Entrevista

“Agostinho Neto foi um pai para mim”

Luzia Pereira de Sousa Inglês Van-Dunem “Inga” viveu momentos marcantes na companhia do Presidente Agostinho Neto, que recorda como “um homem muito humano, humilde, simples, mas que impunha regras”.

17/09/2022  Última atualização 06H15
Luzia Pereira de Sousa Inglês Van-Dunem “Inga” © Fotografia por: DR
Hoje comemoramos 100 anos do nascimento de Agostinho Neto. Como encara a simbologia desta data?

Vendo bem, não deixo de sentir alguma tristeza neste cêntuplo, porque ele deveria ainda estar vivo. Neto merecia chegar até a esta idade, temos alguns idosos que conseguem avançar mais de 100 anos, mas a vida tem sempre uma regra que, às vezes, quanto mais sacrifício você fizer, menos tempo de vida você tem. E é o que aconteceu com Agostinho Neto, ele entregou-se de corpo e alma por  Angola, ainda muito jovem. Foi vendo as discriminações que o nosso povo vivia e entregou-se de corpo e alma, virou um bom revolucionário antes de ser chefe de família. Agostinho Neto merece esta homenagem.

 

Quando é que conhece Agostinho Neto?

Conheci Agostinho Neto aos meus 19 anos de idade, mas na época já ouvia falar dele. Ainda na altura em que ele acabou o curso de Medicina, já se falava do orgulho de termos um médico nosso, Agostinho Neto, filho do reverendo Agostinho Pedro Neto, que era um orgulho sobretudo para a nossa missão, porque o pai foi um pastor. Ou seja, há mais uma relação de amizade que tive com Neto, que foi de boa consciência. Isto é, o pai de Agostinho Neto foi pastor e reverendo na Missão do Piri-Dembos, província do Bengo, por uns anos. Enquanto que o meu pai era pastor em Nambuangongo. Infelizmente, o pai de Agostinho Neto também morreu cedo. Neto vem de uma família humilde, porque naquela altura os pastores não tinham grandes possibilidades, era a luta pela vida e ele nos seus estudos recebeu uma bolsa e foi fazer o curso de Medicina em Portugal. Felizmente  termina o curso e volta médico. Negro e a abrir um Consultório Médico em casa do falecido pai, no Bairro Operário, isso já era uma afronta contra o sistema colonial, quer dizer, ele sabia a importância e o valor que tinha essa sua acção. 

 

Como vê o legado dos ideais de Agostinho Neto?

 Quanto a este aspecto, o camarada José Eduardo dos Santos fez a sua parte dentro das palavras de ordem " De Cabinda ao Cunene, um só povo, uma só nação”. Ele não deixou Angola ficar dividida, fez de tudo para acabar com as desavenças.

 

Quando o conheceu pessoalmente?

Conheci o Presidente António Agostinho Neto já durante a guerrilha. Nessa época ainda cheguei a ficar quatro anos nas matas da 1ª Região, e cheguei em Leopoldville em 1964/65 e em 1966 tentamos ir para Brazzaville. Na altura não era fácil, e só conseguimos ir a Brazzaville em 1967,e foi nessa data que conheci pessoalmente o camarada Neto com a esposa e os filhos, Mário Jorge, Irene Neto e a Leda Neto. Conheci-os no Congo- Brazzaville, em plena guerra de libertação. Na altura fazia-se a guerrilha na 1ªRegião, que era a  frente mais favorável para o MPLA, porque em 1966 o MPLA tinha sido corrido de Leopoldville por causa do Holden Roberto.

 

E quando é que regressaram a Angola? Onde começou essa relação? Falou que se conheceram em 1967.

 Sim, foi já numa fase em que se estava a organizar o reforço da guerrilha na Frente Leste que se faria a 3ª, 4ª e 5ª Regiões da guerrilha do MPLA. Isto é, 3ª Região no Moxico, 4ª Região nas Lundas e a 5ª seria no Bié, mas a organização para o efeito foi a partir de Brazzaville. O Congo-Brazzaville foi realmente um país que se entregou totalmente a favor da guerrilha do MPLA, através do Presidente que lá estava, o Marien Ngouabi e todos. O Congo-Brazzaville foi realmente um país que nos abriu as portas e deu todo o apoio ao MPLA. Então, concebeu-se a necessidade de se abrir a Frente Leste em 1965, mas só conseguimos reforçar a guerrilha neste local em 1968.

