Opinião

Agenda americana para África

Editorial

"Quero ser claro: os EUA não querem limitar as vossas parcerias com outros países", disse o secretário de Estado, Antony Blinken, há dias, na Nigéria, desmistificando leituras que colocam, em sentido figurado, África na condição de capim ante a luta entre a China e os Estados Unidos, na posição de elefantes.

20/11/2021  Última atualização 08H20
O chefe da diplomacia americana, que efectua uma digressão pela África subsaariana, parece ter vindo para reafirmar a agenda da Administração Biden para com o continente, numa altura em que as interpretações e posicionamentos insinuam uma África à mercê das potências mundiais.

A experiência do passado, pouco depois das independências, em que os Estados recém-emancipados tiveram que fazer escolhas entre os países de orientação socialista e os países capitalistas, provou que tais condicionalismos atrasaram sobremaneira o continente.

Muitos países, entre eles Angola,  viveram "na pele" os efeitos da guerra por procuração, no quadro da Guerra-Fria, que as potências mundiais travavam, ao ponto de armarem grupos rebeldes, que se opunham aos Governos internacionalmente reconhecidos.

Muitas vezes, as ajudas económicas e financeiras, o acesso aos mercados mundiais e às instituições financeiras internacionais, eram condicionados pela forma como os países africanos se alinhavam ou não ao lado das duas grandes potências de então, a ex-URSS e os Estados Unidos.

Independentemente do Movimento dos Não-Alinhados, que procurava ofertar uma espécie de neutralidade na peleja política, diplomática, económica, cultural e até militar entre as duas superpotências, muitos países africanos "foram obrigados" a tomar partido e com todas as consequências.

Hoje, à medida que se agudizam as rivalidades económicas e até militares entre a China e os Estados Unidos, muito provavelmente alguns países "serão obrigados" a alinharem-se, sob pena de serem confrontados com a realidade segundo a qual "quem não está a favor, está contra".

Esperemos que as palavras do chefe da diplomacia americana, dirigindo-se aos países africanos, segundo as quais "queremos reforçar ainda mais as nossas parcerias. Não queremos que façam uma escolha. Queremos dar-vos escolhas. A nossa abordagem será sustentável, transparente e orientada para o valor", sejam, efectivamente, parte activa da nova agenda do Presidente Joe Biden.

África, independentemente do estádio de desenvolvimento que apresenta, precisa de ser tratada como parceiro em pé de igualdade, como disse o secretário Blinken, quando reconheceu as reservas e desconfianças dos países africanos pela forma  como são tratados, nas parcerias que estabelecem.

Obviamente que, para bem da paz e segurança internacionais, é de todo  interesse que as rivalidades sino-americanas não se transformem num simples jogo de soma zero, em que a perda de um resulte necessária e obrigatoriamente na perda do outro, mas sejam geridas em nome dos ganhos mútuos, com reflexos nos parceiros africanos.

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