Entrevista

Adérito Rodrigues: “Queremos o Circuito de Teatro no calendário de actividades do Ministério

Manuel Albano

Jornalista

Mais de 500 grupos de teatro nacionais e 36 estrangeiros já participaram nas seis edições do Circuito Internacional de Teatro (CIT), a última das quais foi realizada no ano passado.

28/08/2022  Última atualização 11H59
© Fotografia por: DR

O mentor do projecto "Cultura para Todos”, Adérito Rodrigues "BI”, disse ao Jornal de Angola que a resiliência e o amor ao teatro têm sido o grande suporte dos organizadores do festival cujos custos atingem, anualmente, perto de 50 milhões de kwanzas. Adérito Rodrigues "BI” disse esperar que o CIT seja inserido no calendário de actividades culturais do Governo Provincial de Luanda e do Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente

O que é o Circuito Internacional de Teatro ?

O CIT é um festival de cariz internacional, no qual participam grupos de teatro do país e do estrangeiro.

 

Como surgiu a ideia da criação do CIT?

A ideia surgiu porque senti que os fazedores de teatro estavam muito separados e desunidos. Precisávamos comungar as mesmas ideias. Senti a necessidade de ter um denominador comum, na pespectiva de união entre a classe. Foi deste pensamento que surgiu a ideia da criação do projecto "Cultura para Todos”, para agregar valores às artes cénicas e fomentar o intercâmbio entre os criadores nacionais e internacionais com a realização do CIT, que teve a sua primeira edição em 2016, na Centralidade do Kilamba. 

 

Como foi mobilizar os directores artísticos dos grupos para abraçarem o projecto?

Nesta mesma época, convidei a conceituada actriz Carla Rodrigues para criar uma estratégia, cujo objectivo principal seria conseguir mobilizar os 25 directores artísticos dos melhores grupos de teatro de Luanda naquele momento. Como pode imaginar, não foi uma tarefa fácil, mas felizmente senti-me motivado com a ideia do projecto, por ter o carácter congregador e não de exclusão. Ainda assim muitos desistiram porque não se reviam no projecto desde a realização da primeira edição.

 

O que é que levou muitos directores a desistirem do projecto?

Muitos não se reviam no formato do festival, outros porque também estavam com projectos semelhantes. Compreendemos as justificativas apresentadas pelos colegas. Apenas cinco abraçaram a iniciativa e mesmo assim decidimos fazer o Circuito Internacional de Teatro conscientes que não seria fácil e que teríamos um longo caminho a percorrer. Nunca nos passou pela cabeça desistir porque sempre definimos o festival como um projecto de todos e para todos. Com o passar dos anos aprendemos que os projectos com alguma estruturação levam o seu tempo de amadurecimento e que encontraríamos dificuldades…

 

Que balanço faz das edições já realizadas?

O balanço é positivo porque gradualmente temos conseguido concretizar as etapas que nos propusemos com a realização do CIT. A ideia é começar a preparar a organização do festival de teatro um ano antes, ou seja, tão logo termina uma edição começamos a projectar a edição seguinte. Idealizamos metas e começamos logo a desenvolvê-las. Procuramos fazer coisas pequenas que possam ser realizadas e esta tem sido, de certa forma, a chave do sucesso de todas as edições.

 

Sente que o projecto "Cultura para Todos” tem conseguido atingir os propósitos?

Sim. O projecto na verdade é de inclusão artística e social, com vários subprojectos no domínio artístico, fundamentado na dinamização do teatro angolano, onde procuramos trazer a pespectiva do resgate dos valores morais, cívicos, culturais e artísticos, defesa da nossa identidade e dos próprios criadores das mais variadas disciplina artísticas. É um projecto que não olha para rostos, mas procura ser um espaço de promoção e divulgação da criação artística. Hoje fazem parte do projecto apenas cinco dos anteriores 25 directores artísticos de vários grupos de teatro da capital do país, com destaque para os grupo Pitabel, Enigma Teatro, Miragens, Dadaísmo e Felomano da Sanzala.

 

Como é que consegue manter o festival internacional diante das inúmeras dificuldades financeiras?

Tem sido uma ginástica financeira, logística e gestão dos recursos humanos com enormes dificuldades. Actualmente temos como principal parceiro a Comissão Nacional de Angola para a Unesco, desde 2017, os órgãos de comunicação social públicos e privados, o Governo Provincial de Luanda (GPL), a Comissão Administrativa da Cidade de Luanda, o atelier Guilherme Mampuya, que oferece por cada edição um quadro pintado com o rosto do homenageado, a Ciri Designer e a tipografia Corimba, que tem a responsabilidade de publicar a revista CIT. Estamos a trabalhar para que o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente seja um dos nossos parceiros.

 

Que novidades pretendem introduzir no CIT?

Temos um regulamento que tem sido cumprido pelos grupos e companhias nacionais e internacionais, permitindo, assim, manter a máquina funcional. A novidade é o facto de optarmos, a partir desta edição, por estender o festival para cinco meses, contrariamente às edições anteriores. Assim, os dois primeiros meses são dedicados à realização de oficinas, palestras e seminários sobre as dinâmicas do próprio desenvolvimento das artes cénicas ao longo dos tempos. Os outros três meses são para a realização dos espectáculos que, doravante, vão decorrer de Maio a Setembro, tornando-se o maior do país, da África e do mundo pela extensão de tempo de realização. Encontramos muitos obstáculos para a realização do festival. Queremos que o circuito entre para o calendário de actividades culturais promovidas pelo Governo Provincial de Luanda e o Ministério da Cultura, Turismo e Ambiente, contando assim com o apoio financeiro do Estado.