 

Foram as circunstâncias em que se alia o movimento, que hoje é o MPLA?

 Entrei para o MPLA já nas matas, na 1ª Região, porque o meu tio já era do movimento. Ele era mais velho e depois que o meu pai foi morto, o meu tio Manuel Pereira Inglês, que nos criou, era militante do MPLA na guerrilha. Depois que chegamos ao Congo Leopoldville, em 1964, fomos logo recebidos pelos camaradas do MPLA.  Foi nestas circunstâncias  que entro no Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA), na Organização da Mulher Angolana (OMA), na Organização do Pioneiro Angolano (OPA),  numa altura em que tinha 16 anos.

 

Antes de ingressar no movimento, o que ouvia falar de Agostinho Neto?

O que ouvia  sobre  Agostinho Neto era a necessidade de se fazer a guerrilha a sério. A filosofia do sistema político que fomos aprendendo, hoje somos o que somos através das reuniões e orientações políticas e a luta contra o sistema colonial, mas não contra os brancos, mas sim contra o sistema que fazia mal ao povo angolano, e que não deixava o povo angolano  desenvolver-se.

 

O que a incentivou a ingressar no movimento?

 Não fui incentivada como pessoa sozinha, não, a minha família já era do MPLA, onde a minha família está é onde também vou, porque na altura eu era menor de idade, fiquei órfã de pai e mãe aos 13 anos, entrei para a revolução em 1967 e nos refugiamos em Leopoldville. Neste país estava já lá o MPLA, mas tinha fugido porque em 1963 foram corridos de Leopoldville e foram para Brazzaville, isto por causa das desavenças entre o MPLA e a UPA/FNLA. Então fomos corridos, ficamos em Brazzaville, país que nos recebeu com as duas mãos. Agostinho Neto também estava lá e foi assim que conheci o camarada Neto.

 

Quais foram os momentos mais marcantes durante a guerrilha com o Presidente Agostinho Neto?

Um dos mais marcantes foi quando conheci o Presidente Neto e a sua família. Entretanto, o mais marcante foi quando em 1968 houve orientações para o reforço da guerrilha na Frente Leste. Para tal, organizaram-se grupos, uma equipa para partir para a Frente Leste, sair das fronteiras de Cabinda, onde nos encontrávamos, em Dolisie, para Leopoldville, porque Agostinho Neto já tinha solicitado aos soviéticos aviões para nos transportar da 2ª  para a 3ª Região. Um voo  levou o "Esquadrão Bombonco". O outro levou pioneiros e professores. Um outro voo levou famílias compostas por pai, mãe e militantes do MPLA. Foram logo três aviões. A organização iniciou-se em 1967 e em  Abril de 1968 Agostinho Neto mandou-nos sair em camiões e chegamos até Brazzaville. Não tínhamos espaços para ficarmos hospedados até apanharmos os aviões, pelo que tivemos que ficar nos hangares (um grande galpão, situado num aeroporto  no qual se estacionam as aeronaves para manutenção e preparação para os próximos voos), e no aeroporto de Brazzaville. Quando os aviões chegaram, cada um levou o seu embrulho, umas mochilas e outros sacos de fardos, que eram as nossas roupas, e subimos para o avião  rumo à Tanzânia. Posteriormente passamos pela Zâmbia  até chegarmos na zona Leste, no Moxico, isto em Abril de 1968.

 

Ao chegarem à Tanzânia, o que se seguiu?

 Assim que aterramos na Tanzânia, algum tempo depois vieram avisar ao Presidente Agostinho Neto que tombou em combate o camarada Hoji-ya-Henda. Tristeza, desespero e choros tomaram o Presidente. Embora ter chegado a triste notícia, Agostinho Neto trabalhou no sentido de não sermos desmotivados, encorajou-nos e, aliás, naquela altura nem todos foram informados do falecimento, eram apenas os chefes mais velhos que sabiam da morte de Hoji-ya-Henda. Quando ficamos a saber que  Hoji-ya-Henda tinha morrido, já se tinha passado mais de um mês.

