Entrevista

Afonso Mkaka: “Ajudem-nos a ajudar Angola”

Armando Sapalo | Lôvua

Jornalista

Jovem dinâmico, inteligente e ambicioso. Estes são alguns dos adjectivos para qualificar Afonso Mkaka, angolano estudante da Universidade de Ciência e Tecnologia de Wroclaw, na Polónia. Freeman, como Afonso Mkaka é conhecido nos meios universitários daquele país, alcançou a nota máxima no curso de mestrado em Gestão e Engenharia de Produção, que lhe valeu um diploma de excelência. O facto inédito naquela instituição de renome mundial ganha maior relevância por ter sido alcançado por um estudante estrangeiro, designadamente de África. Usando as plataformas digitais, o Jornal de Angola entrevistou o jovem Afonso Mkaka, que revelou ao pormenor a sua vida académica e pessoal. Trata-se da sua primeira entrevista, depois de ter obtido a distinção académica na terra natal do Papa João Paulo II .

24/03/2019  Última atualização 13H59

Fale-nos da sua caminhada académica em Angola...

Fiz o ensino de base no colégio São Jorge e o ensino médio no Instituto Médio Industrial de Luanda, vulgo Makarenko, no curso de Máquinas e Motores, onde despertei também a minha veia em liderança juvenil. Fui o presidente da Associação dos Estudantes e promovi, com o meu elenco, várias actividades de carácter científico e palestras motivacionais. Fui secretário para os desportos, administração e património da Associação Provincial dos Estudantes de Luanda (APEL). Em colaboração com colegas da APEL, criámos o projecto Plano de Férias, para ocupar os estudantes durante o período de férias com alguma formação, com o objetivo de melhorar o seu aproveitamento. Outro dos nossos objectivos era prepará-los para o primeiro emprego, evitando assim o desemprego, a delinquência infanto-juvenil e a gravidez precoce. Este projecto foi um sucesso, desde a primeira edição. Formámos mais de 12 mil jovens, de modo grátis. Fui professor de inglês no Centro de Formação de Jornalistas (Cefojor), durante dois anos. Posteriormente, ingressei na Universidade Metodista de Angola (UMA), onde frequentei o primeiro ano do curso de Engenharia Mecatrónica.

Que avaliação faz do nosso sistema de ensino?

O Executivo tem envidado esforços para a melhoria contínua da qualidade de ensino no país e muito tem sido investido, com maior realce para as áreas das engenharias e da medicina, seja no interior seja no exterior do país. Mas ainda temos muito que fazer para subir os rankings mundiais. Temos de valorizar, saber aproveitar e incentivar os jovens de mérito, pois só assim iremos, proporcionalmente, influenciar os demais jovens. Ainda temos um longo caminho pela frente, temos motivação, é só ver o número de angolanos que estão a alcançar títulos e prémios inéditos no exterior do país, com maior realce para o Reino Unido, Rússia, Portugal e agora na Polónia. É hora do Executivo incentivar estas mentes brilhantes. Por exemplo, conheço pessoas que aqui no exterior são génios e muito respeitados, mas o nosso Executivo não diz nada sobre estas pessoas. Tão pouco as convida a regressar e integrá-las no mercado de trabalho para servirem o nosso país. Como consequência, acabamos por aplicar a massa cinzenta para o progresso de outros países, em troca de uma remuneração salarial para sobreviver. Ajudem-nos a ajudar Angola, pois juntos somos mais fortes.

No ano passado, obteve a nota máxima no curso de mestrado em Gestão e Engenharia de Produção. Tratou-se de um feito inédito na Universidade de Wroclaw e na própria Polónia. Quais foram os segredos para este feito?

Disciplina, dedicação, superação e comprometimento, pois a Polónia é um país que desde muito cedo apostou na ciência e tecnologias avançadas. Estudar com polacos, russos, ucranianos, indianos, portugueses e espanhóis foi um grande desafio. Mas, felizmente, com determinação e muita dedicação, fui eleito o melhor estudante do curso de mestrado em Gestão e Engenharia de Produção. Tratou-se de uma marca, em toda a universidade, com a nota máxima. De realçar também que, recentemente, terminei o curso de pós-graduação em Gestão de Projetos (curso que fazia aos fins-de-semana, desde o último semestre, enquanto frequentava o mestrado) com a defesa da monografia marcada para Abril próximo.

A discriminação racial tem sido um dos empecilhos para muitos dos estudantes africanos na Europa. Alguma vez sofreu discriminação racial?

Já sofri e foram muitas vezes, mas sempre as soube gerir. Na última, vez fui ao extremo, por ter sido atacado. Fiz uma denúncia ao Tribunal Provincial de Wroclaw, onde, depois de aproximadamente um ano, aconteceu o julgamento. O veredicto final foi a meu favor. Venci em tribunal e o agressor foi condenado a nove meses de cadeia.

O que representa para si o dia 15 de Dezembro de 2018?

