Opinião

Afeganistão: O regresso de um embuste

Manuel Rui

Escritor

O cidadão comum dos países que, por cerca de vinte anos, mantiveram tropas no Afeganistão, no corre-corre mais a pandemia, nem se apercebe que parte dos seus impostos foram destinados a uma invasão imperialista ao Afeganistão que são o “outro”, estereotipado e reificado sob o rótulo de combate ao terrorismo.

02/09/2021  Última atualização 05H30
Pior, não entende que as fábricas de armamento é que mandam nas vidas da humanidade, não param a produção, precisam de vender e a investigação armamentista supera a que é dedicada à saúde. E há armamento gastável. É preciso usar, inventando uma guerra ou vendendo ao "outro”, o do sul, sem conhecimento, o norte inventa uma guerra e nós matamo-nos uns aos outros…foi assim aqui em Angola. Também é preciso modernizar o armamento,  a corrida armamentista, o norte é vaqueiro e o sul somos todos índios, inventores do terrorismo. Mas antes, ainda no séc. XIX foi o império britânico, nessa constante vontade de domínio sobre o corredor da Ásia, quem se aventurou bem armado, para sair de rastos contra o povo afegão armado de paus e facalhões em 1839. Depois foi a União Soviética que desistiu por ordem de Gorbachov em 1988. Seguiu-se a América sob a capa de combate ao terrorismo quando afinal o que estava em causa era o TAPI (iniciais dos países beneficiados), o gasoduto que vinha de longe e energizava a Ásia do Sul. Sob a capa da luta contra o terrorismo e a legítima ressaca das torres, a OTAN entrou no jogo e num ápice o Afeganistão era ocupado por não haver por ali gente mas o outro, tratado por sul, que não tem sabedoria, o Afeganistão de antes de Cristo, era agora atacado por uma grande potência nascida anteontem. Esquecidos da saída humilhante do Vietenam, do desastre na Somália, da vergonhosa investida contra o Iraque, desobedecendo às Nações Unidas, Saddam Ussein abriu o país à fiscalização dos peritos internacionais que não encontraram sequer vestígios de intenções para armas nucleares, mas o Iraque era a frustração de não encontrar Bin Laden, uma compensação e demonstração de poder, destruir tudo, inclusive parte da história da humanidade do tempo de Deuses mitológicos, templos da Mesopotâmia do rio Tibre e Eufrates. E matar toda a família de Saddam, depois prendê-lo, obriga-lo a abrir a boca para que Bush, à maneira antiga do Texas, com os dedos, confirmasse, de forma dantesca, a dentição do prisioneiro que mandaria enforcar e reduzir o país a pó. Afinal, terrorismo para cá e para lá Trump celebrou acordo com os Talibãs onde se calendarizou a retirada das tropas invasoras. Os americanos e os outros (até a Austrália) iniciaram a retirada e os Talibãs tomam o poder. E começa o caos que a  midia ocidental enfatiza como sucesso. Só líderes como a alemã Merkel consideram a missão fracassada e uma senadora americana desabafa tratar-se de "um fracasso desastroso no cenário internacional que nunca será esquecido.” Claro que os americanos não foram atrás dos atacantes das torres pois nenhum era afegão… 

Agora os invasores e destruidores, não têm nada a ver com o seu livro sagrado a Bíblia porque semearam o caos, apregoam o génesis e celebram o apocalipse. As televisões transmitem os voos como um sucesso, apregoam o perigo das mulheres e meninas sem recomendarem a leitura de "Hiroxima meu Amor.” Há quem ironize com o Saigão de Joe Biden ou o Vietnam soviético… 

Os que acabam de propalar as novas tecnologias de destruição, drones, falam na necessidade de um cordão humanitário a abrir para socorrer o Afeganistão, até o papa açorda do Secretário Geral das Nações Unidas com quem Trump ralhava, vem a terreiro falar nessa necessidade. Mas então se os aviões iam vazios para trazer os invasores e os afegãos que os serviram, não podiam ir cheios de medicamentos, vacinas e comida ou a narrativa é outra, uma espécie de antecipação à Rússia, China ou vizinhos? 

Outra golpada que já se fazia antes (fizeram aqui em Angola) é a retirada da sabedoria, única arma que pode servir a paz. Tudo o que é cientista, académico, médico, engenheiro foi metido nos aviões e vão ser transformados comos os outros em força de trabalho barata para limpar as ruas dos que lhes destruíram a parte mais importante do ser: a sua existencialidade. Vi na televisão um académico afegão, engenheiro de eletrónica, ex-ministro da tecnologia, com grande mochila às costas, de bicicleta (na Alemanha não tem moto boys) e  confessando, em inglês, que não falando alemão e tendo viajado sem diplomas nada mais lhe restava…mas falou alto dizendo que quer voltar ao seu país. Da minha parte um abraço, irmão! Mas a tua terra faz 180 anos que é um  cemitério de impérios. O sábio português, internacionalmente reconhecido, Boaventura de Sousa Santos, acaba de publicar um artigo intitulado: COLONIALISMO E EPISTEMOLOGIA DA IGNORÂNCIA: UMA LIÇÃO AFEGÃ. Aconselho a leitura. Agora o balanço para além dos milhares de mortos e feridos americanos e de outras nacionalidades, quem morreu mais foram os afegãos, 60.000, no que toca à despesa foram 300 milhões de dólares por dia, mais a despesa da retirada e os subsídios a pagar a veteranos de guerra, a fatura entra no bolso dos contribuintes e os fiscalistas tratam do assunto. Mas não pense o leitor que nós por aqui não é nada connosco. Erro. Tarda não  calha quando for comprar um medicamento importado do ocidente, por repercussão, também lhe vão ao bolso para a sórdida despesa… 

Assim, nada mais me resta do que recordar uma estrofe de um poema da grande poetisa afegã NADIA ANJUMAN (1980-2005): 
OH HISTÓRIAS TRÁGICAS 
SUA COMPANHIA NOS OPRIME 
SE NÃO BUSCAM NOVA CASA, DEVEM TER CUIDADO 
AMANHÃ VAMOS DEIXAR AS TRISTES RUÍNAS DA VIDA 
E VOCÊS FICARÃO MISERÁVEIS E DESCOBERTOS 
NO LIMBO DO TEMPO 
SEM QUALQUER MORADA.  

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