Cultura

Acácio vence concurso nacional de trova

Analtino Santos

Jornalista

Acácio, em representação de Luanda, foi o vencedor do Primeiro Concurso Nacional de Trova Cantar Neto, ao musicar o poema “Nas Curtas Horas”, numa gala realizada na noite de quinta-feira, 22, no Centro Cultural Palácio de Ferro. Complementaram o pódio Abias e Agnelo, respectivamente em representação das províncias do Cuando-Cubango e Cabinda com “Adeus à Hora da Largada” e “Poeta de Todos os Tempos”. O corpo de jurados atribuiu o prémio Voz Revelação a Supe Muteca, do Namibe

25/09/2022  Última atualização 07H45
© Fotografia por: Paulo Mulaza | Edições Novembro

Foi uma noite em que foi revivida a mística do Movimento Nacional da Trova, muito forte nos primeiros anos da Independência de Angola com os festivais da canção política, a Brigada Manguxi e os talentos surgidos nas escolas e quartéis.  Dentre o público que apreciou os concorrentes oriundos de dezasseis províncias estavam Filipe Zau, ministro da Cultura e Turismo, Manuel Homem, governador de Luanda, Maria da Piedade de Jesus, secretária de Estado da Cultura e o anfitrião Zeca Moreno, presidente da UNAC-SA.

Acácio partiu em vantagem, dado que tem já uma carreira musical. Com mestria deu o seu toque em "Nas Curtas Horas”,  regressando à época de ouro da trova angolana. Abias Cativa fez diferente e posicionou-se em palco com o piano e deu o seu toque em "Adeus à Hora da Largada”, tema que venceu a fase provincial do Cuando-Cubango. O corpo de jurados não foi rigoroso, porque, de acordo com o regulamento, deveriam estar em concurso poemas de Neto nunca antes musicados.

De Cabinda, Agnelo Sadjungulo mostrou criatividade e elevou os espíritos para outra dimensão com "Poeta de Todos os Tempos”, cuja letra eram trechos da poesia, frases e feitos de Agostinho Neto.

Como no passado, as duplas estiveram em evidência e assim aconteceu com os primeiros concorrentes a subirem ao palco, António e Nelson, provenientes do Bengo, que abriram com "Sinto na Minha Voz”. E de seguida os benguelenses Gervásio Manssima e Zeferino Sandambija que pegaram em "Desterro”, o poema que voltou a ser cantado pelo Duo Paulo e PCA, os defensores do Zaire, a passar que foram os últimos  pelo palco.

O peso das duplas esteve presente na representação da Lunda-Sul, com o Dueto Afro Cokwe, de Madalex e Man Ipa, que recriaram e tornaram alegre "Choros de África”, com pitadas da Tchianda. Do Huambo vieram os irmãos Sunguete, Domingos e Constantino que não subiram ao pódio mas conquistaram a assistência com "Crueldade”.

A dupla do Moxico trouxe a mais nova representante que pensa afirmar-se na música, Telma Moneta, de 17 anos, que subiu ao palco com Pedro Feliciano. O poema escolhido pela dupla foi "Afirmação”.  

Supe Muteca, da província do Namibe, acompanhada pelo violão de Ezequiel Paulo, foi  a Voz Revelação. Já Lizandra Lourena, da Huíla, mostrou que tem potencial em "Voz de Sangue”.

Desfilaram e passaram pelo crivo do corpo de jurados António João pelo Cunene, que interpretou o poema "Criar”; mais uma vez o poema "Desterro” teve voz, desta feita de Bruno Gabriel, de Malanje.  "Havemos de Voltar” foi cantado por José Diotela do Bié, enquanto  Gradi Na Sol trouxe "Comboio Africano” da Lunda-Norte. E Chilumbo Elman, do Cuanza-Sul, mostrou a "Civilização Ocidental”.


Júri julgado pela assistência

Os concorrentes foram avaliados nos seguintes itens: composição, harmonia, enquadramento vocal, estética de execução e arranjo melódico e indumentária. O presidente do juri foi o músico e professor Emanuel Mendes. Ângela Ferrão, Akiz Neto, Rigoberto Fialho e Nadir Tati foram os outros membros do corpo de jurados.

Segundo a assistência, o júri não foi rigoroso nos critérios de avaliação do regulamento, que priorizava poemas de Agostinho Neto nunca antes pública e notoriamente interpretados musicalmente. Artistas de renome como Santos Júnior e Raúl Tollingas foram de opinião que a conquista de Acácio poderia ser evitada com a sua retirada e dando oportunidade a artistas que procuram trilhar novos caminhos.

Acácio, por sua vez, defendeu-se dizendo que não era sua intenção participar na fase provincial, mas convenceram-no. Emanuel Mendes e Ângela Ferrão, os músicos da mesa de jurados, assumiram que o regulamento não colocava barreiras à participação de músicos como Acácio e, de forma didáctica, acarinharam todos os concorrentes e deram como exemplo as suas próprias trajectórias artísticas, feitas de perdas e ganhos.

O 1° Concurso Nacional de Trova Cantar Agostinho Neto foi uma iniciativa da União Nacional dos Artistas e Compositores - Sociedade de Autores, para homenagear e enaltecer a figura do primeiro Presidente da República de Angola, figura incontornável da Cultura Nacional e esteve enquadrado nas comemorações do seu Centenário.


Duo Canhoto e Irmãos Kafala

A outorga do Diploma de Mérito ao Duo Canhoto e aos Irmãos Kafala (in memória) foram momentos altos da actividade. Ekuikui e Mito, membros do Duo Canhoto, foram reconhecidos pela resiliência e o seu percurso artístico na trova. E tiveram a oportunidade de cantar  "Negrura”.

Deolinda Costa (viúva de José Kafala) e Nadilson Kafala (filho de Moisés Kafala) receberam o diploma atribuído aos Irmãos Kafala. 

A organização pôs em exibição um vídeo onde foi contada parte da história do movimento da trova no país, no qual  não deixaram de ser mencionados nomes como Beto Gourgel, Waldemar Bastos, Trio Vikeia, Zé Fixe, Armando Rosa, Manuel Curado, Trio Melodial, Duo Missosso, Massangano, Quarteto Akapaná, Dom Caetano e Zeca Sá, Gabriel Tchiema, Mito Gaspar e outros. Foram recordados eventos como o Festival Nacional da Juventude e os dois festivais da canção política, nomeadamente "A Caminho das Estrelas” e "Um Canto Elementar Para Agostinho Neto”. Houve também a intervenção musical de Carlos Lamartine. Interessante foi a curta exibição do grupo Julu com a peça teatral "Ainda o Meu Sonho” e do grupo Coral Celebrate que interpretou "Adeus à Hora da Largada”. E na parte final aconteceu a exibição do Ballet Nzinga Mbande.


O que é a trova

A trova é, na literatura, um poema autônomo monostrófico, isto é, que apresenta uma única estrofe com sete sílabas poéticas em cada verso. Os quatro versos em redondilha maior devem oferecer ao leitor o significado completo da mensagem a ser transmitida. O nascimento da trova está estreitamente relacionado à poesia da Idade Média, quando esta composição poética se referia a qualquer poema e letra de música. Tal criação literária desenvolveu-se no tempo das Cruzadas, do sistema feudal e do prestígio do clero. Na Europa, mais especificamente na região sul da França e em Portugal, prosperou um movimento poético denominado Trovadorismo. Os poetas que se dedicavam a compor esses poemas eram conhecidos como trovadores. O significado completo da mensagem que o trovador deseja transmitir deve estar contido nos quatro versos.

(Fonte: "Estudo Prático  de Literatura”)

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