Reportagem

Adeus Cacimbo: O momento de trocar de roupa

A época seca, designada “Cacimbo”, termina oficialmente hoje em todo o país, depois de três meses de baixas temperaturas do ar e consequente aumento da pressão atmosférica e da humidade relativa, para dar início a época chuvosa.

15/08/2021  Última atualização 10H54
© Fotografia por: DR
Mudar a roupa de uma estação para a outra é, nos dias de hoje, um verdadeiro desafio e uma das tarefas mais aborrecidas e enervantes. Angola está situada na zona tropical (quente) onde o clima é fortemente influenciado por factores como a latitude (de 6 a 18 graus) e a altitude.

A existência de duas estações, mais ou menos bem diferenciadas se deve, entre outros factores, a influência da geografia na variação da temperatura, designadamente a corrente fria de Benguela, e as bacias hidrográficas do Zaire, Zambeze, Cuanza, Cuando-Cubango e Cunene.

A estação que hoje termina (cacimbo) é caracterizada pela ausência de chuva, com noites e madrugadas frias, onde as temperaturas mais baixas foram observadas na região sul (Huambo, Bié, Cuando-Cubango, Huíla e Cunene), enquanto a que começa é apreciada pelos nove meses de sol abrasador, ideal para os frequentadores de praias.
Durante o cacimbo as pessoas são obrigadas a usar vestimentas mais fortes, capazes de conter as baixas temperaturas. Fatos, camisas e calças com tecidos fortes, casacos, jeans e vestidos compridos são as opções. Nesta época do ano, em algumas localidades do país, sair sem casaco é um autêntico desafio.

Olhar distante às montras
O orçamento mais apertado - além das restrições provocadas pela pandemia - levou a mudanças nos hábitos de consumo, que ficaram mais limitados: roupas, manutenção frequente do carro, compra de eletrodomésticos e até viagens ao exterior deixaram de fazer parte da agenda de muitas famílias angolanas.

Com os altos preços dos diferentes bens e serviços, tem sobrado menos recursos financeiros para o consumidor gastar em sectores como o vestuário. Daí a razão de muitas boutiques e lojas de referência da cidade de Luanda registarem um reduzido fluxo de clientes.


"Nos meses de Maio, Junho e Julho registamos, com bastante tristeza, um decréscimo nas vendas de roupas para o frio. A expectativa predominante para o mês de Junho e Julho era alta, pelo número de peças de roupa para a época de frio, que adquirimos no exterior para a venda”, explica Antonieta, a proprietária de uma loja de venda a retalho de roupas e acessórios.

Para Antonieta, o que está por trás do cenário decepcionante é a alta inflação, especialmente no sector da alimentação que reduziu o poder de compra das famílias. Para se ter uma ideia da falta de clientes, muitos nem sequer chegam a entrar na loja, para consultar preços ou verificar o que há de novo, como antigamente. "Passam rapidamente ou limitam-se a olhar de longe”.

As famílias sentem no bolso a alta dos preços de uma peça de roupa numa boutique. Isabel Tavares, funcionária de loja, localizada na rua Rainha Njinga, em plena baixa luandense, acrescenta que os preços de roupas novas afugentam os clientes e só estão ao alcance de quem tem condições financeiras saudáveis. "Os preços chegam a ser mais altos em relação ao mercado paralelo porque envolvem mais gastos com o transporte, os impostos, etc., etc., e que se devem ter em conta”, disse a jovem empresária, que se recusou a revelar à nossa reportagem o preço de algumas peças indicadas por nós. Os preços de revenda de cada peça dependem do valor de compra no estrangeiro. Daí que a busca por algo mais barato e prático tem sido a saída de muitas famílias.

Opção pelo fardo

Nos dias que correm e fruto da crise económica mundial agravada pelas restrições provocadas pela pandemia da Covid-19, o poder de compra de muitas famílias foi afectado e verifica-se a perda do hábito da compra de roupas novas e de marca em boutiques. A roupa usada, conhecida como fardo, passou a ser opção de muitas famílias.

Angola é o maior importador mundial de roupa usada (fardo) oriunda da Europa e dos Estados Unidos, por ausência de produção de têxteis no país. Para quem se dedica à venda deste tipo de vestuário, tal como constatou o Jornal de Angola num dos mercados informais da cidade de Luanda, com a mudança de estação o negócio também é afectado.

Um dos primeiros sinais da mudança por conta da nova estação climática (calor) é a procura por novos modelos de roupa, que se adaptam à realidade. "Nestas duas semanas, as coisas irão mudar. Os clientes iniciaram, pouco a pouco, a procura de roupas leves por causa do calor’’, disse Maria Kicassa, vendedora numa das ruas do bairro Rangel.

