Política

“Agostinho Neto ainda inspira os angolanos”

César Esteves

Jornalista

O professor angolano de História de África Bruno Kambundu considerou que apesar do pouco trabalho de divulgação, Agostinho Neto ainda inspira os angolanos.

17/09/2021  Última atualização 09H05
© Fotografia por: DR
O historiador disse ser possível ver, nos dias de hoje, sobretudo nos jovens, marcas das três dimensões de Neto, nomeadamente "a de estratega político, visionário humanista e homem de cultura”.    

A entrada de muitos jovens na política e a envolvência de outros em actividades culturais é, para o académico, reflexo das qualidades do primeiro Presidente angolano.  "Neto ainda inspira os angolanos”, realçou o historiador, para quem a juventude, de uma ou de outra maneira, está incrustada numa das três dimensões de Neto.

Bruno Kambundu defendeu a necessidade de se divulgar, cada vez mais, a figura de Agostinho Neto não apenas em dias que antecedem o seu aniversário, mas, também, em outros períodos, para que a juventude, e não só, adquira conhecimentos mais alargados sobre a importância, valor e significado de Neto na vida dos angolanos.

Docente da cadeira de História de África no Instituto Superior de Ciências da Educação de Luanda (ISCED) e coordenador da Repartição dessa disciplina naquela instituição, o académico reconhece o trabalho de divulgação da figura do primeiro Presidente de Angola levado a cabo por algumas instituições do país, todavia disse ser pouco, dada à dimensão tridimensional de Agostinho Neto, nomeadamente "a de estratega político, visionário humanista e homem de cultura”.    

"É necessário que todos os esforços sejam feitos, de modo que as pessoas percebam, cada vez mais, a importância de Neto nas nossas vidas”, frisou.Bruno Kambundu ressaltou que essa empreitada pode ser feita através de realizações de actividades culturais e desportivas, capazes de perpetuar Neto na vida dos angolanos, não só na academia, como, também, no ensino médio e primário."Neto é um património dos angolanos e a grande figura da luta que nos levou à Independência”, destacou.Referiu que Agostinho Neto é, além de herói da Independência angolana, uma das principais figuras da História de África, fundamentalmente da segunda metade do século XX.

O historiador disse haver muitas formas de levar a juventude a conhecer mais Agostinho Neto. Tal como se realizam vários prémios para determinadas personalidades, Bruno Kambundu defende, para divulgação da figura do primeiro Presidente de Angola, a realização de mais actividades sobre as suas produções, sobretudo os discursos e trabalhos enquanto escritor. "Sabe-se que, para Agostinho Neto, existe um prémio sobre Ciências, mas é num âmbito muito formal e intelectual”, frisou. Em função disso, Bruno Kambundu é de opinião que essas actividades sejam baixadas, também, ao nível do ensino médio e primário. "Neto é uma figura não pertencente só às instituições formais”, realçou.O historiador defende, por isso, mais divulgação da figura de Agostinho Neto, principalmente junto da juventude, para se evitar o risco de cair no esquecimento. Bruno Kambundu quer ver reavivada a figura de Neto em outros períodos, com novas inspirações e visões sobre as suas obras, como forma de se continuar a marcar a vida dos angolanos.

O valor das três dimensões de Neto

O historiador Bruno Kambundu, fazendo uma viagem às três dimensões de Agostinho Neto, disse que, na vertente política, mostra, "e é uma ideia que os jovens podem seguir”, a necessidade de se acreditar nas crenças, de lutar até ao fim e de ter, sempre, a esperança.No capítulo social, o historiador disse que Agostinho Neto foi um servidor das sociedades. "Enquanto médico, conseguiu exercer a profissão, ao mesmo tempo que esteve a trabalhar na clandestinidade. Isso para nós é importante”, destacou.

Já na esfera cultural, o académico sublinhou o facto de Agostinho Neto não se esquecer da necessidade do resgate da identidade africana, de uma maneira geral, e da angolana, em particular. "Se conseguir perceber, na perfeição, o Havemos de Voltar, notará que Neto procura ressuscitar os hábitos e costumes dos africanos, em particular dos angolanos, que estavam a desaparecer”, aclarou.Essa pretensão de Agostinho Neto, disse, ficou consumada quando, depois da Independência de Angola, a 11 de Novembro de 1975, reavivou a história do Carnaval.Bruno Kambundu considera o "Havemos de Voltar” a maior proposta de Neto, por continuar intemporal.
Fórmulas para entender Neto

O historiador disse que uma das fórmulas para se entender Neto passa por viajar no contexto em que esteve inserido. Entendê-lo fora desse contexto, alertou, é difícil."E dentro do contexto em que viveu e se produziu é, provavelmente, das figuras mais interessantes de se entender”, frisou.O académico adiantou que outra forma de perceber Neto passa por andar na sua tripla dimensão, por estarem entrelaçadas. "Essas dimensões casam-se e acabam por fazer um homem novo, proposta que os angolanos sempre procuraram, quando lutaram para o alcance da Independência”, salientou.
Local de nascimento

O historiador defende um maior aproveitamento da localidade de Kaxicane, Icolo e Bengo (hoje pertencente a Luanda), por ser a zona onde Agostinho Neto nasceu. Sugere a ideia de se fazer daquele espaço um marco. Disse que Angola tem recebido, nos últimos tempos, muitos estudiosos que se deslocam ao país para perceber o período da transição para a Independência. "E, para perceber este período, tem de se conhecer Neto”, frisou. O historiador ressaltou que o reaproveitamento de Kaxicane impulsionaria o turismo cultural naquela zona e elevaria ainda mais a imagem de Neto.O não aproveitamento do espaço, alerta o académico, pode criar intermitência naquilo que é a preservação da figura de Neto.
Centenário de Neto

Bruno Kambundu referiu estar a par de alguns passos relacionados aos preparativos do centenário de Neto, a assinalar-se no próximo ano, mas disse notar falta de uma envolvência forte da sociedade civil. "Parece haver apenas instituições formais”, destacou. No seu entender, a figura de Neto "não deve ser restringida a este fórum”, tendo, por isso, defendido o envolvimento de outras franjas da sociedade no processo de organização das celebrações do centenário.  

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