Opinião

África nossa

Arlindo dos Santos

Jornalista

Iniciei esta prosa, precisamente no dia de África, 25 de Maio, terça-feira.Na janela da sala,num cantinho adaptado para o meu local de trabalho, batia nessa hora e nos dias que se seguiram, um sol quente, radioso, um sol europeu que nada fica a dever, em termos de calor, àquela quentura que consideramos tipicamente africana.

30/05/2021  Última atualização 08H45
Àquela canícula que se faz sentir em certas regiões de Angola, cada vez mais quentes e com características climáticas próximas das mais cálidas do continente. Tem sido um sol que irrompe, brilhante, contra as vidraças, ultrapassando-as e enchendo não apenas a sala mas também a minha alma, de uma esperança de vencer as crises, nomeadamente as consequências dos escândalos que se abatem sobre nós, factos vergonhosos que nos fazem sofrer e nos vão desgastando e matando.

O preocupante registo da subida de casos e de óbitos diários associados à Covid-19,  os surtos de paludismo e febre tifóide, o lixo acumulado, tudo isso a fazer aumentar drasticamente a nossa tristeza; os assaltos, raptos, estupros e assassinatos transformaram Luanda numa cidade ainda mais perigosa do que já era. A cidade capital perdeu parte da sua identidade e já não é pedaço daquela terra boa para se viver, como fomos ao longo dos anos vaidosamente apregoando que era a nossa Angola. Infelizmente, ela é agora uma terra difícil, que amedronta porque se encheu de bandidos, dos mais vulgares aos de fina estampa. Infestam a cidade e o país, enchem tudo quanto é canto e são responsáveis pelas nossas vergonhas.

Visitei os acontecimentos da semana que integra o dia de África e face ao "golpe” magistral aplicado por um oficial das Forças Armadas, no caso, um major com ligações à banda de música da Casa de Segurança do Presidente da República, juntei-me aos compatriotas que admitem estarmos diante de um caso de enorme gravidade, um roubo consumado de modo incrível por um oficial proprietário de um invejável património. Cinquenta casas, um monte de carros e relógios de luxo, cravados a diamantes, dinheiro sonante em notas novas, fazem o retrato do jovem milionário apanhado em fuga rocambolesca. A história terá necessariamente outros protagonistas que, mais dia, menos dia, serão desmascarados. Esperemos que tal aconteça. Uma história que se não for bem contada prejudicará o nosso PR que, em meu entender, não merece que tal lhe aconteça. Contudo, há males que vêm por bem, e talvez agora dê mais atenção às denúncias que a sociedade faz e aos conselhos que se enviam e nos quais se diz que se torna urgente e necessário mudar-se de atitude no Executivo como no partido que detém o poder político, aceitar os erros e desmascarar os disfarçados que gravitam na sua esfera.

Mas a semana também registou coisas boas, com o Presidente João Lourenço a destacar-se. As cerimónias que tentam enterrar definitivamente a questão do fatídico 27 de Maio de 1977, conheceram uma atitude corajosa do Chefe de Estado, uma atitude que apenas peca por tardia. Ficou claro que o pedir perdão e apresentar desculpas não fica mal a ninguém. Só enobrece quem o faz. Sempre defendi publicamente esse princípio.

Estando nós a assinalar o Dia de África, ocorre-me perguntar. Qual o destino de África, o que construiremos a partir de agora? Esta pergunta fica subjacente nas conclusões das inúmeras cimeiras locais e continentais, sendo igualmente subentendida nas constantes reuniões, mesas-redondas, colóquios, cimeiras, oficinas do conhecimento, palestras e reuniões do género que se vão realizando a nível do planeta, sobre o futuro de África, nomeadamente de Angola. Agora, as lives, até há pouco tempo desconhecidas da maioria dos angolanos, tornaram-se autênticas "coqueluches” e fazem furor nas plataformas de eventos virtuais cujos conteúdos nos entram diariamente em casa pelos telefones, televisões e computadores, desde que saibamos manejar os dispositivos na procura dos sites que as transportam. Vivemos claramente num mundo das novas tecnologias. Qual o destino de África e de Angola, com tanta técnica disponível, porém com tantos lapsos cometidos, do nosso lado com tanta gente desonesta e perigosa a conviver tão próximo do nosso Presidente?

Inesperada e apesar de não causar surpresa dada a constância dos casos de peculato, de roubos e desvios que se tornaram "pão nosso de cada dia”, admito ter recebido uma pancada dura no meu já definhado entusiasmo, abalando seriamente o edifício que fui construindo há cerca de quatro anos, com uma argamassa que, apesar de preparada para aguentar com todos os lapsos, desvios e oscilações, me parecia suficientemente forte e compacta, cheia de componentes capazes de nos levar cedo para a normalidade da vida, e dali para o exercício da cidadania democrática. Acreditei e sonhei com esse passo de gigante, difícil de ser dado numa sociedade embrulhada e descaracterizada como se tornou a nossa. Era uma oportunidade para o comum cidadão ainda se integrar na vida da Nação. Para que eu, cidadão consciente, pudesse participar honestamente nela. Sinceramente, mesmo nos momentos mais difíceis da era João Lourenço, pensei sempre na garantia da defesa das nossas liberdades e na possibilidade de qualquer um de nós poder colaborar com o Executivo. Ainda não perdi a esperança.

Esperando por novidades, despeço-me dos prezados leitores. Até ao próximo domingo, à hora do matabicho.

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