 

Como é feita a selecção dos grupos e companhias que participam em cada edição do festival?

Existe uma comissão de curadores indicada pela direcção do projecto "Cultura para Todos”, que tem como responsabilidade analisar e selecionar os grupos a participar em cada edição. A nível internacional temos como parceiro um curador português, que tem como missão seleccionar os grupos estrangeiros europeus, em Moçambique a responsabilidade é da Associação Cultural Girassol, promotora do Festival Internacional de Teatro de Inverno (FITI), sob liderança de Joaquim Matavel.


"O teatro sempre teve  um papel relevante”

O teatro desenvolvido ao longo dos anos já ocupa um espaço de destaque na sociedade angolana?

O teatro sempre teve um papel relevante na sociedade angolana. Estivemos sempre nos bons e maus momentos da trajectória do país, desde o início da Luta de Libertação contra a opressão colonial, até à conquista da Independência Nacional, em 1975. Participou e continua a exercer o seu papel no desenvolvimento dos mais variados sectores da vida social do país, na qual sempre estivemos inseridos. Todos os dias faz-se teatro e vão surgindo novos grupos. O teatro sempre foi um meio de abordagem democrática e de reflexão dos principais assuntos do país. Ajudou a construir o homem novo e a dar alegrias aos angolanos numa fase de reconstrução das mentes feridas pelos longos anos de conflito armado. Trouxemos um pensamento de progresso, prosperidade, de luta pelas coisas positivas, o conceito de proteção familiar. O teatro sempre teve a função de agregar valores socioculturais das populações, cumprindo não apenas o dever de entreter, mas de informar, educar e transmitir valores cívicos para o resgate da matriz cultural e identidade dos angolanos.

 

Então sempre participaram no processo de construção e do resgate da identidade nacional?

O teatro sempre participou neste processo. Por exemplo, os espectáculos da edição deste ano são em torno do Centenário do Primeiro Presidente de Angola, António Agostinho Neto. Propusemo-nos a realizar cem acções formativas e igual número de espectáculos para coincidir com o seu centenário a 17 de Setembro. Estamos diante de um grande exercício que é o resgate da identidade, da própria história e da fundação do país, mérito atribuído a Agostinho Neto. A história dos três principais movimentos de libertação de Angola é abordada durante as peças a serem exibidas, para exaltar o processo de construção da Nação.

 

Quais são os principais ganhos com a realização do CIT?

Um dos principais ganhos é a unificação e intercâmbio, possibilitando que mais de cem grupos estejam focados no mesmo pensamento e exercício, criando aberturas para a troca de experiências geracionais, de reflexão e debates em prol do desenvolvimento do teatro e a valorização dos criadores nacionais. O CIT tornou-se uma marca, na qual os grupos podem regularmente ter um espaço de exibição. Muitos deles não têm condições de pagar uma sala para apresentar os espectáculos e o festival dá a possibilidade aos grupos com maiores dificuldades financeiras para se exibirem. Temos também a parceria com os festivais internacionais, que permite ao vencedor da categoria Grupo CIT representar o país no festival FITI de Moçambique e de Loulé de Portugal.

 

Quanto custa a realização de um festival como o Circuito Internacional de Teatro?

O orçamento para cada edição do CIT é diferente. Por exemplo, para este ano está previsto um orçamento de 93 milhões de kwanzas, incluindo os gastos com a realização dos espectáculos programados para as províncias do Bengo e Huíla. A média para a realização de uma edição fica em torno de 50 milhões, mas é muito difícil atingir essas metas, o que nos obriga a fazer vários reajustes antes, durante e depois da realização de cada edição para se poder dar alguma dignidade aos artistas. Felizmente temos tido alguns apoios dos nossos parceiros, por isso a nossa luta para o institucionalizar e ter um orçamento alocado anualmente para a sua realização. O dia em que os nossos patrocinadores deixarem de nos apoiar, dificilmente conseguiremos manter o projecto funcional. Já tivemos uma experiência com a província de Benguela, pensamos levar também ao Huambo e tudo isso carece de patrocínios. Contamos com apoios de anónimos e de outras pessoas interessadas em ver o crescimento das artes cénicas.

 

A quinta edição aconteceu apenas no formato digital devido o surgimento da pandemia da Covid-19. Fale-nos um pouco dessa experiência?

Foi uma das maiores experiências que a organização teve. Foi um momento de muita coragem e realçar o facto da equipa de trabalho e os grupos arriscarem as suas vidas. Mesmo diante das orientações de segurança do Executivo e da Organização Mundial da Saúde (OMS), o festival aconteceu com o suporte da Televisão Pública de Angola (TPA), em parceria com a Angola Telecom, que nos cedeu o sinal para a realização das lives. Aproveitamos a experiência que nos permite transmitir também os espectáculos através das redes socais.

 

Quais os resultados estatísticos de todas as edições?

Os resultados são positivos. Até à última edição, a sexta, realizada no ano passado, foram contabilizados mais de 36 grupos e companhias internacionais. Internamente já foram realizados mais de 800 espectáculos, com a participação de um total de 500 grupos. A maior dificuldade tem sido mesmo as questões financeiras. Temos sido resilientes porque acreditamos nas pessoas e amamos o que fazemos, senão  já teríamos desistido.

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