mais conhecidas, o arroz e a soja foram introduzidas durante o período colonial para servir de reforço nutricional das famílias e aumentar o rendimento. É por isso que são consideradas "cultura de renda" ou culturas "orientadas para o mercado".
"As famílias produziam arroz para vender. Porque o seu prato predilecto é o funji. Vejo a soja como reforço alimentar-nutricional", explicou António da Silva.
A intervenção técnica na agricultura familiar deve olhar para o meio familiar, não só para melhorar a produção, mas também para impulsionar as condições de vida de cada agregado familiar. Sobrevive a lógica de que não há melhorias na vida dos camponeses sem alimentação em quantidade e qualidade nutricional, educação para a vida, residência em boas condições de habitabilidade e um ambiente social e familiar sadio.
Madeira proibida
À parte as culturas alimentares, o Moxico tem uma gran-de estrela que pouco contribui para o país: a madeira Musivi (também conhecida como madeira-rosa). A exploração destes recursos assumiu proporções alarmantes para o meio-ambiente, denunciada por diversas organizações da sociedade civil (com a Igreja Católica, especialmente o bispo do Lwena, D.Tirso Blanco, à cabeça), mas a drenagem parece ter sido estancada.
"Várias empresas de construção civil mudaram-se para o Moxico para trabalharem naquele sector. Mas depois, com o tempo e com a falta de obras, devido à crise económica, viraram exploradores de madeira. Às tantas, todo o mundo sabia fazer, podia fazer; foi uma coisa complicada, que, pela extensão e pelo número de recursos hu-manos que o Moxico tem, era impossível fiscalizar. Os anos foram passando e fomos adequando algumas medidas, até que surgiu a proibição de corte do Musivi", referiu António da Silva.
Depois de várias medidas, a fiscalização passou a pente fino quem é empresário madeireiro e quem não é: quem não tinha licença ou adquiriu a autorização a outra entidade foi proibido de continuar a trabalhar.
"Neste momento, a exploração está reduzida a seis empresas. Acredito que, em 2020, poderão aparecer quatro ou cinco empresas, quan-do, naquela altura, eram mais de 100 a cortar madeira. E não faziam repovoamento. Em 2019, também não foram emitidas licenças de exploração. A licença é anual. Se aparecer alguém a denunciar alguma actividade anormal, devemos tomar aquilo como uma verdade e ir lá averiguar", assegurou o responsável da Agricultura e Pescas no Moxico.
Com a proibição de corte da espécie Musivi, a direcção provincial acredita que a exploração comercial daquele produto é quase inviável.
"Com a proibição, vão levar o produto para onde? Os empresários vão gastar recursos e pagar a trabalhadores para depois só terem prejuízos", perguntou António da Silva.
Seja o primeiro a comentar esta notícia!
Faça login para introduzir o seu comentário.
Login
Perde-se na poeira do tempo a época gloriosa da cotonicultura angolana (cultivo de algodão). Os investimentos públicos feitos no sentido de revitalizar o sector “encalharam” no Sumbe, município sede da província do Cuanza-Sul, onde o Estado despendeu, em 2011, dezenas de milhões de dólares num projecto piloto, na expectativa de incluir o também chamado “ouro branco” na grelha de produtos geradores de divisas.
O Mercado da Mabunda, localizado no distrito urbano da Samba, é um dos maiores fornecedores de peixe fresco, senão mesmo o maior da capital do país. É o destino preferido de centenas de citadinos. Isso apesar de constrangimentos tais como a falta de higiene e a presença constante de larápios que, volta e meia, podem deixar o visitante aos prantos. Há ainda o desrespeito total às regras de distanciamento físico em tempo de Covid
Onze anos depois, Angola assume a Presidência rotativa da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP), para o período 2021-2023, num contexto marcado por uma profunda crise económica, agravada pela pandemia da Covid-19 que assola o mundo. A Cimeira de Luanda, que coincide com as celebrações das Bodas de Prata da organização, decorre sob o lema “Construir e Fortalecer um Futuro Comum e Sustentável”.
O incentivo à união e ao respeito pela diversidade cultural devem estar entre os principais focos da II Bienal de Luanda - Fórum Pan-Africano para a Cultura da Paz, que este ano decorre de 4 a 8 de Outubro, sob o lema “Cultura, Arte e Património Histórico de África”, numa iniciativa de Angola, União Africana e a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), tendo na juventude uma das forças motoras.
Direitos de terra, igualdade de acesso aos recursos e finanças agrícolas, bem como a igualdade de poder na tomada de decisões foram citados, sábado, em Addis Abeba (Etiópia), pela comissária da União Africana (UA), Josefa Sacko, como benefícios de programas e políticas de empoderamento das mulheres.
O navio de investigação científica Baía Farta inicia, nos próximos dias, o primeiro cruzeiro de demersais (peixes que habitam zonas mais profundas) para avaliar o grau de abundância do biorecurso e garantir às autoridades o ajuste das capturas admissíveis e o ciclo de renovação das espécies, segundo informou a secretária de Estado para as Pescas.
A vice-presidente do MPLA, Luísa Damião, afirmou, sábado, estar satisfeita com a execução física e financeira das obras inseridas no Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM), em curso na província do Cunene.
As propostas das empresas interessadas no concurso de empreitada que prevê asfaltar 20 quilómetros de estradas da cidade de Porto Amboím, na província do Cuanza-Sul, numa operação estimada em 2,05 mil milhões de kwanzas (3,1 milhões de dólares), vão ser recebidas até ao dia 12 deste mês.