Política

Agostinho Neto é uma figura acima do seu tempo

Geraldo Quiala

Jornalista

Francisco Topa, professor português associado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto (Portugal), afirmou que, como acontece com todas as grandes figuras, há em torno de Agostinho Neto uma base mínima em que todos concordam e há um conjunto de aspectos – relacionados, sobretudo, com a faceta política, particularmente na qualidade de presidente do MPLA e de Angola – que suscita discordâncias, em geral dependentes do modo como cada um se situa no plano político-ideológico.

22/05/2022  Última atualização 12H35
Professor Francisco Topa diz que Agostinho Neto liderou o país num momento político difícil © Fotografia por: DR

"E, mesmo que os seus detractores mais activos usem por vezes argumentos falaciosos e informações equivocadas ou distorcidas, as suas opiniões devem ser respeitadas, como tem de resto acontecido. Com a aproximação do Centenário do nascimento de Neto, devemos, porém – aqueles que o admiramos e o reconhecemos como uma figura de excepção – argumentar com serenidade, investigar e esclarecer muitos aspectos da obra ainda mal conhecidos e, acima de tudo, fazer um esforço sério para que o conhecimento assim produzido fique consolidado junto do grande público”, defendeu ao Jornal de Angola.

Para o responsável, desde 2019, pela Cátedra Agostinho Neto da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, didacticamente, o primeiro Presidente de Angola, independentemente dos erros políticos que possa ter cometido, é uma figura acima do seu tempo: "porque esteve do lado mais difícil, mais incómodo e mais incerto da vida – primeiro abraçando a Poesia e a Medicina como causas e como formas de luta; depois trocando a Poesia e a Medicina por uma liderança político-militar de risco, num contexto internacional particularmente volátil; por outro lado ainda, porque liderou a Independência de Angola e conduziu a sua administração naquele que terá sido até hoje o período mais difícil da sua história. Qualquer discussão séria sobre a sua figura não pode, pois, esquecer esses factos”.

Na óptica do professor de Literatura e Cultura Brasileiras, Crítica Textual, Literaturas Africanas e Literaturas Orais e Marginais, deve-se, também, destacar uma particularidade angolana pouco comum, que é bem conhecida, mas pouco referida: "Angola é um país que teve um Presidente poeta. Não são muitos os casos idênticos: em tempos mais próximos, podemos lembrar o caso de Václav Havel, primeiro na Checoslováquia, depois na República Checa. Antes dele, no Senegal, tinha havido Léopold Senghor. Também Portugal, na I República, tivera Manuel Teixeira Gomes e, na I dinastia, D. Dinis, de quem todos recordamos pelo menos a bela cantiga ‘Ai flores, ai flores do verde pino’”.

Francisco Topa questionou: "Se pusermos Agostinho Neto ao lado desses quatro nomes, que observamos?”. Mais adiante, o crítico textual reafirmou que, relativamente aos três primeiros, se nota um idêntico compromisso com o seu povo, com a independência, mas também com as grandes causas universais.

Analisou o que chamou de "a coragem de tentar passar da teoria à prática, enfrentando a luta entre o ideal e o possível. Quanto à comparação com D. Dinis, as flores são outras ("Um bouquet de rosas para ti”) e o amigo é também outro ("Mussunda amigo”)”.

O autor de mais de 180 trabalhos nesses domínios publicados sublinhou que as pessoas não se podem resignar com o que se sabe de Agostinho Neto: "devemos ir mais longe, cobrindo outros campos e fazendo perguntas que ainda não foram feitas. Darei apenas alguns exemplos”.

Neto revolucionário

Segundo Francisco Topa, num texto de homenagem publicado alguns dias depois da morte de Neto, destacou Óscar Lopes – professor, ensaísta e resistente português, que com ele estivera detido na cadeia da PIDE do Porto – a sua faceta de comunicador, capaz de transmitir "tudo o que só um revolucionário em perfeita e longa sintonização com o seu povo sabe ser necessário dizer-se, numa hospitaleira camaradagem que se sentia decorrer em casa sua”.

"Ora, que eu saiba, não há nenhum estudo aprofundado sobre Agostinho Neto orador. E não falta material: há textos, há gravações áudio e vídeo”, disse, apontando que, no plano literário, está por fazer um levantamento sistemático dos poemas do antigo líder do MPLA publicados na imprensa e da recepção que os acompanhou.

Quando isso for feito, sustentou Francisco Topa, haverá certamente surpresas, idênticas àquela que teve quando encontrou o que julgou ser o primeiro texto crítico sobre a poesia do autor de Sagrada Esperança: trata-se de um artigo de Mário António Fernandes de Oliveira publicado em O Brado Africano, da então Lourenço Marques, a 12 de Maio de 1951, sob o título "Agostinho Neto, poeta de Angola”.

Numa abordagem do professor da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, diz-se que o jovem crítico (Mário A.F. de Oliveira), que acabara de completar 17 anos, considera então Neto "um dos nomes mais representativos da nova geração angolana”, um "poeta de incontestável personalidade”, com uma poesia "forte, ampla, esperançosa, humana”. Reiterou que falta também aprofundar o estudo das relações de Agostinho Neto com outros autores. Considerou estranho, por exemplo, que nunca seja referido o impactante poema que o grande escritor nigeriano Chinua Achebe lhe dedicou, intitulado "Agostinho Neto” e que termina desta maneira: "Neto, I sing your passing, I,; Timid requisitioner of your vast; Armory’s most congenial stores. What shall I sing? A dirge Of gloom? No, I will sing tearful songs Of joy; I will celebrate The Man who rode a trinity; Of awesome fates to the cause; Of our trampled race! Thou Healer, soldier and poet!”

Há homenagem mais expressiva e mais importante?, indagou Topa, para depois explicar: "a própria morte de Agostinho Neto tem ainda coisas a dizer-nos. Não estou a pensar em nenhuma das muitas teses conspirativas que então circularam, mas apenas no modo como o tema foi representado na imprensa. Acabo de publicar um volume sobre o tema, considerando os jornais de Portugal e fiquei surpreendido com o facto de o tema ter assumido tão grande repercussão: muitos dos jornais fazem da notícia tema de capa durante vários dias; é grande o espaço dispensado às reacções de personalidades, partidos, organizações sindicais e de outro tipo; são muitos os editoriais e as colunas de opinião que se pronunciam sobre o acontecimento; e são significativos – pelo conteúdo e pelos seus autores – os textos que homenageiam o defunto presidente”.

Na visão do portista, nascido em 1966, são muitos os caminhos sugeridos pela figura e pela obra de Agostinho Neto, que continua viva e a interpelar todos. Por isso, o professor associado da Faculdade de Letras da Universidade do Porto concluiu que "cabe a cada um continuar a estudá-la, dando-a também a ler e a ver aos outros”.

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