Sociedade

“Abandonei um homem controlador e muito ciumento”

A mulher da história que começa a ser contada decidiu abrir o livro da sua vida conjugal, mas com a condição de não ser identificada na peça jornalística.

15/05/2022  Última atualização 10H25
© Fotografia por: DR

Viveu 17 anos numa união de facto, da qual nasceram quatro filhos, estando, actualmente, o primogénito e o segundo com 14 e 12 anos. O terceiro e o quarto filho têm, respectivamente, 8 e 4 anos.

Não percebe muito bem o que significa, tecnicamente, uma família desestruturada, mas tem a percepção de que a sua não está longe do conceito, por uma "razão muito simples”: o seu marido a maltratava física e psicologicamente, além de não ser um pai presente. Um pai que raramente senta à mesa com os filhos, que não é presente, mesmo estando em casa, e, quando se dirige às crianças, "só usa palavrões”.

Farta da vida conjugal, tomou a decisão de sair do "relacionamento abusivo”, um termo que, na conversa com o Jornal de Angola, reiteradamente pronunciou, por alegar ser "música nos seus ouvidos”, quando acompanha, por exemplo, o "Fala Angola”, um programa da TV-Zimbo, de grande audiência televisiva por abordar assuntos de natureza social, como a violência contra a mulher.

Quando decidiu viver com o marido, tinha apenas 20 anos. "Tudo parecia um mar de rosas”, conta a mulher, que diz ter ficado encantada com o que os seus olhos viam, durante o namoro: um homem respeitoso, educado e prestativo. 

"Inicialmente, a minha família gostou muito dele, por ser um homem cristão” conta a mulher.

Os anos foram passando e a vida da mulher, já como esposa, foi se tornando um calvário.  

O marido começou a mudar de comportamento, não a deixava sair de casa, para visitar a família, e não gostava que trabalhasse, mesmo por conta própria, para o ajudar nas despesas domésticas.

 

Tornou-se controlador e ciumento compulsivo 

Os primeiros sinais de relacionamento abusivo foram ofensas morais e agressões físicas leves.

"Como todo o casal briga, na altura não tive a necessidade de ir a uma esquadra da Polícia e abrir uma queixa contra ele, achando que, talvez com o tempo, pudesse mudar de atitudes”.

A mulher conta que, com o andar do tempo, as coisas só pioravam, mas, por terem filhos menores e por falta de apoio familiar, decidiu aguentar os maus-tratos.

Apesar da oposição do marido à ideia de entrar para o mercado de trabalho, a mulher arranjou vários empregos. Já trabalhou como balconista, numa loja de conveniência e já foi doméstica e, também, costureira-aprendiz. 

Não permanecia muito tempo num emprego, porque o marido a pressionava a desistir, fazendo chantagem emocional. 

"Cada vez que eu arranjasse um emprego, o meu marido ia à porta do meu serviço, para ver o que fazia e com quem conversava”.

Devido aos acessos de ciúmes, o marido a colocava numa situação de "total desconforto” diante de colegas e de "patrões”.

Quando regressava a casa, o marido comentava que, supostamente, a mulher tivesse um namorado no local de trabalho.

A mulher refere que, ao longo dos 17 anos de vida conjugal, "só foram mais tristezas do que alegrias”.

As discussões eram uma constante e aconteciam quando, por exemplo, decidia visitar a mãe ou alguns familiares. 

"Era motivo de problema e de agressões físicas e psicológicas, em frente das crianças”.  

Muitas vezes, tentou sair de casa, mais sem sucesso. Sempre que tentasse, era ameaçada de que viveria na rua e seria privada de ver os filhos. Por isso, acabava sempre por desistir. 

O casal, em 17 anos de vida conjugal, conseguiu construir duas moradias. Mas, depois de se ter separado, a mulher não vive em nenhuma das duas moradias, por decisão do pai dos filhos, que quer vê-la longe das moradias, por não serem casados, razão pela qual, no seu entender, "ela não tem direito a nada”.

Muitas vezes, quando era agredida, tentou ir à Polícia. Mas, por estar desempregada e depender totalmente do marido, desistia, postura que alterou no primeiro dia deste mês de Maio.

"Tomei a iniciativa de pôr fim à minha relação, por ter sofrido mais uma agressão física”, relata a mulher, que diz terem as agressões começado quando se preparava para visitar a sua mãe, uma pretensão que não teve o consentimento do companheiro.   

Diante dos filhos, foi agredida até ao ponto de o marido ter rasgado toda a sua roupa, ficando nua. Foi a gota de água. Abandonou a casa no mesmo dia, mas sozinha. O marido não a deixou sair com os filhos.

 

Medo do pai  

Foram os próprios filhos que a aconselharam a sair de casa, para onde não quer nunca mais voltar.

Os filhos vivem com medo de que "alguma  coisa ruim” possa acontecer à mãe. 

A mulher quer "salvar” os filhos, tirando-os do pai, mas está impotente e sem saber como fazer, por ser reiteradamente ameaçada por ele para não se aproximar às crianças nem às duas moradias.

Uma pausa foi feita na conversa, para a mulher respirar, por ter perdido, visivelmente, o fôlego, e ficado com o rosto banhado em lágrimas.

Recomposta, a mulher regressa à conversa, sublinhando que está "muito triste” por ter deixado os filhos com o pai.

O desejo de abandonar a casa com os filhos perdeu força quando ouviu do marido que, se fosse com os miúdos, não continuaria a pagar as propinas escolares.

 

Desestruturação familiar  

Existem vários factores que contribuem para a desestruturação das famílias, de entre eles os conflitos conjugais, a separação ou divórcio, a violência, ausência dos pais, ausência de controlo e autoridade, falta de regras e a ausência de figuras que impõem autoridade. 

Os factores mencionados contribuem para os desequilíbrios emocionais e psíquicos das crianças e adolescentes. 

Especialistas dizem que as famílias devem primar pelo diálogo e estabelecer regras que permitam a extinção de ambientes imorais e violentos.

A desestruturação familiar é um fenómeno social cada vez mais comum em Angola. O fenómeno existe por ser causado por vários factores, como a fuga à paternidade, monoparentelidade familiar, os relacionamentos pouco saudáveis entre casais, pais e filhos, irmãs e irmãos e a falta de diálogo entre os membros da família.


Manuela Mateus 

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