Reportagem

Agostinho Neto era o símbolo da unidade

Santos Júnior, Dionísio Rocha e Manuel Claudino "Manuelito" são referências da música angolana que partilharam momentos com o Guia Imortal da Revolução Angolana e estiveram disponíveis para recordar alguns momentos passados com o Fundador da Nação Angolana.

17/09/2022  Última atualização 07H10
© Fotografia por: Arquivo

Sendo todos pessoas ligadas aos ritmos e melodias, na parte final da nossa conversa disponibilizaram um pequeno inventário de canções inspiradas nos poemas de Neto e outros que tiveram como base os ensinamentos e feitos do Pai da Nação

  Santos Júnior
"Ele era um Presidente de facto"

O autor do sucesso "Estrangeiro", dentre outros temas inspirados nas palavras de ordem do Presidente Neto, que também celebra o seu aniversário no dia 17 de Setembro,?começou por falar dos primeiros poemas por ele musicados. Santos Júnior disse que " quando em 1974 o MPLA chegou, estávamos integrados na JMPLA, fomos buscar pessoas que já tocavam e criamos o agrupamento musical Kissanguela. O Presidente Neto teve conhecimento e foi-nos chamando para certas actividades. A primeira foi precisamente em Benguela, antes da independência, ele gostou e depois andamos para muitas províncias e no estrangeiro”.

Quanto a digressões no estrangeiro, Santos Júnior recorda com saudades a ida, em Julho, a Maputo, para os festejos da Independência de Moçambique, a São Tomé e Príncipe e a Guiné Conacri. Neste último país, lembra que a deslocação foi para brindarem uma conferência de Chefes de Estado africanos e os elementos do Kissangeula foram hospedados no Palácio do lendário Presidente Sekou Toure e tocaram com o grupo local constituído por velhas bibliotecas da música local. Santos Júnior detalha o que aconteceu em Conacri. "Quando terminamos a actuação fomos para os nossos quartos. Para nosso espanto, mais tarde chegou o Carlitos, o guarda-costas do Presidente Neto, bateu a nossa porta e disse que o Presidente estava a chamar-nos. Minutos depois encontramos Neto, que nos disse sentir-se orgulhoso, porque os seus homólogos gostaram da nossa participação. Depois falamos do país e encorajou-nos para continuarmos a estudar e prometeu que alguns de nós iríamos para Cuba. Também falou de Bonga e na altura dizia que deveríamos fazer tudo para ele ficar connosco, porque Bonga é angolano como outro qualquer”.

Falando de outras particularidades de Neto, realçou que "ele gostava muito de contar cenas, era uma pessoa profundamente humana, grande patriota e gostava muito dos jovens. Conversava com todos e não se notava nele qualquer sinal de cinismo. Era uma pessoa de uma franqueza cristalina. Não gostava de separação, ele era um Presidente de facto".

Santos Júnior afirma que depois da morte Neto, infelizmente, alguns músicos foram ostracizados pelo poder politico, mas tudo começou antes na JMPLA. "Tentaram acusar-nos de fraccionistas  e só não morremos porque Neto interveio, mandando o Camarada Mbinda cuidar de nós. Essas pessoas impediram a nossa ida a Cuba no Festival Internacional da Juventude e inviabilizaram a nossa bolsa de estudo, enfim tudo começou ai".

Sempre atentos às palavras de ordem de Neto é assim que "peguei ‘cada cidadão é e deve sentir-se necessariamente um soldado’ para mobilizar os angolanos a lutarem contra as tropas invasoras do então regime racista da África do Sul. O Artur Adriano também transformou em música o slogan ,Angola é por vontade própria trincheira firme da revolução em África, e que ‘no Zimbabwe, na Namíbia e na África do Sul está a continuação da nossa luta’. Nós estávamos integrados na Jota e tivemos de agarrar nas palavras de ordem e transformar em música”.

Recordou que com isso no passado os cidadãos sentiam-se verdadeiramente soldados da Pátria, diferente da situação actual, onde cada um quer ter protagonismo e tirar vantagens pessoais. E nesta perspectiva "lembro-me de termos ido à campanha da colheita do café, na Gabela e no Uige,  na campanha da cana-de-açúcar, no Bengo, na Fazenda Tentativa. Quando Neto falou que ‘a agricultura é a base e a indústria o factor decisivo’ fizemos disso música para mobilizar as pessoas para a produção e são estas coisas que devíamos aproveitar neste momento de crise global de alimentos. Olha que até fiz uma música com o título agricultura. Já não toca e não sei a razão nesta fase que se fala muito da agricultura. Poderia ser um incentivo para o cidadão ir ao campo".