Depois deste fatídico dia, houve um encontro, e esse foi o primeiro momento marcante da minha pessoa com o Presidente António Agostinho Neto. Neste "hangar" onde estávamos todos hospedados, que vínhamos das fronteiras para apanharmos o voo em Abril de 1968, o camarada Presidente  fez uma grande reunião, durante a qual nos informou onde iríamos, o nome da província e outras informações adicionais. Apenas tínhamos o conhecimento que iríamos para Brazzaville.

 Mas não foi isso que aconteceu?

Não. Afinal estávamos à espera dos aviões para nos levarem para a 3ª Região, na Frente Leste, no Moxico. E assim, Agostinho Neto fez essa reunião para apelar à disciplina e ao espírito patriótico. Também nos avisou que iríamos encontrar povos  que nunca tinhamos visto nem  ouvido falar, mas que eram  angolanos e militantes do MPLA que iam participar na guerra de libertação nacional. Foi nesse dia que disse que a guerrilha iria fortalecer a Frente Leste, a partir da província do Moxico. Tudo isso ouvi no local, pelo Presidente António Agostinho Neto, e na altura eu não sabia nada, nem sequer que Angola tinha Moxico (risos). Tinha acabado de fazer 20 anos. Em 1968 eu não sabia bem da história do nosso país e da sua geografia, porque Angola é 14 vezes maior que Portugal mas era uma província.

 

E na guerrilha, na Frente Leste, voltou a receber orientações directas de Neto?

A partir desse momento, já estávamos mais vezes juntos com o camarada Neto, porque nas bases onde ficavamos ele também ficava, apesar de ele circular bastante. Até que, em 1969, sou seleccionada para fazer parte de um curso de telecomunicações de rádio comunicação na União Soviética, constituído por 30 jovens, dos quais cinco meninas. Terminado o curso, viemos para a Frente Leste, e quando  José Eduardo termina vai para a 2ª Região, em Cabinda. Todas estas orientações foram dadas pelo camarada Neto. Fomos para a Frente Leste para reforço da guerrilha, já com um sistema de telecomunicações.

  

Como lembra Agostinho Neto nesses momentos?

Agostinho Neto sabia ser um líder revolucionário, muito humano, humilde, simples, mas que impunha regras, disciplina e respeito. Ele tinha muito disso, de tal maneira que, por exemplo, a nível da juventude, com a guerrilha composta por meninas e rapazes, previa que poderia haver namoro, e, consequentemente, gravidezes que eventualmente poderiam não ser assumidas. Para corrigir este comportamento dos guerrilheiros, o camarada Neto disse: "Já cá estamos há mais de 10 anos de guerrilha, vamos evitar que as pessoas estejam grávidas e não assumam as responsabilidades. A partir de agora, quem namorar é para gostar e assumir a responsabilidade de casar”. De tal maneira que em 1970 o primeiro casamento a que Neto assistiu foi o meu, mas já desde 1968/69 que chamava a atenção aos camaradas que engravidavam, porque uns assumiam e outros não. E o meu foi o primeiro casamento na Frente Leste. Quer dizer houve alguns casamentos ,mas não da forma como se realizou o meu. Um dos primeiros casamentos foi o do camarada Gato com a Jovita, e só mais tarde acontecem mais casamentos.

 

E o presidente Agostinho Neto testemunhou os casamentos?

Sim.  No meu casamento ele foi o padrinho do camarada Mbinda.

  

Eles eram amigos? Como é que foi feito o convite?

Estávamos todos no campo, éramos camaradas, apesar do respeito por ele ser o Presidente. O camarada Mbinda já tinha sido representante do MPLA na Zâmbia,  o cargo que hoje é denominado por embaixador. Na altura eram designados  representantes políticos. Então, Mbinda formulou o convite e Agostinho Neto aceitou. Passado algum tempo, o Presidente Agostinho Neto chamou-nos e disse: "Sei que vocês estão a namorar… Têm aliança?" Fiquei um pouco sem entender a pergunta, porque na guerrilha ninguém ganhava. Então Neto diz: "bom, vou oferecer-vos  as alianças, tomem o dinheiro e vão comprar no supermercado da Zâmbia". É esta a aliança que uso até hoje, que Agostinho Neto ofereceu em 1970, comprou-se com o dinheiro que ele deu e com o que sobrou de troco comprei um tecido que depois a costureira, na altura a camarada Luísa Cuarta, fez o vestido de noiva, e do mesmo vestido tiramos a renda com que se fez uma bandolete (risos!). Na foto que ilustra esse momento, vêm-se os meus padrinhos, ladeados por Agostinho Neto e pela camarada Maria Judite Santos, que foram os padrinhos do camarada Mbinda, porque nessa época a camarada Maria Eugénia Neto não se encontrava na zona em que estávamos, mas em Dar-es- Salam, na Tanzânia, e o casamento foi em Lusaka, na Zâmbia.

