Opinião

Abismos e igualdades

Luciano Rocha

Jornalista

Os abismos a separar o país adiado do desejado são tantos e gravosos que exigem combate idêntico, no mínimo, ao encetado contra a corrupção e pilhagem do erário, o que significa persistente, mas, também, longo.

02/09/2021  Última atualização 05H40
As desigualdades sociais entre os excessivamente ricos, aos quais se podem juntar os apêndices, não só os ligados por laços de nepotismo e amiguismo, mas, igualmente, os candidatos, capazes de tudo a troco de fausto, quase sempre aparente e movediço, e os outros é aterrador.

As discrepâncias são de tal modo acentuadas e crescentes, que, além de alongarem o fosso entre os escandalosamente ricos e os sem nada, cada vez com menos, atingem já classes sociais que se julgavam isentas de preocupações do dia-a-dia.Aquelas dissemelhanças entre filhos do mesmo país estão patentes em todo o  território nacional, da capital ao mais distante e recôndito lugarejo, nuns casos mais dissimuladas, noutros, desleixadamente à vista.

Endinheirados e miseráveis chegam a habitar o mesmo espaço geográfico, limitado por fronteiras internas, mas não pisam os mesmos terrenos. Uns passam dias e noites a espreitar o céu, na esperança de vislumbrarem sinais de nuvens  e ventos que lhes tragam chuva. Que pode  significar comida, mas, em simultâneo, de coração apertado, pela iminência de lhes poderem derrubar arremedos de casa, lavras, o pouco que ainda lhes resta. Os outros, quando muito, ocupam mesmo o tempo a contar dinheiro. Nem os sapatos sujam, com lamas ou poeiras. Quando põem o pé fora de casa, transportam-se em carros e aviões.

As discrepâncias sociais neste país são de tal maneira  acentuadas, que, na mais recente visita à Lunda-Sul, o Chefe de Estado, com o conhecimento que as funções lhe proporcionam,  ao referir-se a sectores indispensáveis a qualquer sociedade moderna ou com aspirações a tal - educação e saúde, entre tantas -, manifestou aquilo que é  o desejo da esmagadora maioria de nós: "uma Angola desenvolvida e sem discriminação”.

O desejo, também promessa, ganhou força de alerta, na voz de João Lourenço, quando acentuou:  "o Executivo não tem filhos, nem enteados. Só tem filhos. Tem de os tratar a todos por igual. Ninguém deve sentir-se excluído, porque, efectivamente, não existe a intenção de discriminar nenhum povo e região do país”.

A frase, com força muito maior do que parece aos  menos atentos, é o compromisso governamental assumido do início de um combate que não pode esmorecer, seja a que pretexto, pois os angolanos são todos filhos da mesma Pátria. Independentemente do local de nascimento, residência, género, condição social, cor da epiderme, formação académica, até iletrados, ideologias  políticas, preferências ou filiações partidárias, religiões. Todos têm os mesmos deveres e direitos. Ninguém pode ser discriminado. Tudo princípios que todos têm obrigação de saber, mas, por causas diversas, uns desconhecem, fingem desconhecer ou simplesmente assobiam para o lado.

Todos, é verdade, deviam saber, inclusive os invariavelmente esquecidos por viverem em locais  de mais difícil acesso - não há destinos inatingíveis, quando existe determinação -, os sem casa, aqueles para quem a vida é  madrasta, que constituem o exército de mulheres e homens, novos e velhos, todos arrastados pelo desespero das injustiças, de direitos negados, esperanças perdidas. Juntem-se-lhes as crianças - o futuro? - abandonadas.  Há responsáveis, que primam pela irresponsabilidade, por todas - e quantas mais houver - aquelas situações desrespeitadoras dos direitos humanos.

O caminho para a "Angola desenvolvida e sem descriminação” é difícil e longo, mas tem de ser feito, custe o que custar, tal qual se desenrola contra os que pilharam e continuam a pilhar o bem público. 

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