  Manuel Claudino "Manuelito
"Grito da Independência é uma homenagem a Neto "

Manuelito começa na mesma linha de Dionísio Rocha. "Quando na minha tenra idade os mais velhos falavam de Agostinho Neto, médico que tinha um consultório, uma casa de madeira na estrada da Brigada, conheci o senhor Zito, o enfermeiro que o acompanhava. Depois foi para a cadeia e nessa altura não tinha fixado o seu rosto".

A voz do "Grito da Independência” recorda os dias que precederam o 25 de Abril de 1974, quando soldados portugueses começaram a entregar as armas e nas conversas dentro dos quartéis da tropa colonial falavam de Agostinho Neto como líder do MPLA. Mas tem como marco da relação com o Guia Imortal no dia 4 de Fevereiro de 1975. "Este foi o regresso triunfal do Dr. António Agostinho Neto, nós estávamos na JMPLA e no quadro da calendarização de uma actividade, nós os Kissanguelas nos deslocamos de carro para Benguela. Ficamos em casas de camaradas que disponibilizavam quartos e outros no comité do MPLA, dos quais eu, Calabeto e outros. Lembro que estávamos a dormir quando Neto chegou na companhia do comandante Kassanji, que abriu a porta, para explicar a grave situação que se estava a viver, pusemo-nos em prontidão e não voltamos a dormir. Nesse encontro recordo que na actividade no campo ele orientou a segurança para movimentar um branco que estava numa torre de iluminação do campo, num ponto estratégico, para um iminente ataque. Ele tinha uma arma telescópica e identificou-se como elemento da FUA-Frente Unida de Angola. Este depoimento foi para falar do primeiro contacto directo que tivemos com Neto”.

Manuelito fala ainda de outro momento. "Deslocámo-nos a Ndalatandu e paramos no Dondo, mas como aqui ocorreram algumas escaramuças, mataram o Valódia, Nelito Soares e foi quando Neto declarou ‘resistência popular generalizada’ e nós imediatamente tivemos que regressar a Luanda. Demos cumprimento à palavra de ordem e então fomos alistar-se na tropa".

Faz uma relação entre o alcance das balas e as mensagens das músicas de intervenção. "Fomos criando canções com as palavras de ordem do Presidente, havia pessoas que diziam que éramos um conjunto panfletário, mas o que fazíamos era uma forma de consciencializar o povo para a luta e neste aspecto fomos bem sucedidos. Naturalmente foram ocorrendo muitas coisas, a bala de um combatente se calhar podia atingir cinco quilómetros, mas a música atingia toda a Nação”.

Das directrizes de Neto transformadas em música falou do tema dedicado à alfabetização, uma composição de José de Piedade Agostinho, nessa altura coordenador da JMPLA. "Esta música continua actual”, diz.

As presenças nas proclamações das independências de Moçambique e de São Tome e Príncipe, Manuelito tem também momentos inesquecíveis. "Em Maputo ver o erguer da bandeira de Moçambique, depois da retirada da portuguesa, teve um sabor especial. Em São Tomé e Príncipe fomos recebidos por Manuel Pinto da Costa, na delegaçao estava o David Zé, que tinha acabado de se casar com uma santomense, o Santos Júnior, que tem filhos que o padrinho é Pinto da Costa. Há um episódio durante a actividade. Estava a tocar um grupo de Sáo Tomé e Neto pediu para colocarem o grupo Kissanguela, dizendo ‘camarada Pinto da Costa coloca o meu conjunto’. Nós nos rimos, porque estávamos no espaço alheio e penso que ele só aceitou porque Neto era o mais velho".

Outro incidente vivido foi em Cabo Verde.  "Fomos dar uma volta e depois demos conta da hora da nossa actividade e como estávamos de traje liberal o protocolo não permitiu a nossa entrada na actividade. Um membro da nossa delegação foi informar ao camarada Hermínio Escórcio, responsável do cerimonial do Presidente, e só assim entramos". Com Neto recordou ainda as idas a Argélia, Concari e Bissau.

Falando do tema "Quero dedicar-te um poema", interpretado por Calabeto, esclareceu que "depois da morte de Neto, um nosso camarada, Mário Jorge Fernandes, que esteve ligado à arbitragem no futebol, fez a composição e deu ao Calabeto. Fomos ao estúdio e gravamos com muita tristeza, numa fase em que outros temas iam surgindo, como o de Matadidi, Tabonta e outros".