 

Então, Agostinho Neto pode ser considerado como o "santo casamenteiro” por ter posto ordem aos guerrilheiros, para não namorarem sem assumir?

 Sim, porque depois do meu casamento, em 1974 houve um guerrilheiro que engravidou uma camarada mas não queria desposá-la. A irmã mais velha dessa menina foi queixar-se ao Presidente. A jovem já tinha cinco meses de gravidez, e o camarada Neto mandou chamar o guerrilheiro que na época    tinha a patente de comandante,  e tinha viagem para a Rússia para fazer o aperfeiçoamento de treino militar. E o camarada disse-lhe: "Por quê namorou esse tempo todo? Deveria ter visto que não gosta dela. De castigo, está suspenso, será retirado do grupo que vai viajar”. O camarada aceitou a decisão. Voltou para a Frente Leste, mas assumiu o bebé que mais tarde nasceu.

 

E quando foi que chegaram ao Moxico?

Chegamos ao Moxico dois meses depois, porque ficamos também cerca de dois meses em preparação na Tanzânia, à espera dos camiões que nos iam carregar nas zonas onde pretendíamos chegar. Era uma caravana de quatro, cinco e  seis camiões para levar todas as famílias, alunos, o esquadrão que iria chegar até à fronteira do Moxico, na base de Caçamba. Nessa época já estavamos em Maio ou Junho, porque entramos na zona em pleno frio. O mês de Junho, na Frente Leste, na margem dos rios,  quase nos congelava logo pela manhã, via-se  o nevoeiro. No capim estávamos nós a entrar como guerrilheiros, a passarmos a Tanzânia, não entramos em Lusaka, passamos por umas cidades dentro da Zâmbia em direcção ao Rio Zambeze, onde atravessamos e fomos para o outro lado já próximo da guerrilha do Moxico, até chegarmos em Caçamba, nas bases. Infelizmente já me estou a esquecer os nomes das bases…

 

No local, quais são as missões que Agostinho Neto lhe confiou?

Assim que fomos informados da morte de Hoji-ya-Henda,  nós tínhamos que entrar na região do Moxico para carregar o material de guerra. Os momentos difíceis foram na altura da recepção dos materiais de guerra que os soviéticos, cubanos e  países socialistas ajudavam a  carregar e  descarregar para levar para a guerrilha. Era leva e volta, e as viagens eram de duas a três semanas na mata. Havia áreas que para passar não se podia andar de dia, mas apenas de noite, e tínhamos  de levar o material para fazer a guerrilha na base. E era  andar a pé.

 

E o Presidente Agostinho Neto conseguiu também chegar ao Moxico e participar nas acções?

Sim, o camarada Neto também esteve lá, ia  às bases iniciais. Porque ele tinha que percorrer várias zonas. Esta base a que me refiro, o grosso saiu de Brazzaville, foi na 3ª Região, zona A, Mandume III. Ele andou um pouco pelas zonas A, B e C.

 

Fale-nos um pouco do dia da Independência Nacional, qual foi o momento de Agostinho Neto?

Cada momento é especial, estranho, um momento diferente, mas prontos, lembro-me que estava com a minha primeira filha, que nasceu na Tanzânia, e a levei comigo, ela naquela altura tinha um ano e poucos meses. Depois fomos à actividade no Largo 1º de Maio. Na altura Agostinho Neto já tinham entregue um carro ao camarada Mbinda e fomos até lá à noite. No local fizeram tribuna com degraus, e lembro-me que ficamos sentados no terceiro degrau, um pouco à direita, onde estava o Presidente Agostinho Neto, que  se encontrava sentado na primeira tribuna. Prontos, estávamos próximos porque o camarada Mbinda  era o director do Gabinete dele e eu a  chefe das Comunicações. Já eu estava a trabalhar com a nossa direcção de guerrilheiros, com o camarada Bento Ribeiro Cabulo e Joaquim Rangel,  que eram os nossos chefes das comunicações, e o camarada Chaxa, que ainda está em vida. Ao recebermos as comunicações do sistema colonial português, fiz parte da delegação que assume a recepção do sistema de comunicações de Angola, do correio, das comunicações militares, da polícia, e foi assim que fui seleccionada para ficar como chefe do  FAX de Comunicação no Palácio Presidencial.

