Entrevista

Acontecimentos da Baixa de Cassanje impulsionaram outras reivindicações

Assinala-se hoje o Dia dos Mártires da Repressão Colonial na Baixa de Cassanje. Muitos estudiosos consideram os acontecimentos que ocorreram naquela região um balão de ensaio para os que se seguiram. Para o historiador Bruno Júlio Kambundu, são várias as relações que se podem estabelecer entre as datas apresentadas. Refere que apesar de serem vistos como actos isolados, todos serviram para mostrar, além do descontentamento reinante dos angolanos, o rompimento das barreiras coloniais e que vieram culminar com a proclamação da Independência de Angola

04/01/2022  Última atualização 03H45
© Fotografia por: DR
Quais foram as reais motivações que estiveram na base das reivindicações dos trabalhadores da Cotonang em finais de 1960?
Na verdade, a questão leva-nos a repensar um pouco em torno da narrativa que até ao momento temos vindo a apresentar, face às novas fontes que nos colocam diante de outros olhares. Ou seja, se, por um lado, existe uma considerável base  de  dados que nos remetem às questões sobre a melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores, que tem sido a versão mais frequente, mas também é verdade que vão surgindo documentos que mostram que houve outras motivações, que podem mesmo ser entendidas como motivações ou atitude nacionalista.

Houve envolvimento de figuras políticas na mobilização dos operários?
Existe, de facto, alguma presença de figuras que tiveram ligações com a UPA e se quisermos mesmo com outros movimentos, o que nos faz pensar, inclusive, que, a par das motivações trabalhistas, houve também a presença de um aproveitamento político enquadrado no contexto que se vivia.
Quer a UPA, quer outras organizações jogaram um papel de destaque na mobilização dos participantes envolvidos, embora a argumentação sobre o assunto ainda necessite de cada vez mais abordagens e um maior aprofundamento da parte dos estudiosos, no sentido de nos apresentarem
casos concretos nas mais diferentes dimensões.


A escolha de Janeiro não foi por acaso e demonstra que os trabalhadores tinham consciência  do peso da Cotonang na economia. Pode contextualizar?
De facto, os trabalhadores tinham noção do peso da Cotonang na economia portuguesa, atendendo que no período em que se desenrola este episódio se trata de uma fase em que Portugal tinha alguma dependência da mesma. Além disso, é importante dizer que este acontecimento ocorre numa altura em que já se vinham criando condições de desgaste de vária ordem por parte dos africanos. Assistimos aqui a influência da senda independentista que vem ocorrendo no continente africano, para o caso de Angola, situações como as expropriações, os aumentos constantes de imposto, a discriminação quer social quanto racial e outras formas abusivas que o Governo colonial levava a cabo. Tudo veio facilitar a participação dos autóctones nas sublevações.

Que relação pode estabelecer entre 4 de Fevereiro e 15 de Março de 1961 e o massacre da Baixa de Cassanje?

São várias as relações que podemos hoje estabelecer entre as datas apresentadas. Para muitos estudiosos, os acontecimentos da Baixa de Cassanje foram um balão de ensaio para os que se seguiram. Da outra forma, apesar de serem vistos como actos isolados, todos serviram para mostrar, além do descontentamento reinante dos angolanos, o rompimento das barreiras coloniais e que vieram culminar com a proclamação da Independência deAngola.
Há alguma relação entre os movimentos religiosos provenientes do Congo e o levantamento do 4 de Janeiro?

Esta teoria é hoje muito defendida por alguns estudiosos, inclusive Anabela Silveira, no artigo "A Baixa de Cassanje e o prenúncio da luta armada”.Refere-se ao facto de que o principal mentor deste acontecimento, de acordo com a entrevista de Rosário Neto, num artigo publicado em 1966, no jornal A Voz da Revolução, António Mariano, ter sido um seguidor de Simão Kimbango e outros afectos ao kimbanguismo. Leva-nos a relacionar sim este acontecimento com os movimentos citados.

Até hoje não se fala exactamente do número de vítimas nos dois lados…
Em relação aos números, é um debate ainda aberto, pois até ao momento não existe consenso dos historiadores ou estudiosos desta temática. De uma forma geral, pode-se dizer que milhares de autóctones e portugueses acabaram por perder a vida.

Alguns historiadores refutam o uso de bombas do tipo Napalm. O 4 de Janeiro foi o primeiro grande momento do regime colonial para testar a capacidade militar?
Depende muito da forma como se quer olhar o assunto. No entanto, podemos dizer que se tratou de um momento que Portugal teve de se esmerar para responder e defender os seus interesses, por via da força, atendendo ao facto de que foi nesta sublevação em que se colocou à disposição um conjunto de material bélico nunca antes utilizado. Quanto ao uso de bombas de Napalm, dos poucos documentos a que tive acesso, existe ainda pouca informação sobre o assunto.

É aceitável a transformação da região como uma nova província, como reclamam algumas autoridades tradicionais?
A elevação da região de Cassanje para província tem muito a ver com os objectivos de governação que se pretende para aquela região. Se será uma boa ou má opção apenas o tempo dirá.


O que falta para a materialização das promessas do Presidente Agostinho Neto, nomeadamente, a construção de monumento e de uma vila?
Pouco tenho a dizer sobre este assunto por desconhecer as agendas do Governo no que diz respeito ao projecto sobre a zona. O país é grande e provavelmente entre as prioridades esta não venha à tona. Acho que uma aposta maior na região pode também alavancar a economia, além de incentivar uma das maiores fontes de receita no mundo, que é o turismo histórico.

Sente que as novas gerações conhecem a importância do 4 de Janeiro?
Penso que sim. Existe uma nova geração interessada em conhecer um pouco mais sobre a História recente de Angola, da mesma forma que outra não se revê nela. Face a isso, é necessário a criação de outras formas e incentivos para que os angolanos se interessem mais pelo conhecimento da sua História. Isto só se tornará possível com a criação de políticas, devidamente orientadas e que não se olhem as datas com um valor histórico apenas nas vésperas das comemorações. Que seja um acto contínuo ao longo do ano, em que através de várias actividades se possa dar a conhecer estas datas e ou acontecimentos.


Não sendo feriado, esta efeméride não subalterniza a data em detrimento do 4 de Fevereiro?
Penso que a data não será mais ou menos valorizada se for feriado ou não. O que acho mesmo é que o mais importante é criarmos uma cultura de pertença e de maior valorização a estes acontecimentos. Hoje precisamos fazer um país inclusivo, onde todos tenham espaço e possam ser ouvidos. Tal como se diz, a História não se apaga, permanece sempre, independentemente, das tentativas que queiramos fazer para apagá-la.

PERFIL
Bruno Júlio Kambundu
Nasceu em 28 de Novembro de 1980, em Luanda. Mestre em ensino de História de África, é doutorando em História Contemporânea, pela Universidade de Coimbra. Actualmente é professor auxiliar no Instituto Superior de Ciências da Educação (ISCED – Luanda), onde coordena o Sector de História. É ainda colaborador na Universidade Católica de Angola (Instituto Superior João Paulo II, coordena o Centro de Investigação Social e Cidadania.

Exercidas
Chefe de Departamento de Prevenção de Impactes e Auditorias Ambientais (2013-2017), no extinto Ministério do Ambiente, director Nacional de Prevenção e Avaliação de Impactes Ambientais (2017-2020).

Línguas faladas
Português, Inglês
e espanhol

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