Política

Agricultura precisa de 22 mil milhões de kwanzas para atingir auto-suficiência

O país precisa de um investimento anual de 22 mil milhões de kwanzas para potenciar o sector da agricultura, florestas e do mar, com o objectivo de desenvolver um conjunto de acções para inverter o quadro actual.

02/07/2020  Última atualização 13H21
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A informação foi dada terça-feira pelo ministro da Agricultura e Pescas, António Francisco de Assis, no programa Grande Entrevista da Televisão Pública de Angola (TPA), conduzido pela jornalista Sílvia Samara, onde o titular da Agricultura fez a radiografia geral do sector.

O ministro garantiu que está em curso um programa que visa acelerar o desenvolvimento agrícola e das pescas em todo país. Questionado sobre os principais desafios, sobretudo, com a fusão dos dois sectores, Agricultura e Pescas, num contexto de crise económica e financeira, caracterizado por várias incertezas para as famílias angolanas, António Francisco de Assis afirmou que o maior desafio é criar sustentabilidade à economia nacional por via destes sectores.

Agricultura familiar

No que diz respeito à agricultura familiar, António Francisco de Assis apresenta três grandes problemas, que segundo ele, precisam de ser rapidamente resolvidos. O primeiro diz respeito ao capital humano, sem o qual não é possível desenvolver a agricultura, mas defende que deve possuir formação, preparação e conhecimento técnico para desenvolver a actividade agrícola no país. Os outros dois têm a ver com a logística, cuja deficiência de insumos constituem factores determinantes para a produção, uma vez que não há produção a nível local. “Estou a falar de fertilizantes, enxadas, linha, agulha, adubos, catanas, sacos e outros”, referiu.

António Francisco de Assis afirmou que existe um trabalho árduo que está a ser feito pelo Instituto de Desenvolvimento Agrário (IDA), para garantir a extensão rural, que inclui a preparação dos camponeses para a melhor utilização das técnicas existentes, elevar a produtividade e aumentar a produção.

Problemática dos fertilizantes

O problema dos fertilizantes e falta de sementes foi uma das questões colocadas ao ministro da Agricultura e Pescas. Neste domínio, António Francisco de Assis admitiu existir um défice muito grande, condicionado pela falta de produção local destes dois produtos importantes para alavancar o sector. “Um país como o nosso precisa, anualmente, de 60 mil toneladas de fertilizantes. Esse é o mínimo, mas temos que garantir que não haja ruptura. A falta de produção de fertilizantes a nível interno é que eleva os preços”, admite.

Para solucionar esta questão, a saída está, segundo o ministro, na construção de unidades fabris no país, que envolva parcerias público-privadas, uma vez que o mercado inclui vários elementos, desde a organização para as actividades agrícolas, às cadeias de armazenamento, para a distribuição e escoamento, que na sua visão, não é um problema do produtor, embora esteja incluído na cadeia. “Estamos em contacto com vários grupos para instalação de várias fábricas, que formulem produtos que se ajustam às condições das diferentes regiões agro-climáticas de Angola”, frisou.

Escoamento de produtos

O ministro da Agricultura e Pescas reconheceu, igualmente, na entrevista, existirem grandes dificuldades a nível do escoamento de produtos do campo em todo o país e afirmou ser da responsabilidade do ministério a criação de condições para estimular os agentes privados a apostarem nas soluções do escoamento.

Outra solução é trazer para o mercado mais players da distribuição, mas para isso é necessário que os actores deste seguimento funcionem organizados, para estimular o consumo e rendimento para todos intervenientes. “Há aqui uma interligação de áreas que nós precisamos de melhorar no país, que envolva os produtores, distribuidores e clientes.

Fundo da agricultura

Segundo o ministro da Agricultura e Pescas, que reconheceu a inactividade do Fundo de Apoio à Agricultura, recentemente o Governo adoptou um conjunto de medidas para o estimular, sublinhando que o mesmo está em fase de capitalização. Garante que dentro em breve será retomado o processo de concessão de crédito, mas adianta que do fundo apenas as famílias camponesas terão acesso. Os empresários e outros interessados têm as diferentes linhas definidas a nível do PRODESI, do BDA e do FACRA. Esta medida é uma forma de protecção das famílias.

Questionado sobre o Programa de Aceleração da Agricultura e Pesca Familiar, o ministro referiu que o mesmo foi recentemente aprovado e visa integrar e acelerar a agricultura e a pesca familiar, enquanto conjunto de acções integradas pelo Executivo para obtenção de resultados fiáveis nesta área.

António Francisco de Assis enfatiza que o programa foi aprovado, as acções foram quantificadas. “Se conseguíssemos chegar até ao final do ano com um montante na ordem dos 20 mil milhões de kw-anzas, podíamos nos dar por satisfeitos. Este valor não será todo para o ministério. Contemplará créditos e outras linhas para o sector privado. Se estes forem utilizados na agricultura, o sector muda”, referiu.

Navio “Baía Farta”

António Francisco de Assis garantiu que, em função da avaria registada no navio de investigação científica “Baía Farta”, o sector da Agricultura e Pescas está a negociar a ex-
tensão da garantia da compra com a empresa que vendeu a embarcação no valor de 80 milhões de dólares.
O navio de pesquisa científica, fabricado na Roménia, apresentou, desde a chega em 2018, um conjunto de inconformidades, desde avarias no sistema de guincho e na parte informática, entre outras, e encontra-se, nesta altura, inoperante. A reparação foi interrompida devido à Covid-19, que im-possibilitou a presença dos técnicos no país.

Sector das Pescas

António Francisco de Assis reconhece alguns conflitos de interesse com os operadores do sector das Pescas, mas garante que houve muitas melhorias e está em curso um conjunto de medidas que vão reverter a situação, que considerou bastante lenta, centralizada e burocrática. "Os operadores devem saber que têm obrigações para com o Estado. O que acontecia no sector, fazia o país perder muito".

Censo animal

Segundo o titular da pasta da Agricultura e Pescas, a população animal do país é desconhecida devido à falta de estatísticas fiáveis. Há estimativas que apontam para a existência de 3,8 milhões de bovinos em todo o país, mas não é, segundo disse, uma referencia confiável.
Na sua visão, só o Recenseamento Agro-Pecuário e Pescas (RAPP 2019-2020), que visa realizar um levantamento do número de animais, fazendas e empresas ligadas ao sector, poderá garantir a fiabilidade dos dados sobre o estado actual do sector agrícola e avançar os números reais da população animal do país.

Dificuldades na implementação dos projectos

Questionado sobre as dificuldades na adesão ao crédito por parte de micro, pequenas e médias empresas, o ministro reconheceu o problema, sobretudo, as dificuldades na implementação dos programas, os receios do sector bancário em conceder financiamentos, a centralização e burocracia que dificulta o processo.

Produção agrícola

Segundo o ministro António Francisco de Assis, neste momento não é possível fazer já o balanço, por estar em curso o levantamento da colheita de dados em termos de produção, mas nos principais indicadores, naquilo que são os cereais, raízes e tubérculos, leguminosas, fruteiras e hortícolas, em comparação com as produções anteriores, a expectativa é de crescimento.
Neste sentido, o país vai atingir cifras de 3,5 milhões de toneladas de cerceais, 13,5 milhões em termos de raízes e tubérculos e passará de 513 mil a 779 toneladas leguminosas em 2022.




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