 

Foi tudo de forma brusca e repentina?

Não. Fomos distribuídos, uns ficaram na Polícia e outros no Estado-Maior, nas comunicações da PIDE-DGS, isto depois de termos passado três meses de trabalho com os portugueses, que nos ensinaram como utilizar os meios de comunicação. Depois, esses mesmos portugueses foram  embora no dia 10 de Novembro, e à meia noite do dia 11 de Novembro estávamos a proclamar a Independência Nacional. Os portugueses já não podiam estar cá, foram para o alto mar, de barco, fiz parte desta equipa de operadores que recebemos todas as comunicações do sistema todo colonial em 1975. Íamos mesmo com os nossos filhos às costas, e os brancos ficavam admirados porque  na equipa tinham mulheres, e ainda mais com os filhos às costas. Nessa altura já eu tinha 26  a fazer 27 anos.        

 

Testemunha o momento derradeiro da Nação Angolana, com Agostinho Neto no leme…

O  momento da proclamação da Independência Nacional foi emocionante, choramos e rimos ao mesmo tempo, a ver a bandeira a subir, os nossos elementos do "4 de Fevereiro”. Era de chorar, parecia mentira, estávamos independentes, depois de anos de sacrifício! Nos perguntamos, mas isso é mesmo verdade? E os tiros a dispararem (choros!), no dia 11 de Novembro, à meia noite, no Largo 1º de Maio. Imaginar uma guerrilha de milhares de guerrilheiros, constituída por cinco regiões, 1ª região Bengo, 2ª região Cabinda, 3ª Região Moxico, 4ª Região e a 5ª Região a Província do Bié, que não desenvolveu muito porque  não conseguimos ficar lá muito tempo. Na altura, o camarada Dino Matross é que estava a abrir a 5ª região com o Gomes Spencer, que viria a falecer lá, e ele era de Cabinda. E ouvir de Agostinho Neto a certeza de que "de Cabinda ao Cunene, um só Povo, uma só Nação”, foi muito emocionante.

 

Na altura houve uma festa particular comemorativa entre os guerrilheiros?

 Não, apenas comemoramos no momento porque naquela altura havia ainda confrontos, e não tínhamos como  festejar. Proclamou-se a independência  e a direcção do MPLA continuava a fazer as suas reuniões na Vila Alice, ali onde hoje é o Comité Provincial do MPLA. Entretanto, quando chegamos em Fevereiro ficamos desempregados, porque ninguém sabia o que iria fazer na altura, cada um estava na casa de parentes (risos!). Permanecemos  desempregados de  Fevereiro a Abril, e mais tarde  foram procurar por nós, quem viu a família tal ou família do sicrano, e depois de nos encontrarem lá fomos à reunião na Vila Alice, na casa 100, isso em Março. Dali resolveu-se que a partir do mês de Abril iríamos todos começar a trabalhar para receber as telecomunicações, depois fomos montar essas mesmas comunicações no "Futungo II”, ali onde antes era a Praça do Artesanato, à esquerda, era uma quinta e tínhamos que lá ir trabalhar.

 

Portanto, segue-se a sua presença no Palácio. Como era o ambiente?

Em Janeiro, o camarada Agostinho Neto  sobe para o Palácio, e precisava de colocar em funcionamento as comunicações. Então, indicaram -me como chefe do Telex do Gabinete do Presidente António Agostinho Neto. Ainda naquele tempo, eu já tinha uma relação de camaradagem com o Presidente, portanto, como  era pessoa de confiança, fiquei  chefe do Telex no Palácio. Depois começou-se a pensar num desenvolvimento das comunicações ligadas ao Comandante-em-Chefe, mas que infelizmente ele já não estaria vivo para ver. Esse Centro de Comunicações Fixo só viria a ser inaugurado em Janeiro de 1980. 

 

Ser chefe das Comunicações garantia proximidade directa ao Presidente, certo?

