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Abril, chuvas mil

O mês de Abril mal tinha começado, o bairro já estava horrivelmente alagado e a nossa rua, como sempre, já se fazia intransitável. As crianças aproveitavam as pequenas ilhas para jogarem à macaca. Ao longe, na zona da Cacimba, no Tabaco Escuro, ouvia-se o coaxar dolente de uma rã solitária.

24/04/2022  Última atualização 12H40

Naquela manha, o céu voltou a arreganhar-se. Não era preciso ser bruxinho para prever um tremendo aguaceiro. Ia chover novamente.

A minha mãe, aflita com a hipertensão que a perseguia por anos, gritava para nós: hoje ninguém sai à chuva! Quem sair não vai almoçar. E nós, quais pequenos diabos, zarpamos na corrida, para os quintais com figueiras altaneiras, onde só se podia comer figos quando eles caiam por força do vento.

Em Abril, não havia chuva sem vento. Naquele ano, o vento veio muito agressivo, muito assustador. Cantava uma canção de terror, de pôr medo. A chuva começou miudinha. Intensificou-se. Já era torrencial. A minha mãe olhava apreensiva para o céu da janela da sala que dava para a rua. Pensava nos filhos: com esse vento todo, ainda cai um cabo eléctrico… será uma desgraça.

Bateu na boca. Fez o sinal da cruz, benzeu-se, e recitou baixinho um acto de contrição.

Menino, menino, o tecto da Celina voou com o vento. Era o meu pai, que, da varanda, gritava para um menino que brincava na chuva com os bolsos cheios de figos.

O menino era o Matias, escurinho, que, por ser gordinho e estar sempre com os calções às mãos, era insultado pelas crianças da rua, o que resultava inevitavelmente em perseguição e em surra. Por isso, ficou conhecido por Capitão do Mato.

A Celina chorava no meio da rua debaixo da chuva. Os miúdos inocentes riam-se da desgraça de quem, por força da natureza, havia perdido toda a graça.

A pedido do Capitão do Mato, lá fomos todos à rua de trás, na antiga horta do senhor Bexiga à busca do tecto. A horta albergava, naquela época, uma Unidade da Segurança do Estado. Ninguém podia ter acesso ao seu interior. As mangueiras estavam repletas de mangas. Os tanques a céu aberto, que serviam de reservatórios para água de irrigação, estavam todos cheios.

Imploramos ao chefe: viemos buscar o tecto da nossa vizinha, que voou com o vento da chuva.

Entramos. Tiramos as roupas. Mergulhamos nos tanques. Subimos nas mangueiras. Aproveitamos a oportunidade.

No final do dia, depois da chuva terminar, quando os flamingos iam a passar, a cantar "Motema ya pembe”, com os bolsos cheios de mangas (verdes e maduras), entrámos triunfalmente na rua com o tecto da vizinha completamente resgatado sobre as nossas cabeças.

À noite, enquanto os miúdos, lá fora, cantavam "Moybi yaka”, no quarto sem luz, e o meu primo Joel Fragoso, deitado na parte de cima do beliche azul, cantava "Sacrifice” de Elton Jonh, eu, no sono, recebia de Calíope o poema da chuva:

"Abril, chuvas mil

Chovia torrencialmente…/As casas de madeira – já velhas pelo tempo/Perdiam os tectos. /Os quintais de chapas de zinco inundavam. /As estradas esburacadas alagavam/E as crianças alegres a apanhar figos.

A chuva intensificou-se…/Os tectos mais resistentes/Carcomidos pelo sol/

- Qual rendas de tricô –/Coavam a água para dentro dos tristes lares.

- Matias, Matias, o tecto da Celina voou!/Gritava eufórico o velho Chico.

A vizinha chorava no meio da rua/Debaixo da chuva/E os miúdos do bairro, /Felizes com a desgraça/De quem perdeu a graça,/Riam-se.

Lá fomos à rua de trás, na horta,/Atrás das chapas da vizinha.

O Paulo Certo, metido a menino fino,/Ficava só a olhar da janela.

Depois, ao entardecer,/Quando os flamingos iam a passar,/Com os bolsos cheios de mangas,/O Mirandino, o Luís, o Totó, o Cuba, o Leitinho,/O Toy Grande, o Tetejo, Eu e o Nandinho/Entramos triunfantemente na rua/Com o tecto da vizinha resgatado/sobre as nossas cabeças.”

Quando voltei a mim, a nossa casa estava toda inundada. A mobília submersa, a loiça a boiar, os livros molhados e a minha mãe, sentada na mesa de centro, no centro da sala, a pensar na vida.


A.Fragoso Trindade

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