"Grito do Independência é uma homenagem a Neto, porque foi ele que proclamou a nossa soberania, ele lutou, libertou e foi quem assumiu as responsabilidades para a independência, a 11 de Novembro de 1975. O Grito surgiu para recordarmos que houve uma independência de facto e que não íamos destrui-la por nada deste mundo. Como havia a necessidade de preservar e lutar pela nossa independência com todos as nossas forças, então surgiu o ‘Grito da independência’ em Angola Popular".

  Dionísio Rocha
Tinha um "Samba Chegou” quando musicou ‘A hora da partida’

O músico Dionísio Rocha surpreendeu revelando um lado pouco conhecido dos Negoleiros do Ritmo. "Olha, depois do fim da relação com o Kissanguela, chamavam-nos para tocar. Não sabemos o que aconteceu, mas para momentos restritos éramos convidados e penso ser a primeira vez que falo disso publicamente. Quando eram visitas grandes ficava com a Secretaria da Cultura, mas em almoços e jantares nós levávamos vantagem, porque éramos cinco elementos e as vezes Neto não queria muito barulho. Geralmente tocávamos temas do Ngola Ritmos, uns sambas que reservávamos para o inicio, na hora do jantar, e tinha um tema ‘Chegou a hora da partida’, que quando ele percebesse que tinha de acabar, fazia um sinal. Esses encontros aconteciam na casa protocolar número dois, a seguir à antiga DEFA”.

O nosso interlocutor recorda o seguinte: "a última vez que estivemos com Neto foi quando recebeu jornalistas, não sei se britânicos ou americanos, e ele deu uma memorável entrevista. Isso marcou-me profundamente, porque Neto deixou expresso que Angola ‘é como um corpo inerte, onde cada abutre vem debicar o seu bocado’. Dionisio Rocha lembra as passagens pelo Cunene, Malanje e Uige, por sinal as últimas antes da ida do Presidente Neto para a União Soviética, onde veio a falecer a 10 de Setembro de 1979. "Dessa fase lembro quando Neto disse que ‘alguns de nós podem tombar na próxima esquina, mas a revolução vai continuar a sua marcha triunfal ao lado dos povos que seguem o mesmo caminho’".

Para este depoimento, Dionisio Rocha revive ainda os primeiros contactos com o jovem médico regressado de Lisboa, com consultório na zona do São Paulo e no Marçal, próximo do Giro Giro. "Na altura havia um circo onde apareceu o Pipof e ele frequentava com a família para assistir aos espectáculos de variedades. Depois soube que a policia política o tinha prendido no consultório de São Paulo, numa operação dirigida pelo próprio director da PIDE em Angola, São José Lopes”.

Matadidi Mario fala de "Um minuto de Silêncio" 

"Eu estava no avião a caminho do Bié,  quando o comandante anunciou que o Camarada Presidente Agostinho Neto tinha falecido. Foi num sábado e eu queria voltar para Luanda, mas não podia. Tive depois de apanhar uma avioneta até ao Huambo. Posto lá, consegui embarcar para Luanda, o corpo de Neto estava no actual salão nobre do Governo Provincial, mas eu não tinha credencial para entrar. Na segunda-feira, meti-me na rua que vai para o Ministério da Defesa, porque o desfile fúnebre saiu da Mutamba para o Palácio e quando cheguei, vi todo o povo a chorar. Esta foi a segunda vez que fiz um tema sem repetição, as palavras brotavam no momento. A música foi feita no Prenda, onde eu morava. Enquanto Lúcio Lara ia falando, eu ia criando”.

Poemas interpretados

Ruy Mingas foi um dos pioneiros, quando ainda antes da Independência deu voz ao ¨Adeus à Hora da Largada¨. Este poema tem uma réplica em Kimbundo, na voz de Dom Caetano, artista que no início da carreira se notabilizou como trovador com o companheiro Zeca Sá e cantaram poemas de Neto.

Zé Kafala foi feliz, transformando "Renúncia Impossível" num autêntico sucesso. Para que se tenha a percepção do impacto desta música, ela venceu festivais da canção política e conquistou vários outros concursos musicais e também consagrou Zé Kafala como vencedor do Top dos Mais Queridos.

Duo Canhoto, com "Partida para o contrato" também marca esta apropriação dos poemas de Neto. Este grupo é dos mais ousados em recuperar poesias de Neto para a música.