Quando eu era chefe das Comunicações no Palácio, quando fosse para lá, muitas vezes ele tinha conversas de camaradagem comigo. E uma vez (risos) fiquei atrapalhada quando ele falou: "Oh camarada Inga, nunca mais cozinhaste aquele feijão que fazias lá na guerrilha, sabe que gosto muito de feijão". Eu disse: " Camarada Presidente, eu já não posso trazer aqui marmita com feijão para o Presidente, agora já é Presidente da República, a minha marmita nem vai entrar aqui no Palácio” (risos!). E outra vez,  também lhe perguntei: " Mas camarada Neto, já agora, então se nós fizemos a  luta contra o sistema colonial português, comenta-se então lá fora a razão do Presidente Neto, que é o Presidente da Angola Independente, ter uma esposa portuguesa. Camarada Neto, eu não estou contra  a camarada Maria Eugénia porque nós já estamos habituadas a ela  desde a guerrilha, e para nós é normal  e  é uma camarada nossa. Mais lá fora estão a dizer vão perguntar ao Presidente Neto porquê é que continua com a branca,  se Angola já está independente?”. O Presidente Neto olhou para mim e começou a rir, e disse: "Eu entendo, camarada Inga, casei com a  Maria Eugénia porque, primeiro, nos amamos, namoramos, e ela fez muito por mim para eu poder ser também Presidente que sou e do MPLA, ajudou-me muito nos trabalhos da clandestinidade, fugiu comigo durante a clandestinidade, esteve comigo nos momentos difíceis durante a guerrilha. Agora, na Angola Independente, vou abandoná-la por ser branca? Nós não fizemos guerra contra os brancos, fizemos a guerra contra o sistema colonial”.

 

Agostinho Neto falava abertamente consigo?

Sim. Depois desta  resposta fiquei tão feliz, deu-me dois beijinhos (choros!). Ele foi  um pai para mim, tínhamos conversas de pai para filha. Lembro que um dia eu lhe disse: "Camarada Neto, os malanjinos e catetenses  são inimigos como cão e gato, mas estão sempre  a casar entre si”, pelo que Neto respondeu: "É verdade, Inga”. (risos!)

 

Essas conversas todas foram tidas no Palácio?

Não foram todas tidas no Palácio. As últimas conversas foram já na Sapú, onde ele organizou um jantar, tinha saudades dos guerrilheiros, o evento foi numa casa que ele deixou na altura neste bairro. Para o jantar mandou matar um boi, o animal no espeto a assar  e convidou todos quantos eram guerrilheiros que estávamos  em Luanda. Foi um grande jantar que tivemos, isto em 1978.

 

Foi o último encontro com os guerrilheiros? 

Foi a despedida (choros!). Nesse dia eu tinha bebido já um licorzinho e estava feliz da vida (risos), tanto que pus-me a gozar com ele. "Camarada Neto de Catete, matabicham batata doce, funge de batata doce com rama de batata doce e jantam batata doce com ginguba torrada", e ele sempre a responder "nunca mais, eu ia pescar no rio Kwanza, minha casa era perto do de lá, ia pescar e dava o bagre à minha mãe, por isso, não era rama com batata doce” (risos).  

 

E o que aconteceu nesse último almoço que ele organizou?

Eram mesmo só conversas, anedotas, canções, histórias, lembranças da guerrilha. De 1975 até 1978 ele já não  podia ver todos os guerrilheiros, isto porque para ir ao Palácio era preciso pedir licença, entra, não entra, vistorias  e mais. Ele ficou com  saudades  e organizou um jantar na Sapú, aliás, almoço ajantarado, porque começou com um almoço que terminou noite dentro.

 

Como soube da morte do Presidente  Agostinho Neto e como reagiu?

Eu sabia, trabalhava no Gabinete, sabíamos que ele tinha sido evacuado, aliás, vou contar um momento. Quando houve o fraccionismo, em 1977, fomos obrigados a sair do Palácio e pararmos no Futungo. Agora, em 1978 estávamos a trabalhar mesmo no Gabinete dele,  e um belo dia fui  levar uma mensagem ao camarada Neto, e ele ficou a olhar para mim a conversar, e olhei para ele e perguntei: " Camarada Neto, o camarada está bem?”. E ele disse que sim, mas quis saber o porquê da pergunta. E eu disse: "Não, é que o camarada Neto está meio  abatido e está com os olhos muito pálidos e amarelos". Nesse dia Neto não entrou mais no Gabinete para ir trabalhar. Resolveu ficar a fazer os despachos em casa.

 

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