O 15 de Dezembro de 2018 é a data em que me foi outorgado o diploma de mérito. Representa uma vitória para mim e a minha família, em particular, assim como para os angolanos no geral. Foi a prova de que o país tem rumo e os jovens angolanos não estão perdidos. Ao receber o diploma da mão do reitor, eu senti o peso da responsabilidade, mas acima de tudo me senti muito orgulhoso por saber que soube representar bem o nome do meu país. Este é o ponto mais alto da minha vida académica.

Passou a ser um exemplo para muitos estudantes angolanos no exterior. Como foi a sua adaptação e que apoios tem recebido em termos institucionais?

Viver fora do país requer uma educação de berço muito forte e, acima de tudo, comprometimento, responsabilidade moral e resiliência, porque há muitas tentações e distrações. No princípio, foi difícil, começando pela condição climática. Angola é um país de clima tropical quente e a Polónia é um país de temperaturas muito baixas. Por outro lado, a questão linguística. Esta foi, se calhar, a mais difícil, pois foram apenas sete meses de aulas de língua e a seguir comecei as aulas na universidade com polacos. Grande parte deles não falava nenhuma outra língua estrangeira. No que toca à gastronomia, não houve muitos problemas de adaptação. Não há apoios em termos institucionais, se existem eu desconheço. Apenas da embaixada, em questões consulares.

Desde a sua distinção, alguma instituição angolana mostrou interesse no seu trabalho ou em o contratar?

Não. Infelizmente, até a presente data, não recebi nenhuma proposta de nenhuma empresa angolana, quer pública quer privada. Manifestei interesse, enviei inúmeros curriculum vitae, mas infelizmente não tive nenhuma resposta. O que é uma situação infeliz e constrangedora. Quando vim para cá, longe da minha zona de conforto, do afecto e carinho da minha família, a missão era formar-me e regressar ao meu país com o intuito de ajudar no seu crescimento e sobretudo no seu desenvolvimento. Mas, infelizmente, não é esta a resposta que recebi e continuo a não receber da querida pátria, a que, apesar de tudo, nunca irei renunciar.

Durante a nossa conversa pelo Messenger, disse ser amante dos desportos?

Sim. Sou amante de desporto, com particular realce para o futebol americano, modalidade em que me sagrei bicampeão nacional da República da Polónia, pela equipa do Panthers Wroclaw.

Muitos dos melhores quadros africanos acabam por não regressar ao continente, depois da conclusão do respectivo curso. Quais são as suas perspectivas?

Estes quadros africanos não regressam aos países de origem por falta de políticas de gestão de quadros e de valorização dos mesmos. Acabam por ficar onde são aceites e tratados com dignidade. E esta é uma característica humana. Longe de egoísmos, o ser humano está em constante procura de melhores condições de vida e estes quadros não fogem à regra. No meu caso particular, a minha intenção é voltar para Angola e com o meu saber ajudar o país no que for necessário. É este o objectivo principal que fez com que viesse para cá. Adquirir melhor educação e ter o maior proveito possível para melhor servir Angola é a meta. Quero ter orgulho, tal como tiveram os nossos heróis na luta pela independência. Eu quero participar na construção da estabilidade social de Angola e ajudar a colocá-la entre os melhores países do continente. Nunca perdi a fé, acredito que juntos podemos fazer mais por esta Angola. Tudo o que peço é oportunidade.

Fale-nos da sua família?


A minha família é o meu porto seguro. Sou o jovem que sou hoje graças à família que Deus me deu. Devo tudo a eles. Em especial à minha rainha, a minha querida mãe Dona Paulina, que tudo fez e continua a fazer tudo por mim. Daria tudo por ela. Ao meu falecido pai, senhor António, agradeço todas as lições de vida. Que a sua alma descanse em paz. Aos meus irmãos, agradeço a atenção, o carinho e os ralhetes que valeram a pena, obrigado.

 

O lado íntimo de Afonso Mkaka

Nome completo?  Afonso António Kuvetiko Mkaka.

Local e data de nascimento? Luanda, em 12 de Agosto de 1990.

Filiação? António Ngombo Mkaka e Paulina Kuvetiko.

Solteiro ou casado? Solteiro.

Sonhos? Ouvir o Hino Nacional a ser entoado por minha causa. Ter casa própria, formar uma família e dar à minha mãe o que ela não teve .

Defeitos? Não sei.

Virtudes? Comprometimento

Homossexualidade? Leviticos 18:22 e Romanos 1:21-27.

Filhos? Não tenho.

Cor preferida? Azul e preto.

Como se veste de segunda à Sexta-feira? Formal.

Aos fins dec semana? Informal.

Passatempo? Ler livros, ginásio, projectos filantrópicos e bater papo com amigos.

Filhos? Não tenho.

Angola o que lhe diz? Pátria, lar, zona de conforto.


Equipa preferida em Angola e no exterior? Em Angola, 1º de Agosto e no exterior do país, Carolina Panthers (Futebol Americano).

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