Outro nome que se notabilizou e continua a ser uma referência, quando o assunto é tornar a poesia de Neto em música, é Armando Carvalho, com o arrepiante ‘Assim clamava esgotado’, conhecido como ‘Não direi nada’, um poema que aborda saudades, amor e sentimento de liberdade. Belita Palma também emprestou a sua voz à poesia de Neto, ao interpretar ‘Caminho do Mato’. No inicio dos anos 80, um grupo de pioneiros pegou em ‘Aspiração’.

Dessa fase de recuperação de poemas de Neto importa também falar de traduções que conquistaram os angolanos e, neste ponto, Mito Gaspar fez uma ponte perfeita, casando ritmos tradicionais a sonoridades mais modernas.

A tradução para Kimbundo dos poemas "Havemos de Voltar" e "Renúncia Impossível" em "Hadia Tu Vutuka" e "Eme Nzambi Muenhu" confirmam esta faceta e grande mérito do malanjino Mito Gaspar. "Hadia Tu Vutuka” marca a trajectória de Mito Gaspar, pois no longínquo ano de 1983 conquistou o Primeiro Festival da Canção Politica. Na época fazia parte do Trio Henda, em representação da província da Huila.

Olha que também cantores mais jovens recuperaram Neto, penso que não foi por acaso a passagem de Kizua Gourgel, porque ele cantou "Velho Negro", música que podemos ouvir no disco ‘Vozes para Nguxi’, produzido pela Fundação António Agostinho Neto e coordenado por Matias Damásio, que canta ‘Um Bouquet de Rosas para Ti’. Neste disco ainda encontramos ‘Meia-noite na Quitanda’, com Gabriel Tchiema, ‘Para Enfeitar os teus Cabelos’, na voz de Sandra Cordeiro, ‘Confiança’, com Kanda, e outros poemas cantados por Tonicha Miranda e Father Mak.

Vários poemas lidos nas obras Sagrada Esperança e Renúncia Impossível podem ser escutados nas vozes de músicos nacionais e estrangeiros como Manu Dibango em ‘Havemos de Voltar’.

    Neto como inspiração

O Conjunto Nzaji onde "o Dr. Neto deixou o seu contributo em finais dos anos 60 num dos primeiros registos”.

Mais uma vez são chamados os Kafala Brothers, José e Moisés, em ‘Nguxi’, tema marcante que tem o coro "Welela Wele”. Nguxi espalhou pelo mundo temas saídos na primeira metade dos anos 80 do século passado, um pouco depois da fase mais produtiva:  finais dos anos 70 e início dos anos 80 foi o mais produtivo, fruto do contexto que se vivia. Luta de Libertação, Independência Nacional e da morte de Neto..

Elias dya Kimuezo tem nos temas "Agostinho Neto" e "Dipanda Didi Diolo Kuiza". Jones Manuel e Santos Júnior retomam as palavras de ordem, respectivamente em "Vamos Produzir" e "Cada Cidadão". Matadidi tambem fez o mesmo em o "Camarada Presidente disse", num apelo à vigilância, à produção e outras metas que foram traçadas no I Congresso do MPLA, em 1977. Mais um dos cantores que recupera palavras de Neto e faz diferente, com uma crítica ao sistema da altura, foi Pedrito em "Militante".

O Poeta, o povo e a liberdade de Uassunga Jones e "Presidente" de Mário Gomes são outros temas que pintam musicalmente o Kilamba no imaginário sonoro angolano. Os cabo-verdianos não ficaram de fora. É sabido que Agostinho Netp enquanto preso exerceu medicina neste arquipélago e o reconhecimento está na voz de Tonccas Marta. Urbano de Castro também canta "Camarada Presidente", numa música multilingue Kimbundu e Francês, exaltando a revolução.

Calabeto não está de fora, com"Quero fazer-te um poema", canção que aborda os ensinamentos do Poeta, e em "Camarada Presidente", onde faz um dueto com Belita Palma. Esta senhora tem "Kilamba" e "Kalakaleno", conhecido como "Nguxi", que ganhou um novo público na versão da Banda Nguxi. Em "Kilamba", Dina Santos é outra voz feminina que se doa para Neto.

Tonito Fortunato,  Voto Gonçalves,  Prado Paim, Lito Júnior, Artur Adriano e Tino dya Kimuezo, em "Tala Banza Presidente Neto", "Kilamba Neto", "Povo Angolano fica a chorar" e "Presidente" trazem momentos de grande sofrimento pela morte de Neto.

Para fechar, Matadidi Mário e Tabonta, em " Minuto de Silêncio", e "Wele Neto Tuna Yandi", seguramente conseguiram transportar o momento da morte do Presidente para várias gerações. Aliás, são temas obrigatórios em Setembro.

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