Opinião

Aconteceu alguma coisa no Brasil?

João Melo*

Jornalista e Escritor

O principal noticiário de TV, dois dos três maiores jornais e outros importantes meios de comunicação social brasileiros decidiram não fazer manchete das manifestações ocorridas no último sábado no maior país da América Latina pedindo o impedimento do presidente Bolsonaro, limitando-se a referir o facto em pequenas e envergonhadas notas, encaixadas no meio de outros factos.

02/06/2021  Última atualização 06H10
Há muita gente, em todo o mundo, que pensa que deixar de noticiar certos acontecimentos faz estes últimos "desaparecer”, como que por milagre. Pior do que ter cabeça pidesca, é ser burro.

E, no entanto, a terra move-se. Milhares de pessoas manifestaram-se no último sábado em 200 cidades brasileiras com duas "bandeiras” de fundo: manifestar o seu luto pelos quase 500 mil mortos, até agora, por causa da pandemia da Covid-19 e expressar o seu descontentamento com a actual gestão do país por parte do presidente da República, não apenas sanitária, mas também económica, social, cultural e política. Na verdade, tudo desemboca em Bolsonaro, cuja indescritível "presidência” ultrapassa o próprio conceito de horror.

Um dos slogans que os manifestantes espalharam pelas redes sociais, antes e depois dos actos ocorridos no sábado, diz tudo: - "Se a população sai às ruas para manifestar-se contra o Governo em plena pandemia, é porque esse Governo é pior do que a pandemia”. A maioria dos brasileiros está hoje claramente contra a aposta criminosa do seu Presidente na "imunidade de rebanho”, como o atestam cartazes como "Não estamos todos, faltam os mortos” ou "Um minuto de silêncio para cada morto = 8 anos de silêncio”.

Quanto ao impedimento de Bolsonaro, e apesar da sua queda de popularidade (todas as sondagens prevêem que ele perderá a reeleição em 2022) e do descontentamento crescente nas ruas, falta, por enquanto, um factor decisivo: maioria no Congresso. O mais provável, portanto, é que esse processo não avance, apesar de que, no Brasil, "até o passado é imprevisível”. A estratégia da maioria da oposição, por conseguinte, é apostar no desgaste cada vez maior da governação, até ao pleito do próximo ano.

Talvez por isso, Lula, a maior liderança popular brasileira, não tenha declarado expressamente o seu apoio às manifestações do último sábado. Sectores do PT, inclusive, chegaram a declarar que as mesmas não seriam oportunas, por causa da pandemia. O argumento é que isso poderia (poderá) "dar razão” aos bolsonaristas, que não têm deixado de promover aglomerações de apoio ao presidente, em todo o país.
Entretanto, há uma diferença de fundo: nas aglomerações bolsonaristas, os manifestantes, coerentemente com o negacionismo que defendem, não têm usado máscaras nem observado o mínimo de cuidados com a Covid-19; no último sábado, os manifestantes anti-Bolsonaro, em todo o país, respeitaram essas regras. Lembre-se, a propósito, que estudos feitos nos EUA comprovaram que as manifestações do Black Lives Matter, no ano passado, não contribuíram para o aumento de casos de Covid no país.

Seja como for, e como sublinhou a Folha de São Paulo, o único grande jornal brasileiro que cobriu decentemente as manifestações do último fim de semana, estas últimas favorecem as intenções de Lula regressar ao poder. Por isso, os apoiantes de Bolsonaro já estão a tentar reeditar o "antipetismo”, um dos factores que o elegeu em 2018. De igual modo, representantes das elites que, não sendo bolsonaristas, não conseguem libertar-se da mentalidade de "casa grande e senzala” que marca a sociedade brasileira, estão assustados com a recente aproximação entre Fernando Henrique Cardoso e Lula. O "erro editorial” da imprensa mainstream brasileira em relação às manifestações do último sábado é um exemplo claro disso.
Sim, alguma coisa está a acontecer no Brasil.

*Jornalista e escritor

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