Opinião

África nossa e a deles

Luciano Rocha

Jornalista

África é dos africanos, mas, também, por ora, daqueles para quem ela é apenas espaço para sacarem o que lhes convém, usando estratagemas vários, entre eles o paternalismo, das mais repugnantes formas de discriminação.

21/04/2022  Última atualização 06H30

África é dos africanos, no fundo os que menos beneficiam das riquezas que ela tem escondidas  no subsolo,  mares, rios, lagoas, às quais se juntam as que estão à vista nos desertos, montanhas, planícies e vales.

África é dos africanos, mas não tanto quanto devia. Limitam-se a ser, na generalidade, mão-de-obra barata, como sucedia nos tempos das escravaturas oficiais, clandestinas e "disfarçadas” em forma de "contrato”.

As consequências cruéis daquelas realidades são sobejamente conhecidas. Parte delas estampadas em números  divulgados por organizações internacionais. Que a pecar serão sempre por defeito, jamais por excesso. 

O director-geral adjunto e representante regional da ONU para a Alimentação  e Agricultura (FAO) revelou recentemente, que em 2021, no nosso continente havia acima de 281 milhões de pessoas  "expostas à fome”, mais 89,1 milhões do que em 2014. De então para cá, imagine-se se tal for possível - quantos a eles se juntam e sobreviveram.

As causas da fome daqueles africanos - velhos que nunca foram novos  e novos que não chegarão a velhos - são guerras, secas, enchentes, qualquer delas a provocarem deslocações de locais de habitação. Nenhum deles sabe o que são serviços de saúde. As plantas que lhes curavam febres, constipações, dores reumáticas, até dos espíritos maus foram levadas, sabem lá para onde.   

Em pleno século XXI, anunciado como o da modernidade, há seres humanos a morrerem, "à fome e sede”, no termo exacto das palavras que compõem a frase.  Porquê? Porque os camponeses são forçados a abandonar as terras submersas pelas chuvas que transbordaram rios antes do tempo de colheita, destroem pastos e  arrastam animais.

 No reverso da medalha, com faces aparentemente distintas, mas valor igual, há outro castigo, com desfechos iguais. Chama-se estiagem, com assinatura feita por gretas dos campos áridos, onde mirram seios de mães e esbugalham os olhos de crianças sem choro.

África parece ter uma espécie de íman. Que, desde séculos, atraiu cobiças, intrujões, salteadores que levaram sempre mais do que trouxeram e lhe viraram as costas sem se preocuparem em retribuir-lhe parte do que lhes ensinou 

África continua a sentir os efeitos da ingratidão. Por muito raramente lhe darem nada sem querem receber em doses duplicadas, mesmo quando os interlocutores  se apresentam com "falinhas mansas” ou inqualificáveis paternalismos. A falta de quadros qualificados com que a deixaram explica bem as mortes que ela regista. O surgimento do vírus que assola o mundo explica na perfeição o que eles pensam, o que querem. A situação tem, aliás, motivado reacções condenatórias, mesmo fora do nosso continente.

Os atrasos verificados em África praticamente em todos os sectores tem culpados, alguns dos quais tentaram, em momentos específicos, aproximarem-se dela. Quase sempre com dúbias intenções, como sucedeu no auge da crise económica e financeira internacional, para se porem ao fresco mal sentiram que ela também chegara até ela.

As contrariedades que afectam África não existiam se parte do mundo não primasse pelo egoísmo, oportunismo e olhasse para ela com olhos de gratidão, devedor, caloteiro que é.

Os africanos  não são seres extraterrestres, sequer exóticos, menos alinda inspiração de pinturas ou textos a roçar o folclórico, com marcas acentuadamente racistas.
África é dos africanos, embora, ainda, não tanto como há-de  suceder um dia.

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