Num outro ponto de venda, no Calemba 2, distrito da Cidade Universitária, na conhecida Rua da Farmácia, encontramos a dona Ana Filipe. Detentora de um estabelecimento comercial, tia Ana como é carinhosamente chamada na zona, comercializa todo o tipo de roupa usada. Desde roupas para crianças a pessoas adultas, bem como outros utensílios, são comercializados no local. Os preços variam de acordo com a qualidade de cada uma das peças. 


Tia Ana disse que a sua principal fonte de aquisição dos atados de fardo tem sido os armazéns localizados no complexo comercial Cidade da China, instalado na Avenida Comandante Fidel Castro, mais conhecida por "Via Expressa”. Questionada sobre a mudança de clima, a comerciante disse que camisolas, camisas e calças com tecidos leves são as peças mais procuradas.


A loja, devidamente organizada e apetrechada, não tem apenas à venda roupa usada, cuja origem é diferenciada. Ana Filipe disse que a qualidade das roupas depende do país de origem. "Os fardos dos Estados Unidos da América e da Europa são as peças em melhores condições e mais caras”.

Actualmente não são apenas as pessoas de baixa renda que acorrem ao mercado paralelo quando a questão é comprar roupa. Segundo Ana Filipe, hoje assiste-se a muita gente, até da classe média, a procurar roupas usadas, vulgo fardo.

Asa Branca
Mercado para todos os bolsos


O mercado do Asa Branca, localizado no município do Cazenga, é conhecido como a "rainha” da roupa usada em Angola. Lá encontrámos a dona Maria Bento. Ela disse que a concorrência no negócio tem feito com que os preços praticados sejam ali mais baixos em relação aos outros locais de Luanda.


Por sua vez Indira da Costa fez saber que o valor mais alto das peças que estava a vender (roupas que são expostas no chão ou penduradas em cabides) é de dez mil kwanzas e o mais baixo quinhentos kwanzas. Não há limites em termos de roupas. Uma das secções que desperta o interesse de qualquer um é a dos vestidos de noivas. "Muitas lojas e noivas adquirem os seus vestidos neste mercado. Já vi mulheres famosas a comprarem os seus vestidos aqui”, realça uma das vendedoras da secção.


A comercialização do fardo causou no local o aparecimento de uma secção de alfaiataria. Muitos dos clientes acabam por ajustar as suas roupas no local, tornando o mercado uma espécie de grande loja de pronto-a-vestir.
Indira Costa adquire o fardo nos armazéns espalhados por Luanda, no valor de 40 a 50 mil kwanzas, para revender peça por peça, sendo o preço atribuído de acordo com a sua qualidade. Por exemplo, depois da compra dos balões de roupa, a luta é primeiramente para retirar o dinheiro gasto na compra do balão e, depois, conseguir os lucros.
Lídia Monteiro conta que, com a subida dos preços das roupas novas, a solução tem sido o Asa Branca. "O ano lectivo está às portas e decidi reforçar o guarda-fato dos miúdos com roupa nova”, revelou a professora do Iº ciclo.

Quo Vadis planeta  terra
Alterações climáticas são irreversíveis

O mês de Novembro de 2020 foi o mais quente da história do mundo, ficando 0,8° Célsius acima da média para o período entre 1981 e 2010, informou o Serviço Copernicus de Mudanças Climáticas, que é o órgão que controla a situação climática na União Europeia.
"Esses recordes são consistentes com a tendência do aquecimento global no longo prazo. Todos os legisladores que priorizam a mitigação dos riscos climáticos devem ver esses recordes como sinais de alarme”, afirmou Carlos Buontempo, director do Copernicus, em nota oficial.

O último relatório sobre mudanças climáticas do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas), divulgado este mês, revela que a Terra está a enfrentar alterações sem precedentes no clima, algumas das quais são irreversíveis.
Os cientistas do IPCC analisaram milhares de evidências climáticas em todo o mundo e alertaram para o aumento das ondas de calor, secas, inundações e outros eventos climáticos extremos nos próximos dez anos.


Entre as inquietantes conclusões dos estudos do IPCC colectamos as seguintes: as mudanças climáticas estão a se intensificar e são o resultado da acção humana; o limite de 1,5º centígrados na média da temperatura está quase a ser ultrapassado; não importa o que for feito, o nível do mar vai continuar a aumentar e pode subir 2 metros até ao fim do presente século e até 5 metros até 2150.
Ferraz Neto

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