Sociedade

Adolescentes passeiam à noite em zonas da periferia de Luanda

Sem respeitar as medidas de distanciamento social, dois agentes da Brigada Auto, afectos à Polícia Nacional, que se faziam transportar numa única motorizada, param no entroncamento entre o término de táxi do bairro Mirú e a rua do Dom Kanga, nos Mulenvos de Cima, município de Viana, em Luanda.

16/04/2020  Última atualização 12H33
DR

Já passava das 21 horas, de quinta-feira, 9 de Abril, e havia muita gente, adultos e adolescentes, na rua, esquinas e becos. A área é das mais movimentadas do bairro, em todos os períodos do dia.
A rua tem salões de beleza, barracas de comes e bebes, padarias, cantinas, lojas de venda de cosméticos, recauchutagem e é também o término de táxi e moto-taxi, o que leva a que tenha um movimento frenético de pessoas, inclusive de criancinhas.
Cogitou o repórter que, com a chegada dos agentes, os adolescentes com idades entre 13 e 19 anos, divididos em vários grupos de quatro a seis, teriam de se dispersar ou que os homens fardados iriam convencê-los a regressar às respectivas casas, na ideia de se evitar ajuntamentos.
Nada disso aconteceu. Os agentes foram-se embora, sem dizer o que fosse, e as meninas e rapazes, bem juntinhos e sem qualquer protecção, ignorando o distanciamento social, continuavam em amena cavaqueira, outros atentos às imagens exibidas nos telefones que tinham nas mãos.
Ao longo dos primeiros 15 dias do Estado de Emergência, o cenário nos Mulenvos é esse durante o dia. Mas as noites o ambiente piora. Os adolescentes convertem-se em “donos” das ruas e dos becos. São vistos a namorar, a beber, a fumar e até a assaltar pacatas pessoas.
Durante os primeiros 15 dias de observação do Estado de Emergência, a justificação usada para homens e mulheres estarem nas ruas era a procura de alimentos e fontes de rendimento familiar. Mas, para os adolescentes, não há razão plausível, como disseram interlocutores do Jornal de Angola. “Sabe Deus, o que fazem”.

Perigo
Numa altura em que se prorrogou o Estado de Emergência, era suposto haver uma postura diferente dos adolescentes e jovens, até porque muitos são estudantes. Contactado pelo Jornal de Angola, o professor Luís Sapalo diz não ter dúvidas de que estes rapazes e meninas andam a aproveitar o período de quarentena para “fazer outras coisas”.
Morador do bairro Mirú há mais de 10 anos, Luís Sapalo mostra-se preocupado, uma vez que, sendo, na maioria, estudantes deviam aproveitar a pausa pedagógica para rever matérias, ver televisão ou pesquisar na Internet, “até porque todos eles mostram ter essa ferramenta nos seus telefones”.
Com a ameaça da Covid-19, pais e encarregados de educação temem que, caso haja contaminação comunitária, os adolescentes possam vir a ser uma grande porta da cadeia de transmissão.
Professor de uma instituição privada em Viana, Luís Sapalo não tem dúvidas de que, quando terminar o período de quarentena domiciliar, imposto pelo Estado de Emergência, haverá um elevado índice de gravidez precoce a nível da periferia de Luanda.

E os pais?
Para dona Ana das Dores, a campanha “fique em casa”, “não dar beijinhos, evitar abraços e apertos” está a ser entendida ao contrário pelos jovens e adolescentes dos bairros periféricos.
Preocupada com a elevada presença, à noite, de meninas e meninos nas ruas e becos, a senhora questiona o papel e o paradeiro dos pais e encarregados de educação nesta fase.
“Durante o dia, até aceito que muitos vão às ruas à procura de alimentos, mas, à noite, todos deviam estar em casa, junto das respectivas famílias. Não é possível que um pai ou uma mãe, àquela hora, não dê pela ausência dos filhos menores”, disse indignada Ana das Dores.
No entanto, numa ronda efectuada durante os últimos dias, à noite, por vários bairros suburbanos de Luanda, para aferir o cumprimento do Estado de Emergência, o Jornal de Angola constatou que a presença de pessoas nas ruas não é um caso exclusivo de adolescentes e jovens de Viana.
No Rangel, Cazenga, Sambizanga, Kilamba Kiaxi, Morro Bento, Gamek, Prenda, Maianga e Cacuaco, onde passámos, em ocasiões distintas, encontrámos adolescentes a “tomar de assalto” ruas e becos. “As autoridades não devem apenas mostrar preocupação com os adultos nas ruas. Os adolescentes são um grande grupo de risco a ter em conta, caso haja contaminação comunitária pelo novo coronavírus”, afirmou a professora Gilberta Patrocínio.
Mestre em Biologia Molecular e docente do curso de Saúde Pública, da Universidade Metodista de Angola, Gilberta Patrocínio é de opinião que as autoridades deviam fazer incursões, às noites, na periferia, para aferir o cumprimento do Estado de Emergência, por parte dos jovens e afastá-los das ruas.
Segundo a académica, o crescimento desordenado de bairros periféricos, com becos, ruas escuras e obras inacabadas, tem facilitado a vida de muitos adolescentes, que são vistos a praticar sexo a céu aberto, na maior promiscuidade, sem se importarem com as consequências.

Comentários

Seja o primeiro a comentar esta notícia!

Comente

Faça login para introduzir o seu comentário.

Login

Sociedade